Mulher
05/04/2017 - 03h54

Conheça a história de Azenete de Oliveira, que costurou para Carmem Miranda


Azenete de Oliveira ficou viúva duas vezes, cuidou de 10 filhos e viu a construção de Brasília. Hoje, Azenete de Oliveira completa 100 anos

 
Há exatos 100 anos, a pernambucana Azenete Alves de Oliveira nascia na cidade de Palmares — município de cerca de 62 mil habitantes, conhecido por ser o berço de ilustres e renomados poetas, romancistas, artistas e jornalistas. Primeira de 11 irmãos, a senhora que hoje ostenta uma bonita cabeleira branca, cuidadosamente penteada, que aguardava a reportagem com um conjuntinho de linho cor-de-rosa, cuidou de 10 filhos e chegou a Brasília em 1961, quando a cidade era um imenso canteiro de obras. Na sua lembrança, vê uma W3 Sul em plena construção. Apaixonada por costura, tem em seu histórico vestidos desenhados e produzidos especialmente para as cantoras Ângela Maria e Carmem Miranda. Para comemorar o centenário, ela reuniu seus 27 netos, 32 bisnetos e sete tataranetos, além dos amigos, em uma grande festa.
 
Mesmo com algumas falhas na memória, Azenete diz ter sido muito feliz na infância, pelo menos até quando seu pai, que era maquinista e um marceneiro famoso na cidade, conhecido pelo exímio talento com os móveis, pegou tuberculose e morreu. Sem ter como sustentar os 11 filhos, a mãe aceitou o convite de um irmão e se mudou para o Rio de Janeiro. Aos 9 anos, Azenete começou a trabalhar em casa de família para ajudar a cuidar dos irmãos caçulas. Aos 15, se apaixonou por um rapaz galanteador e farrista,  segundo ela, com quem se casou e teve dois filhos. Nessa época, ela tinha um ateliê de costura que atendia de mulheres de militares a prostitutas. “Ela costurava durante horas para conseguir sustentar a gente. Nisso, precisava conciliar as agendas para as ‘madames’ não se encontrarem com as prostitutas”, diverte-se o corretor de imóveis Jabes Alves Moreira, 70 anos, filho do primeiro casamento.
 
Visão
 
Já viúva, aos 32 anos, com dois filhos e trabalhando durante a madrugada toda para garantir o sustento dos pequenos, Azenete recebeu várias propostas de casamento de rapazes solteiros. Mas foi Manoel Barbosa de Oliveira, também viúvo e pai de seis filhos, que ela escolheu. “Mamãe estava orando um dia na igreja e teve uma visão dela atravessando um rio com correnteza forte e seis crianças, três em cada braço. Aí papai apareceu com um contrato e propôs o casamento, e ela aceitou. Eles nem chegaram a namorar antes”, detalha a filha Leonice Oliveira Horta Barbosa, 65. No tal contrato, uma das cláusulas dizia que ela não poderia ficar a madrugada toda costurando. “Foi a única cláusula que ela não cumpriu”, brinca Leonice. O casal teve mais dois filhos, ainda no Rio de Janeiro. Manoel era funcionário do Tribunal Superior Eleitoral e, em 1961, trouxe toda a família para Brasília.
 
Foram então morar em uma casa de três quartos na 715 Sul, o casal e seus 10 filhos, agora todos cuidados por Azenete. Durante a vida em Brasília, dona Azenete costurou todos os vestidos de noiva das mulheres da família. “Eu sempre quis casar usando chapéu, mas papai não aceitava porque, para ele, noiva tinha que usar véu. Mamãe então fez um laço grande, prendeu no meu chapéu e eu disse para meu pai que era meu véu”, relembra Leonice. Após 33 anos de casamento, ela ficou viúva pela segunda vez. Manoel morreu em decorrência de uma doença no coração. “Mas, desta vez, não foi tão difícil porque já estávamos grandes. Aí eu trouxe mamãe para morar comigo. Eu e mais dois irmãos, que também moram aqui, nos revezamos para cuidar dela”, destacou Leonice. Depois que foi morar com a filha, Azenete tem festas de aniversário todos os anos, reunindo toda a família.
 
Leitura
 
Com apenas o 2º ano do antigo primário (hoje ensino fundamental), dona Azenete senta na aconchegante varanda, cercada por várias plantas todosos dias, e se dedica à leitura da Bíblia. Com cerca de 100 cânticos decorados, a integrante mais antiga da Assembleia de Deus em Brasília cantarola suas músicas favoritas enquanto marcas as passagens para não esquecer depois. “Ela tem o dom da palavra. Sempre que alguém tem algum problema, liga para ela pedindo que faça uma oração. Isso é uma coisa que a igreja nos ensinou, somos muito unidos como família”, explica Leonice. Lúcida, Azenete já passou por 15 Acidentes Isquêmicos Transitórios (AIT) — que é uma alteração na função cerebral que bloqueia temporariamente o fornecimento de sangue no cérebro e que dura menos de uma hora. “Aprendemos que, para ela voltar à consciência, nós temos que começar a cantar os louvores e pedimos para ela prosseguir. Em pouco tempo, ela consegue voltar e já canta a música toda”, complementou Leonice.
 
Outra paixão dela é decorar panos de prato com crochês detalhados e pinturas coloridas. Os filhos contam que, se deixarem, ela fica o dia todo trabalhando nos tecidos. Ao ser perguntada sobre o segredo de tanta longevidade, ela apenas sorriu, apontou para o céu e disse com a voz carregada de todos os anos vividos: “Meu segredo é acreditar em Deus e sempre perdoar. Deus tem feito tudo por mim, Ele é muito misericordioso”. Para as celebrações de século de vida, é esperado um total de 200 pessoas, sendo 107 apenas da família —  filhos, noras, genros, esposas e esposos de netos, netos, bisnetos e tataranetos —, vindas de Sobral (CE), Macapá (AM), Juazeiro do Norte (CE), Rio de Janeiro (RJ) e até de Miami (EUA). “Vamos tentar reunir a família para tirar uma foto de todos juntos. Não vai ser fácil, é muita gente”, afirma Leonice com um sorriso no rosto.
 
 
Correio Braziliense
 

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