Mundo
04/11/2013 - 02h56

Guerra contra os pobres


John Kasich, governador republicano de Ohio, fez uma surpreendente campanha junto à Assembleia de seu estado, controlada por seu partido, para dar andamento à expansão do programa federal Medicaid, parte importante do Obamacare (reforma da saúde). Defendendo suas ações, não poupou os aliados políticos: “Estou preocupado porque parece que há uma guerra aos pobres. Se você é pobre, de alguma forma é indigno e preguiçoso.”
 
Obviamente, Kasich não é o primeiro a notar. Mas o fato de ser um republicano em boa posição (talvez agora não mais), que já foi conhecido como um conservador incendiário, diz algo. A hostilidade republicana em relação aos pobres e desafortunados atingiu um patamar tal que o partido não se posiciona sobre mais nada. A questão é por que. Mas vamos falar mais sobre o que está acontecendo.
 
Ainda há quem diga que o Tea Party se guia por preocupações com o déficit fiscal. É um delírio. Líderes republicanos tentam modular o discurso, mas é mais uma questão de tom que de conteúdo. Eles estão determinados a se certificar que os pobres recebam tão pouca ajuda quanto possível. Como disse o deputado Paul Ryan, presidente do Comitê de Orçamento da Câmara: o sistema de proteção social está se tornando “uma rede que embala pessoas saudáveis em vidas de dependência e complacência”. Esta hostilidade culminou na surpreendente resistência de muitos estados ao Medicaid, apesar do fato de que a expansão é custeada pelo governo federal e de que o dinheiro levaria benefícios aos hospitais e às economias locais, assim como aos diretamente assistidos. Mas a maioria dos estados controlados por republicanos parece preferir pagar um alto preço econômico e fiscal para evitar que a ajuda chegue aos pobres. Não foi sempre assim.
 
Em 1936, quando Alf Landon recebeu dos republicanos a indicação para disputar a presidência, seu discurso previu temas abordados pelos conservadores modernos. Ele lamentou a recuperação econômica incompleta e a persistência do alto desemprego. E atribuiu a fragilidade da economia à excessiva intervenção do governo e às incertezas que criava. Mas também dizia: “Não é só o problema da recuperação, mas igualmente a questão da assistência aos desempregados até que a recuperação se consolide. É uma obrigação. Nós prometemos que esta obrigação nunca será negligenciada.”
 
Você pode imaginar um republicano moderno dizendo isso? Não num partido que assume que os desempregados, abastecidos pelo seguro-desemprego e pelos cupons de alimentos (food stamps), não têm incentivos para conseguir um emprego. Então, do que se trata? Em ensaio recente, o sociólogo Daniel Little sugere que o norteador deles, hoje, é a ideologia do mercado: o mercado está sempre certo, então as pessoas que acabam pobres devem merecer ser pobres.
 
Além do mais, há a questão racial: pesquisas qualitativas junto a membros de facções republicanas mostram que a base do partido “é muito consciente de ser branca num país em que é cada vez mais minoria” e vendo programas sociais como uma auxílio “àquela gente”, não a pessoas como eles mesmos, e algo que ata a crescente população não-branca ao partido Democrata. E, sim, a expansão do Medicaid que muitos estados rejeitaram ajudaria negros pobres. Então, há, de fato, uma guerra contra os pobres, coincidindo com o aprofundamento das dores de uma economia conturbada. E esta guerra é agora o tema central, o fator definidor da política americana.




 
Paul Krugman é colunista do “New York Times”
 

Comentários (0)


Fala Santos
E-mail: contato@falasantos.com.br
© 2010 Fala Santos. Todos os direitos reservados. site criado por