Mulher
04/05/2017 - 07h41

Olga nos arquivos da Gestapo


Mantidos em segredo pela polícia nazista, mais de dois mil documentos sobre a alemã que foi mulher de Luís Carlos Prestes são revelados em livro escrito pela filha do casal

 
A recente abertura dos arquivos da Gestapo, a Polícia Secreta da Alemanha de Hitler, revelou pertencer a Olga Benário (1908-1942) o mais extenso volume de documentos sobre uma única vítima do nazismo. São oito dossiês com cerca de dois mil itens: cartas, telegramas, anotações e fotografias da militante alemã que foi mulher do líder comunista brasileiro Luis Carlos Prestes (1898-1990). Sobre esse vasto material, a historiadora Anita Leocadia Benário Prestes, filha de ambos, se debruçou para escrever o livro “Olga Benario Prestes: Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo” (Boitempo), com lançamento previsto para maio.
 
A pedido de ISTOÉ, Anita destacou três documentos que considera mais relevantes: “O passaporte concedido pelo consulado alemão no Rio de Janeiro dias antes de sua extradição para a Alemanha; a carta enérgica que ela escreveu ao chefe da Gestapo protestando por terem retirado a filha de sua companhia sem aviso prévio e sem que pudesse ter entregado a criança à avó paterna; e o relatório da Gestapo a Heinrich Himmler, comandante das SS, informando que Olga era uma comunista inteligente, perigosa e obstinada”, diz Anita. Olga se recusou a delatar companheiros nos interrogatórios, nos quais repetia: “Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei.”
 
Alemã de origem judia, Olga tentou obter a nacionalidade brasileira para escapar dos nazistas, mas nunca conseguiu porque não tinha certidão de casamento. “Meus pais viviam com documentos falsos, sem condições de realizar um casamento legal”, disse Anita. A Gestapo se referia a ela como “comunista e plenamente judia”, motivos pelos quais foi presa, em 1936, e enviada a campos de concentração até ser executada em uma câmara de gás, no campo de Bernburg, em 1942. Antes de chegar a este destino, conseguiu escrever e esconder uma mensagem, encontrada agora: “A última cidade foi Dessau. Mandaram-nos despir. Não maltrataram. Adeus.”
 
Iracema
 
A avó paterna, Leocádia Prestes, que resgatou Anita do presídio aos 14 meses de idade após longa batalha judicial, é descrita como “comunista fanática”. Um dos motivos foi ela ter enviado a Olga o livro “Iracema”, de José de Alencar, vetado pelo nazismo por descrever “a vida de luta de um combatente brasileiro pela liberdade” e “difamar em grande medida a forma de governo ordeira.” Aos 81 anos, Anita jamais se casou ou teve filhos.
 
Entrevista
 
“Minha mãe jamais delatou alguém”

 
Como foi rever os fatos dolorosos impingidos à sua mãe?
 
Além de ficar indignada e horrorizada com a crueldade indescritível praticada contra milhões de seres humanos pelo regime fascista que vigorou no III Reich, sinto-me orgulhosa com a intrepidez revelada pela minha mãe, que jamais delatou alguém, apesar de ter pago com a vida por isso.
 
O que determinou o assassinato de Olga: o governo brasileiro, ao entregá-la aos nazistas, o fato de ser comunista ou o de ser judia?
 
Os documentos do Arquivo da Gestapo revelam que seu assassinato decorreu, em primeiro lugar, por ser Olga uma “comunista perigosa” e mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes. A circunstância de ser judia contribuiu apenas para agravar a situação.
 
Em uma carta, Olga diz que gostaria “…principalmente, que Anita não seja bem-comportada e obediente demais.” A orientação foi cumprida?
 
Acho que sim, pois tanto minha avó Leocadia quanto minha tia Lygia, que me criaram e educaram, seguiram essas mesmas recomendações.
 
O que o livro acrescenta à imagem pública de sua mãe?
 
Principalmente, a intrepidez do seu comportamento que, como dizia meu pai, era proveniente da convicção da justeza da causa comunista pela qual eles lutavam.

 
 
Eliane Lobato 
 

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