Cultura e Entretenimento
30/04/2015 - 10h33

Casa Grande: um espelho do Brasil




Dos meus sete aos quinze anos estudei no Colégio de São Bento. Incrustado no centro histórico do Rio de Janeiro, junto ao Mosteiro de São Bento, o tradicional colégio possui uma característica única na cidade: apenas meninos podem estudar lá. Além, claro, de sua refinada educação clássica organizada pelos beneditinos – tive que ler a Odisseia e a Ilíada de Homero aos quatorze anos, o que foi realmente muito útil em minha vida, particularmente para saber desde o início que Heitor e Aquiles morreriam no fim de Tróia para o desespero de algumas incautas fãs de Brad Pitt e Eric Bana.
 
Ironias à parte, digo isso pois as melhores lembranças daquele período vieram na minha mente durante a estreia de Casa Grande. Escrito e dirigido por Fellipe Gamarano Barbosa – também ex-aluno de lá – o filme se passa em grande parte no CSB e traz como pano de fundo a vida e os dilemas extraordinários que apenas um jovem de 17 anos poderia ter.
 
O protagonista Jean, vivido por Thales Cavalcanti, é o filho de uma família da alta burguesia carioca. Quando uma crise financeira atinge seu pai, interpretado por Marcelo Novaes, Jean é obrigado a ter mais contato com a realidade. Primeiro com a demissão do motorista e amigo Severino o que o obriga a andar de ônibus. Em seguida ao conhecer no ônibus Luiza, uma estudante de escola pública “filha de mulata com japonês”.
 
Aliás, está aí o maior mérito de Casa Grande. Mais do que uma homenagem ao colégio e a todos que por lá passaram, Fellipe Barbosa conseguiu fazer um filme que retrata fielmente a assimetria social e o consequente conflito de classes de uma cidade como o Rio de Janeiro.
 
Na coadjuvante Luiza encontramos o contraponto popular e corajoso ao discurso elitista dos pais do protagonista. O auge dessa disputa de narrativas se dá em torno do tema das cotas nas universidades e da questão racial ainda mal resolvida no país. No meio de tudo isso está Jean ainda em processo de observação e compreensão de dois mundos em disputa.
 
A Casa Grande que serve de cenário principal para o filme fica na Barra da Tijuca. Mas poderia estar em qualquer bairro da Zona Sul do Rio, nos Jardins de São Paulo ou em Boa Viagem no Recife. Os diálogos e os conflitos entre patrões e subalternos do roteiro são mais do que comuns em nosso dia a dia.
 
Dizem por aí que a melhor forma de se solucionar um problema é identifica-lo, conhece-lo bem e profundamente. Sem dúvida alguma Casa Grande contribui para nosso autoconhecimento, para a percepção de nossos preconceitos cotidianos.
 
Fellipe Barbosa conseguiu fazer de seu filme um grande espelho do Brasil. E por isso já merece ser considerado o melhor filme brasileiro de 2015.




 
Theófilo Rodrigues, é cientista político.
 

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