Entrevistas
06/07/2015 - 04h58

EUA tiram a internet do ar em qualquer país, alerta especialista


É impossível ter garantias de que os EUA pararam de espionar o Brasil. A afirmação é do secretário-executivo do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Hartmut Glaser. A instituição administra a distribuição de endereços eletrônicos e zela pelo bom funcionamento da rede no país. Segundo Glaser, em entrevista à agência britânica de notícias BBC, porém, um dos resultados positivos do caso foi dar ao Brasil protagonismo em uma área que tende a ganhar importância nos próximos anos: a busca pela formulação de um sistema de governança internacional da internet.
 
O secretário-executivo do CGI disse aos jornalistas que, em parte pressionados pelo escândalo da NSA, os Estados Unidos concordaram em abrir mão da tutela que, desde os anos 90, exerciam sobre a chamada Corporação da Internet para Designação de Nomes e Números (ICANN), entidade que administra questões técnicas fundamentais ligadas a internet, como a distribuição de domínios. Segundo Glaser, o problema é que hoje, tecnicamente, os Estados Unidos podem ‘desligar a internet’ de qualquer país.
 
Na terça-feira essa transição foi um dos temas discutidos em São Paulo na iniciativa conhecida como NetMundial, encontro que contou com a presença do presidente da ICANN, Fadi Chehadé, e com o Ministro de Administração do Ciberespaço da China, Lu Wei.
 
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida à BBC pelo secretário-executivo do CGI durante a reunião:
 
– Dois anos após o escândalo da NSA, em que avançamos no que diz respeito às garantias contra esse tipo de espionagem?
 
– É muito difícil responder isso de forma direta. Acho que, para começar, nunca foi provado que o problema denunciado pelo Snowden estava ligado a internet. Pode ser que a espionagem tenha ocorrido via telefônica, por celular. Na abertura de nosso evento da NetMundial, o ministro chinês (Lu Wei) lembrou que em tudo (o que diz respeito a rede) há um lado positivo e um negativo. Temos cada vez mais usuários na internet – o que é bom. Mas isso de fato também aumenta o risco de existência de hackers e de uma invasão indesejada.
 
– Mas então não há como limitar a espionagem ou a exposição de alguns dados na rede?
 
– Você nunca vai ter uma estrada que não tem acidente. Ou melhor… na realidade, é muito fácil acabar com todos os acidentes da (Via) Dutra: basta fechar a Dutra. Mas isso é aceitável? Não. O mesmo ocorre com a internet. Há alguns anos teve um juiz que mandou ‘desligar’ o YouTube (no Brasil). O que aconteceu: em vez de resolver um problema, criou milhares de outros. Precisamos tomar cuidado com os extremos. A internet é uma ferramenta essencial, muito útil, mas deve ser usada com critério. Não é culpada de nada.
 
– Como avançamos?
 
– Um passo importante é treinar os usuários a lidar com essa nova realidade. Muita gente acaba expondo os seus dados e a sua intimidade nas mídias sociais, por exemplo. Na minha época, algumas meninas mantinham diários escondidos. Hoje, os jovens revelam tudo no Facebook. Isso é parte de uma revolução, uma expressão de uma nova sociedade que está surgindo. Não sou contra mídias sociais, mas é preciso tomar cuidado com informações pessoais. Até com o telefone é preciso cuidado. Não dá para entregar a sua vida de bandeja. Milhares de empresas, quando contratam alguém hoje, fazem a varredura na internet e redes sociais. Dá para saber se um candidato tem uma vida noturna agitada e etc. Então (proteger nossos dados e intimidade) não é algo que depende do CGI, da ICANN ou do governo, depende de todos nós.
 
– Algumas pessoas acham que estão imunes à lei na internet?
 
– O Google por exemplo tem publicado imagens de casais no topo de prédios ou na praia em momentos de intimidade (as imagens são captadas para o Google Maps). De certa forma isso é invasão de privacidade, mas intimidade se faz em casa, certo? A tecnologia criou uma nova realidade e as pessoas têm de se conformar com algumas coisas e aprender a lidar com isso. Precisamos nos acostumar a essa vida nova. Além disso, incitação a bagunça, nazismo, racismo, terrorismo, tudo isso já está proibido pela lei. A internet é só mais uma mídia, o que você não publicaria em um artigo de jornal não pode publicar na internet.


Correio do Brasil 
 

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