Política
24/12/2013 - 19h51

O enigma das rendições no Araguaia


Está na rede um depoimento excepcional. É o áudio de 92 minutos da audiência do general Álvaro Pinheiro à Comissão Nacional da Verdade. No dia 12 de novembro, no Rio, ele respondeu às perguntas de dois assessores da CNV no salão nobre do Arquivo Nacional. Havia uma pequena plateia de militares que permaneceu em silêncio, e a sessão esteve livre das teatralidades comuns a esse tipo de evento.
 
O general Pinheiro fez sua carreira militar nas forças especiais do Exército. Ainda tenente, em 1972 foi ferido num combate no Araguaia. Retornou à área da guerrilha e esteve 247 dias na floresta. É dele a melhor analise militar da campanha, publicada em 1995.
 
Pinheiro é um crítico da Comissão da Verdade (“canalhice sem tamanho”, por olhar só para a ação do Estado). Usando palavras duras (aquilo não era guerrilha, mas “foco terrorista rural”), deu um depoimento didático, cordial mesmo, exprimindo a opinião de muitos militares que foram mandados para o Araguaia. Não deu nomes, datas ou eventos.
 
Aos 70 minutos e 10 segundos do depoimento, quando tratava da atuação das forças especiais, ele disse: “Às vezes o cara se rende, às vezes o camarada se entrega. (...) Às vezes o sujeito chegava na base, não quero mais, e tal. Houve casos assim.”
 
Quando um dos assessores perguntou-lhe por que não se conhecem casos de guerrilheiros que se renderam nessa fase, porque nela não houve sobreviventes, respondeu: “Não tenho a menor noção. Não tenho como lhe dizer a esse respeito.”
 
O general nega que tenha havido uma ordem para exterminar os guerrilheiros e argumenta que, se ela tivesse existido, teria sabido.
 
A relevância do depoimento de Pinheiro está em três de suas palavras: “Houve casos assim.” Até outubro de 1973, quando começou a última fase do combate, foram presos uns poucos guerrilheiros. Nenhum entregou-se numa base, nem diretamente à tropa militar. Pelos seus depoimentos, dois foram levados aos militares por moradores da região. Uma, sem dúvida, desejando-o. A partir de outubro a guerrilha foi combatida pelas forças especiais e, três meses depois, transformou-se numa debandada.
 
Numa guerrilha que começou com a fuga do chefe político (João Amazonas, em 1972) e terminou com a do chefe militar (Ângelo Arroyo, em 1974), haviam sobrado na floresta cerca de 35 jovens militantes do PCdoB. Desapareceram todos.
 
Até hoje os depoimentos de pessoas que viram guerrilheiros capturados a partir de outubro de 1973 vinham de moradores. Essa foi a primeira vez que um militar combatente falou em rendições, com guerrilheiros que iam à “base”, que podia ser um acampamento na floresta. Elas eram estimuladas por mensagens transmitidas por alto-falantes colocados em helicópteros e por panfletos que diziam: “Oferecemos a possibilidade de abandonar a aventura com vida, com tratamento digno e julgamento justo. Lembrem-se, o Brasil precisa de todos os seus filhos.”
 
• O depoimento do general está no seguinte endereço e merece ser ouvido inteiro: http://www.4shared.com/mp3/6uPTzn8y/Alvaro
 
A mágica nova e outra, velha
 
Está em curso uma mágica financeira por diversos estados. O governador quer se endividar, mas prefere não buscar créditos na União. Aparece um banqueiro e oferece-lhe um empréstimo em dólares, desde que o governo federal seja o avalista. Um telefonema para o Planalto, vem a garantia e o empréstimo sai, a juros que parecem camaradas.
 
Tudo bem, até o dia em que, por alguma razão, o câmbio vier a mudar de direção. Nessa hora o estado quebra e a Viúva federal terá que honrar a garantia, reabrindo-se assim a fábrica de esqueletos que assombrou o país antes que Fernando Henrique Cardoso consertasse suas contas.
 
Numa época em que o governo federal permite mágicas desse tipo bem que seu mágicos poderiam olhar para trás. Em 1973, ajeitou-se a taxa de inflação. Depois, criaram-se grande projetos que em algumas operações serviam para inflar as contas de investimentos estrangeiros com fornecimento de máquinas. O governo comprava o que não precisava, os bancos financiavam e as fornecedores faturavam. (As locomotivas elétricas compradas pelo governo de São Paulo viraram sucata.)
 
Em 1983, quando havia poucas mágicas disponíveis, Pindorama estava quebrada e a agência do Banco do Brasil em Nova York não tinha caixa para fechar suas contas ao fim do dia. Inicialmente, esse buraco era coberto por algum grande banco americano com depósitos feitos à ultima hora, sacados na manhã seguinte. Quando nem isso se conseguia, os feiticeiros faziam o seguinte:
 
Cobriam o buraco trazendo rapidinho ouro extraído da mina de Serra Pelada. Como a Casa da Moeda não tinha certificação internacional para cunhá-lo, acertou-se um esquema com o banco Morgan. Um funcionário, no Rio, presenciava a decolagem para Nova York do avião com os lingotes. Telefonava para a matriz, informava o valor transportado e ela depositava o equivalente na conta do Banco do Brasil. Depois, ia tratar da cunhagem.
 
Meses depois o Brasil quebrou de vez. Nessas operações, segundo o banqueiro que coordenava o socorro, o Morgan ganhou US$ 25 milhões para ver ouro voar.
 
Vai piorar
 
O Ministério Público que investiga a rede de propinas da Secretaria de Finanças de São Paulo já dispõe de elementos que indicam sua atividade bem longe no passado.
 
Outras narrativas informam que durante a prefeitura de Kassab era possível anular multas fazendo-se doações para cobrir dívidas de campanha.
 
Eremildo, o idiota
 
Eremildo é um idiota e leu o cartapácio programático que o senador Aécio Neves divulgou na semana passada. Por cretino, é incapaz de achar uma ideia num texto. Por isso, concordou integralmente com tudo o que escreveram.
 
Depois, soube que há a possibilidade de o tucanato recorrer aos préstimos do marqueteiro Duda Mendonça. Ocorreu-lhe sugerir um nome para tesoureiro dessa campanha. Precisa de emprego, tem experiência. Chama-se Delúbio Soares e mora na Papuda.
 
Madame Natasha
 
Madame Natasha encantou-se quando soube que a doutora Dilma disse que na sua gestão da economia prefere “a linha Churchill: sangue, suor e lágrimas”.
 
Natasha lastima que a doutora tenha repetido um mau hábito ao citar frase de Sir Winston. Completa, ela é assim: “Não tenho nada a oferecer, senão sangue, suor, lágrimas e trabalho”.
 
As pessoas adoram esquecer da palavra “toil”, que em português claro significa “ralação”.
 
Alegria do ano
 
A doutora Dilma acha que em agosto passado recebeu um presente tardio do Natal de 2012 quando nomeou o embaixador Luiz Alberto Figueiredo para o Ministério das Relações Exteriores.



 

Elio Gaspari, jornalista
 

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