Culinária e Gastronomia
10/11/2015 - 07h27

A questão agora é quais cervejas tomaremos


‘Há um tempero admirável na veia do cervejeiro brasileiro: a criatividade’, diz colunista

 
Vamos tomar uma cerveja? A resposta a esse convite bem carioca já foi mais simples, mas também bem menos saborosa, instigante e surpreendente. Decidíamos entre duas ou três marcas e escolhíamos o lugar onde era servida. Hoje, as casas onde encontramos as chamadas cervejas especiais têm a cara de um pequeno armazém, onde dezenas — às vezes, centenas — de rótulos dos mais diversos formatos, das mais inesperadas origens, das mais diferentes intensidades, cores e sabores se acotovelam nas prateleiras ou se enfileiram nas chopeiras. São ales, pale ales, indian pale ales. E as porters e stouts, sessions e as saisons, assinadas por personagens, principalmente europeus e americanos, que se tornaram cultuados e admirados como artistas e celebrados como astros do futebol.
 
Como isso aconteceu? Em dois momentos. No primeiro, no início dos anos 90, quando o governo Collor abriu as importações. Com o dólar favorável, chegaram levas de cervejas estranhas ao nosso paladar e ao nosso bolso. Mas, quando começávamos a gostar, as remessas, que chegavam sem qualquer solução de continuidade, se esgotavam. Depois dos choques do dólar, quase sumiram — mas não sem antes deixar uma série de sementes plantadas em nosso paladar.
 
Foi nesse subterrâneo cambial que aquelas sementes começaram a brotar em nosso paladar fértil. E, sutilmente, veio o segundo momento, após a virada do século XXI. Foi o tempo em que cervejeiros caseiros dos mais diversos pontos do país faziam as primeiras tentativas, seguindo os modelos americanos de cervejas caseiras. Para as panelas domésticas, buscavam lúpulos e maltes importados e produziam primeiro para amigos, depois para grupos locais, escalas estaduais e, hoje, para prateleiras nacionais.
 
Mas há um tempero admirável na veia do cervejeiro brasileiro: a criatividade. Graças e ela e a sabores bem nossos, do açaí ao maracujá, que caímos no mundo e retornamos com prêmios, medalhas e distinções na bagagem, entre elas as que firmaram o Brasil como núcleo global da cerveja artesanal. Essas cervejas, com destaque para as pioneiras Wäls, de Minas Gerais, e Colorado, do interior de São Paulo, mandam nas cartas de casas especializadas e conquistam mais e mais e mais adeptos. E adeptas, já que os próprios comerciantes celebram a multiplicação das mesas exclusivamente femininas em um espaço que já foi insuportavelmente masculino.
 
O fenômeno de consumo tornou-se uma explosão cultural. Já fomos 40, somos 400, chegaremos, fácil, aos 4 mil. Não é otimismo, é projeção do mercado. No rastro desse estouro, comunidades inteiras acompanham os novos lançamentos e os barris de tiragens limitadas numa romaria por bares e beer trucks, convocadas por redes sociais, como aconteceu recentemente com a cerveja Miwok, do carioca Afonso Dolabella. E com as irreverentes 2 Cabeças e 3 Cariocas. Ou ainda com a simpática Jeffrey, adotada por chefs como Thomas Troisgros e Roberta Sudbrack, que nos ajudam a rebater nossa pergunta inicial. Não queremos mais saber quantas tomaremos. Mas sim quais.
 
 
Pedro de Mello e Souza
 

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