Entrevistas
13/08/2014 - 08h17

Feitiço da Vila, um plágio de Noel Rosa


Na longa entrevista que me deu, o violonista Henrique Annes indicou três grandes plágios na música popular brasileira. Um deles cometido pelo fundamental Noel Rosa. Antes, vale a pena uma breve apresentação do violonista.
 
Em 25 de julho deste ano, Henrique fez 68 anos. É uma idade em que se incluem a preparação para a música no tempo de infância, curta, porque tão menino já se apresentava entre os grandes do violão de Pernambuco, mais os anos de execução, mais os anos de espetáculos em casas de amantes da música, como a do violonista e médico Racine, mais as suas viagens pelo Brasil e apresentações em palcos.
 
Como 68 anos? O fenômeno da vida a matemática não explica. Se formos somar o que Henrique Annes tem percorrido e recupera, quando toca e fala, ele tem muito mais que 68 anos X 6. Mas nada de Matusalém, entendam. É que a duração da sua vida se alarga absoluta na memória.
 
Henrique Annes fala de coisas que pareciam para sempre sepultadas, esquecidas, e com um frescor vital como se nos levasse por um túnel claro, cheio de luz. São revelações musicais que parecem ter acontecido agora, neste exato instante, tamanha a naturalidade e ausência de pó com que ele nos fala. Aquilo que um romancista faz como um curador do tempo, Henrique à sua maneira também faz, soprando a poeira de discos vinil, que ficam novinhos em folha e se põem a rodar, nas suas gordas mãos e obesa memória.
 
Curador do tempo da música, outra imagem não nos vem pelo que Henrique fala e quando toca descobertas de espantar, pela qualidade de um tesouro mágico, ou pelas polêmicas, como um plágio de Noel Rosa, em que Noel Rosa é que é o plagiador, ou como um plágio de Jacob do Bandolim, em que Jacob é quem plagia.
 
E mais outro de Zequinha de Abreu Falando sobre esses pecados, ele poderia dizer “ninguém é perfeito”, mas não, ele fala essas coisas sem raiva, sem maldade, como se fosse um menino grande que tocasse no sexo das moças e falasse “isto é bom, não é? Hem? Tu me dá um pedacinho?”. Assim ele fala, com voz de barítono e rosto de menino de oito anos de idade.
 
Assim de passagem apresentado, vamos aos trechos da entrevista em que Henrique aponta os plágios feitos por 3 importantes compositores brasileiros.
 
Henrique Annes – Aquela música (cantarola “quem nasce lá na vila, nem sequer vacila… lararará”), isso não é Noel Rosa?

É, agora preste atenção nesta canção (E cantarola uma valsa, com a letra: “quero te dizer, querida, na hora da partida, toda imensa dor”, lararari, lararará…) É Noel? Hum, não… É de Alfredo Medeiros, na composição Único Amor, feita em tom menor. A composição de Alfredo Medeiros veio antes, a melodia é reproduzida depois no samba de Noel Rosa, no começo de Feitiço da Vila.
 
(Depois, pesquisei e vi: Único Amor, de Alfredo Medeiros, gravada por Augusto Calheiros em 1927 na Odeon, recebeu sucessivas gravações – ver http://www.youtube.com/watch?v=Klf73NBO7Dg. Já a fundamental Feitiço da Vila, um dos maiores clássicos de Noel Rosa, é de 1934.)
 
Entrevistador – Parece incrível… Também e verdade que Jacob do Bandolim teria plagiado Canhoto da Paraíba?
 
Henrique Annes – O choro “Tua imagem”, de Canhoto da Paraíba, é conhecido em todo o Brasil. Foi gravado pela Rozenblit. Fez sucesso o long-play. Eu fiquei conhecido, acompanhando no vilão, graças a Canhoto. E Jacob era um homem muito inteligente, era um homem assim muito capaz, ele tinha o talento, tinha sabedoria, tinha cultura, era um homem que lia muito, ele tinha um programa na Rádio Nacional… aí Jacob pegava muitos temas de pessoas e fazia choros.
 
Entrevistador – E você acha que realmente Jacob do Bandolim plagiou Canhoto da Paraíba?
 
Henrique Annes – Tem um choro chamado Horas Vagas, de Jacob. A primeira parte do choro todinha (solfeja “tiririri, tararará…” ) é reprodução de Tua Imagem. Aí ele muda, no meio da primeira parte, ele muda. Tem gravação disso. Ele gravou isso.
 
Entrevistador – Ele não fez isso por acaso.
 
Henrique Annes – Não, Jacob conhecia. Ele deve ter dito: “esse tema é de Chico, eu vou aproveitar”.
 
Entrevistador – Ele pegou o tema e desenvolveu. Mas não tem uma regra legal, pra dizer quando é plágio e quando não é?
 
Henrique Annes – Sim, de 17 compassos, não é? Mas Jacob passou disso. Vai muito além disso. Está num disco que foi gravado, não por ele, mas por Déo Rian.
 
Entrevistador – Então significa o quê? Canhoto fez o choro primeiro, e Jacob faz o desenvolvimento depois. Mas tecnicamente é um plágio.
 
Henrique Annes- E coincidência musical. Olhe outra. (Henrique solfeja Tico-tico no fubá: “tarará-tatá, tatatá…) Isso é plágio de uma Sonata de Beethoven. Modéstia à parte, eu ouço música 24 horas por dia. Conheço os Quartetos de Beethoven, conheço a obra de Beethoven completa, conheço Mozart, conheço Bruckner, conheço muito, modéstia à parte. O que eu posso ouvir, eu ouço. Então, tá na cara. A Sonata de Beethoven é (solfeja trecho). É o que Zequinha de Abreu pegou pro Tico-tico no fubá. Agora, veja bem. Você pode fazer uma música (ressalta) inspirada em um tema e mudar a posição daquelas notas todinha. Modo contrário, entendeu?
 
Entrevistador – Mas no caso de Jacob e de Canhoto da Paraíba é muito em cima, não é?
 
Henrique Annes – É. Você chega à conclusão que ouviu o disco de Canhoto, quando ouve Déo Rian tocando Horas Vagas.
 
Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.
 

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