Entrevistas
16/11/2015 - 05h29

"Estou cansado das modelos magras demais"


Em passagem pelo Brasil, o estilista americano fala sobre a volta dos anos 90 à moda, o que aprendeu com Andy Warhol e a ditadura da magreza. "Olhe para Kim, Khloe e J. Lo: o padrão está mudando"
 
Tommy Hilfiger é o sinônimo do lifestyle americano - há trinta anos, o estilista faz roupas de estilo preppy (um misto de mauricinho e esportivo, usado pelos universitários dos Estados Unidos), predominantemente nas cores azul, branco e vermelho. Por aqui, suas peças são famosas entre os brasileiros de classe média alta que viajam para o exterior e voltam com muitas camisas polo, bermudas de sarja e malhas da grife. Mas as criações do estilista vão muito além dos básicos - em seu último desfile de verão, por exemplo, ele apresentou vestidos estampados e tops de crochê com as cores da Jamaica, ao som de reggae, em uma coleção inspirada na ilha caribenha de Mustique. E é o lado mais fashion da marca que Hilfiger deseja que os brasileiros descubram nas novas lojas que veio inaugurar em São Paulo - uma no Shopping Iguatemi, outra na rua Oscar Freire. Durante a passagem pela cidade, na quarta, 11, ele falou ao Estado sobre o mercado brasileiro, cultura pop e a nova geração de modelos como Gigi Hadid, sua atual musa. “Ela é uma mulher real, com um corpo possível”, diz. 
 
No Brasil sua marca é muito popular e conhecida por peças básicas, como as polos, as calças de sarja, os cardigãs. Com as duas novas lojas, há um desejo de mudar essa imagem?
 
É a primeira vez que trazemos nossas coleções mais fashion para o Brasil. Decidimos apresentá-las agora porque os brasileiros estão conectados e gostam de moda - veem tudo, viajam o mundo inteiro, sabem o que está acontecendo. Mas precisávamos fazer isso da forma certa. A loja conceito (da Oscar Freire), por exemplo, levou dois anos para ficar pronta.  E no atual momento da economia brasileira, o luxo acessível ganha espaço. Enquanto isso, o alto luxo vem perdendo vez, não só no Brasil, mas no mundo todo. Ninguém mais quer gastar milhares de dólares em um suéter ou em uma bolsa. Não faz mais sentido.
 
Sua coleção de verão, inspirada no Caribe, tem uma quê meio hippie, mas ainda assim mantém o estilo preppy que está no DNA da marca. O preppy nunca sai de moda? Por quê?
 
O preppy é um clássico que deixa as pessoas confortáveis. Estamos sempre tentando traduzí-lo de forma nova e fresca - e ele faz parte de quem somos. Não sai de moda porque deixa as meninas sexy e divertidas, e os homens, arrumados com um toque cool. 
 
Recentemente, o senhor lançou uma coleção em parceria com o e-commerce My Thereza reeditando clássico da marca nos anos 90, como as calças altas e as jaquetas varsity. Os 90 estão de volta à moda?
 
Você sabia que essa coleção esgotou em poucos dias? Rihanna me procurou pedindo que desenhasse figurinos para seu show. Perguntei o que gostaria e ela respondeu: “o Tommy dos anos 90”. Outros artistas já vinham me pedindo o mesmo, então decidimos fazer essa pequena coleção e foi um grande sucesso. Muitas das pessoas que nasceram nos anos 90, agora estão com vinte e poucos, se lembram daquelas roupas e querem ser parte disso. Conseguimos atualizá-las com tecidos mais luxuosos, mas ainda assim acessíveis. Os shapes e a modelagem também diminuíram um pouco, pois na época eram exageradamente amplos.
 
As estrelas dessa campanha são as irmãs Suki e Immy Waterhouse e, em seu último desfile, a estrela foi Gigi Hadid. Como essa nova geração de modelos está mudando o jogo da moda?
 
Elas alcançam milhares de seguidores, são divertidas, vivem em Los Angeles e têm corpos atléticos. Não são magras demais. Aliás, estou cansado das modelos magras demais. No ano passado, algumas pessoas da moda disseram que eu não deveria colocar Gigi na passarela pois ela era ‘muito grande’. Eu respondi: “Vocês estão loucos? Ela é a garota mais bonita do mundo. Ela é uma mulher real, com um corpo possível”. Olhe para Kim, Khloe e J. Lo: o padrão está mudando. Tenho duas filhas e elas nunca poderiam ser como as modelos exageradamente magras. Não quero que elas e outras mulheres se sintam deixadas de lado.
 
Sua marca completa 30 anos em um momento em que todos estão falando sobre a velocidade da moda, em que o ritmo está tão frenético que as grandes grifes, e não apenas as cadeias de fast fashion, precisam responder rapidamente aos desejos do consumidor. Qual a receita para ser um sobrevivente em tempos tão complicados?
 
Você tem que se manter relevante - e temos sorte de ser uma marca acessível, pois para as grifes de luxo é mais complicado. É uma corrida e você precisa estar na frente. E apenas um passo à frente, não dez - pois isso também pode ser perigoso. É preciso estar imerso na cultura pop, que eu chamo de FAME - fashion, arte, música e entretenimento. O mundo gira em torno da cultura pop e Andy Warhol me ensinou isso nos tempos da Factory, o estúdio dele em Nova York. Nós cercamos a marca com esses quatro pilares. Já tivemos Beyoncé, Mick Jagger, David Bowie… Acabamos guiados pelas celebridades e pela cultura pop, o que sempre dá certo.


Agência Estado
 

Comentários (0)


Fala Santos
E-mail: contato@falasantos.com.br
© 2010 Fala Santos. Todos os direitos reservados. site criado por