Turismo
08/03/2017 - 09h11

Paraíso tombado na Costa Verde do Rio, Ilha Grande guarda histórias de presídio


Há 30 anos, local foi declarado reserva ecológica por decreto do governador Brizola. Reconhecido pela Unesco como símbolo da Mata Atlântica, enfrenta turismo predatório

 
As mais de cem belíssimas praias - com destaque para Lopes Mendes, já premiada como segunda melhor do Brasil, a terceira da América do Sul e a sétima do mundo - e uma extensa área verde de Mata Atlântica são os principais cartões-postais da Ilha Grande. Descoberto em 1502 pelos portugueses, o arquipélago de 193 quilômetros quadrados em Angra dos Reis, no litoral Sul do Estado do Rio, atrai viajantes de todas as partes do Brasil e do exterior.
 
Os turistas costumam fazer passeios de barcos em águas cristalinas, mergulhos para observar a rica vida marinha da região e trilhas que dão acesso a praias quase desertas da ilha na Costa Verde fluminense. Uma das atrações também são as ruínas do antigo presídio Cândido Mendes. O local abriga histórias como as da era Vargas e da ditadura instaurada em 1964. Durante o regime militar, presos políticos foram transferidos para o presídio, até os anos 70, quando viu florescer uma das maiores facções criminosas do país. Ali se originou a facção Falange Vermelha, renomeada anos mais tarde de Comando Vermelho (CV).
 
No clássico "Memórias do cárcere", o escritor Graciliano Ramos contou histórias do período em que esteve preso na Ilha Grande, entre março de 1936 e janeiro de 1937, por sua pretensa atuação na Intentona Comunista, que acontecera em 1935. A obra-prima de Graciliano, lançada só em 1953, após a sua morte, também inspirou Nelson Pereira dos Santos a rodar na ilha, em 1983, o filme que ganhou o mesmo nome do livro e foi estrelado por Carlos Vereza. Aclamado no Festival de Cannes, na França, o longa rendeu ao cineasta o Prêmio Fipresci (Fédération Internationale de la Presse Cinématographique).
 
Com o grande potencial turístico e a pressão de ecologistas, a Ilha Grande ganhou um plano diretor e foi transformada em Área de Proteção Ambiental. A APA Tamoios foi criada pelo decreto-lei 9.452, de 5 de dezembro de 1982, com o objetivo de proteger a vegetação e todos os sistemas ecológicos existentes na região. Para evitar a construção de hotéis, o desmatamento da região e tentar conter o fluxo turístico excessivo na Ilha Grande, que passou de 5 mil para 25 mil visitantes em apenas um ano, o local foi declarado como Reserva Biológica pelo governo de Leonel Brizola no dia 6 de março de 1987. Seu tombamento provisório, por sua vez, foi realizado em 11 de março de 1987, e o definitivo em 9 de novembro de 1987. O tombamento consta da lista dos bens tombados do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
 
O tombamento chegou a ser questionado no governo Moreira Franco, por impedir a realização de projetos que transformariam a Ilha Grande em polo turístico. Em defesa da revogação do decreto, o secretário de Turismo, Elísio Pires, em entrevista ao GLOBO publicada na edição de 15 de Março de 1987, afirmou que ‘’não é cabível um local como a Ilha Grande como paraíso de minorias e, pior ainda, sem qualquer infraestrutura e sem gerar divisas para o estado’’. A declaração gerou protestos de grupos ecológicos em defesa do decreto de tombamento.
 
Já no segundo governo Brizola, em 1994, a penitenciária foi implodida em meio à insegurança criada na ilha pela constante fuga dos presos. A extinção oficial do presídio abriu também caminho para maior exploração da ilha, existindo até uma disputa para a compra da Praia de Lopes Mendes, embargada pela Justiça por se tratar de um bem público.
 
Atualmente, na Ilha Grande, apesar de problemas ambientais como o turismo descontrolado e o lixo deixado por visitantes, a natureza ainda é conservada graças aos moradores, ativistas e pesquisadores. Reconhecida como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela Unesco, há um projeto em início de discussão sobre pagamento de taxa para visitação em toda a ilha. O objetivo da iniciativa, que já existe na Praia do Aventureiro, é também limitar o número de visitantes, evitando o turismo predatório.
 
 
Acervo O Globo
 

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