Entrevistas
12/09/2014 - 01h09

Entrevista com D. Pedro I


Para este 7 de Setembro, a colunista Ana Helena Tavares imaginou uma entrevista com o personagem histórico, D. Pedro I, que, depois de ter proclamado a independência do Brasil e ter sido rei em Portugal, viveria, em Lisboa, retirado da política, perfeitamente lúcido e sem problemas de memória. Entrevista bastante oportuna, pois D. Pedro aproveita para esclarecer que a nossa independência só passou a valer no 7 de abril de 1931, quando entregou a Coroa ao seu filho ainda menor e mudou-se para Portugal. “O Brasil se tornou independente no dia em que entreguei a coroa”, enfatizou.
 
Podemos começar a entrevista tocando num assunto delicado? Sua relação com a Marquesa de Santos…
 
- Gosto de sua ousadia… Vamos lá… Foi minha tresloucada paixão, é a verdade. Mas o trono falou mais alto, assumo e lamento por não ter atendido o meu coração. Talvez tenha sido essa mulher, de tão retumbante fama, a única, na história das Américas, que encheu um império com o ruído de seu nome e o escândalo de seu amor.
 
Nossa paixão começou a pegar fogo na noite de minha consagração. No teatro, houve grande espetáculo de gala e lá estava ela, Domitila (futura Marquesa de Santos), linda. Eu, com meu sangue erótico dos Bragança, não conseguia lhe tirar os olhos. Por intermédio de meu fiel escudeiro, Chalaça, marquei um encontro na casa dela e lá fui eu disfarçado com uma capa preta… Creio que não é preciso dizer o que houve depois…
 
Desde então, perdi-me por ela. Todos os encontros, fosse uma longa noite de amor ou uma breve troca apaixonada de olhares, foram igualmente intensos. No entanto, a sociedade, hipócrita como é, não via com bons olhos a moça desquitada. Não a achavam”à altura” de um imperador. Mas eu amava e como amava. Intrigas de falsos amigos e caprichos do destino tornaram impossível nosso casamento, mas nunca a esqueci e me vi obrigado a ser dela amante, presenteando-a com um solar que se constitui em nosso ninho de amor.
 
Tudo bem, o senhor falou bem mais do que eu esperava ouvir. Mudemos de assunto… Agora que vossa majestade pode desfrutar de um maior tempo livre, morando em Lisboa, o que costuma fazer para aproveitá-lo?
 
- Primeiro deixe-me agradecer por, apesar de tudo, ainda me chamares de majestade… Fico emocionado…
 
Não há aquela história de “quem foi rei nunca a perde”? É o respeito, ou melhor, a força do hábito…
 
- Compreendo… Quanto à minha vida atual, de fato tenho tido mais tempo para minhas grandes paixões: os desportos e a música. Adoro tocar piano, compor… E passo horas a cavalgar.
 
Pronto, lá chegamos onde eu queria… Falando em cavalgadas, é mesmo verdade que vossa majestade proclamou a independência do Brasil, estando montando a cavalo, à beira do riacho Ipiranga, de onde gritou “Independência ou Morte”?
 
- Veja bem, pá! Há muitas falácias a respeito deste assunto… Na ocasião, eu de fato estava a cavalgar à beira do Ipiranga, voltando de uma visita que havia feito a Santos. Foi quando recebi de um mensageiro notícias de minha esposa e de José Bonifácio, dando conta de descabidas decisões de Lisboa. Irritado e já inclinado a fazê-lo, decidi por oficializar ali mesmo a independência do Brasil, na esfera política, que fique claro. E esta, se não fosse declarada por mim, seria inevitável que o fosse por outro meio. Quanto ao mito de eu ter empinado o cavalo e proferido o tal grito, convenhamos que se eu lhe responder não haverá mais o mito…
 
Majestade, não há fontes seguras da existência do grito. Mas, pelo que parece, o senhor quer manter o glamour… Não tem nada a dizer sobre os boatos de que sua parada naquele local tenha sido provocada, na verdade, por uma indisposição intestinal?
 
- “Manter o glamour”, “boatos”, “indisposição intestinal”… Trabalhas para algo sério ou para a Veja?
 
Aceito todos os xingamentos, mas isto não! Vossa majestade bem sabe que sou freelancer. Respeito que não queira desfazer o mito. Mas, sobre as decisões de Lisboa, o que havia de tão “descabido”?
 
- Bom, primeiro que, uma vez que eu era príncipe-regente, não poderia admitir receber ordens da Corte. Queriam recolonizar o Brasil! E já vinham dando sinais disto deste o início de 1822. Exigiam o meu retorno imediato a Portugal, mas os brasileiros, através de um documento que trazia oito mil assinaturas, entregue a mim por José Clemente, então presidente do Senado, pediram que eu ficasse em terras brasileiras.
 
Em 9 de Janeiro daquele ano, sentindo-me apoiado, resolvi ficar. Foi o famoso “Dia do Fico”. Naquela ocasião, eu de fato disse: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto, diga ao povo que fico”. Minha decisão provocou manifestação contrária das tropas portuguesas instaladas no Brasil sob o comando de Jorge Avilez. Fui obrigado a intervir pessoalmente para que as tropas se retirassem do Rio de Janeiro.
 
Para impedir que novas medidas recolonizadoras fossem impostas, fui aconselhado por meu ministério, em Maio de 1822, a criar um decreto pelo qual as ordens vindas das Cortes Portuguesas só iriam ter validade caso fossem confirmadas por mim. Foi o que chamamos de “cumpra-se”. Ou não. Começamos a descumprir solenemente as ordens e, a 1º de Agosto, foi criado um Ministério do Reino, chefiado pelo meu grande amigo José Bonifácio.
 
No dia 6 de Agosto, ou seja, 1 mês antes da data histórica, já havíamos assinado o que chamamos de Manifesto às Nações Amigas, anunciando a independência do Brasil. Politicamente, repito. A notícia que recebi à beira do Ipiranga dava conta de que a Corte, em represália, havia anulado todos os meus decretos. Foi a gota d’água.
 
Vossa majestade insiste que a emancipação do Brasil foi somente na esfera política. Poderia explicar melhor isso?
 
- Jovem, o 7 de Setembro não foi um ato isolado meu. E nem adianta uma pessoa achar que pode revolucionar sozinha um país, pois tudo depende da conjuntura e do somatório de forças. O 7 de setembro foi um acontecimento que integra o processo de crise do antigo sistema colonial, iniciado com as revoltas de emancipação no final do século XVIII. Quero dizer que é tudo um processo, percebes?
 
E qual a revolução que eu fiz com meu grito? Em que aquele fatídico dia alterou a realidade socioeconômica brasileira? Em nada. Depois de velho, não devo mais nada a ninguém, nada mais tenho a perder, e tenho autocrítica suficiente para saber que o meu verdadeiro papel na História é infinitamente menor que o endeusamento feito da minha figura. Ora, o Brasil manteve-se até a data de minha renúncia (1831) com as mesmas características sociais do período colonial.
 
As coisas não mudam facilmente em uma década. Não houve ruptura brusca com o passado e não tenho problemas de assumir isso, pois seria impossível para mim, sozinho, dar um grito e dizer: “Mudou!”. Não é assim… Sou apenas parte de uma história que, tenho certeza, será ainda muito linda.
 
Mas para isso será preciso aniquilar de vez o trabalho escravo e não basta assinar um papel. Será preciso acabar com o latifúndio e, quanto a essas coisas, jovem jornalista, lamento crer que o processo para transformá-las levará ainda séculos…
 
Obrigada por me chamar de jovem… A propósito, como foi renunciar em favor de seu filho?
 
- Vamos ao contexto… No início de Abril de 1831, a Corte passava por uma ocasião bastante delicada: grupos exaltados davam ênfase à necessidade de se instalar a República. A imprensa, hipócrita como sempre, pregava o “dever sagrado de resistência à tirania”. A pressão era constante e, no dia 5 de Abril, não tive outro jeito senão fundar um novo ministério – a que chamei de Ministério dos Marqueses (descritos pelo historiador Werneck Sodré como sendo “todos notáveis pela sua impopularidade”).
 
No dia 06, já ao primeiro raio de sol, numerosos grupos aglomeravam-se no Campo da Aclamação – lugar onde, anos antes, eu havia sido coroado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Os tais grupos foram levados por boatos – sempre a imprensa! (diz ele, com sorriso debochado) – de que eu iria partir para a truculência contra a oposição. Impunha-se a volta de um gabinete formado por liberais brasileiros.
 
Foi quando eu disse: “Tudo farei para o povo, mas nada pelo povo”. Para mim, estavam sendo manipulados. Às 23h daquele fatídico dia, aos populares concentrados no Campo da Aclamação, uniram-se os corpos de tropa sob a liderança do brigadeiro Francisco Lima e Silva.
 
Desgostoso e sem ter como contornar a crise, na madrugada do dia 07 de Abril de 1831, apresentei minha renúncia. Deixei o palácio sem me despedir do meu filho, meu herdeiro, mas enviei-lhe mais tarde uma carta na qual dizia: “(…) retiro-me para a Europa (…) para que o Brasil sossegue, o que Deus permita, e possa, para o futuro, chegar àquele grau de prosperidade de que é capaz. Adeus, meu amado filho, receba a bênção de seu pai que se retira saudoso sem mais esperança de o ver”.
 
Tenho para mim, no dia em que entreguei a coroa, promovi uma independência ainda maior para o Brasil, pois deixei lá um rebento com sangue brasileiro. Rebento que, com seu reinado bem mais longo, conseguiu colocar em prática ideias progressistas, até bastante diferentes das minhas. Orgulho-me muito dele e creio que superou o pai.
 
Consta, majestade, que, pedindo sua saída, os populares gritavam pelas ruas: “Passa fora pé-de-chumbo / Vai-te do nosso Brasil / Que o Brasil é brasileiro / Depois do 7 de Abril”.
 
- A ingratidão ataca todo governante, minha jovem, tenha ciência disso. Mas não é culpa do povo. A política é mesquinha. Embora saiba que minha contribuição foi pequena, minha realização é que meus tataranetos possam viver num país realmente livre. O Brasil de dois séculos depois do meu grito é muito mais parecido com aquele com o qual meu filho sonhou do que com o que aconteceria se dependesse da ganância dos meus antepassados descobridores. Perfeita nenhuma nação é, mas o Brasil tem tudo para ser o paraíso na terra. Fazer parte da história deste país foi o melhor presente que a vida me deu.

 
Correio do Brasil / Ana Helena Tavares
 

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