Mundo
05/06/2017 - 06h49

Ocidente é indiferente ao mundo de terror no Afeganistão e Iraque




É uma verdade evidente que o mundo se tornou insensível aos ataques terroristas fora do Ocidente.
 
Quando o Estado Islâmico detonou um carro-bomba na terça-feira (30) diante de uma sorveteria popular em Bagdá, matando 13 pessoas e ferindo dezenas de outras, não houve vigílias à luz de velas nas cidades ocidentais.
 
Nenhum monumento imperial se acendeu com as cores do Iraque nas capitais europeias. Quando militantes causaram uma explosão devastadora no enclave diplomático em Cabul na quarta-feira (31), matando pelo menos 80 pessoas e ferindo outras centenas, nenhum âncora da CNN publicou a bandeira do Afeganistão nas redes sociais. Nenhum astro pop organizou um show de solidariedade.
 
Parte desse contraste, é claro, se explica pela medida em que estamos habituados a ouvir essas histórias. No ciclo de notícias global, um bombardeio em Bagdá ou um ataque talibã em Cabul é como um ciclone no Pacífico ou uma gafe de Sean Spicer –coisas que acontecem. Se prestarmos alguma atenção, é de modo passageiro; fazemos uma careta pela calamidade e seguimos em frente.
 
A diferença está na distância. As capitais do Iraque e do Afeganistão são zonas de guerra, suas ruas só são conhecidas por nós através de anos de mobilização militar dos EUA. Na consciência americana, é onde devem acontecer as matanças.
 
Por mais que seja fácil tornar a morte aceitável, entretanto, é importante reconhecer a vida.
 
Na terça-feira no Iraque, "horas depois da explosão, construtores trabalhavam na sorveteria al-Faqma, emendando as rachaduras e repintando as paredes", comentou um editorial do jornal "The Guardian", do Reino Unido. "À noite as ruas e os restaurantes estavam novamente cheios de famílias, demonstrando a resiliência que foi comemorada em Manchester e é considerada fato corriqueiro nos lugares que têm de recorrer a ela com frequência."
 
Na Cabul chocada por bombas, cena dos piores ataques em muitos anos, os moradores espreitavam uma nova realidade. Minha colega Pamela Constable fez reportagem na quinta-feira (1º) no perímetro da enorme explosão, enquanto manifestantes mostravam sua raiva e dor contra um governo que não consegue lhes dar segurança.
 
"Vamos transformar o silêncio dos que sofrem em uma voz nacional. Devemos todos nos unir para impedir que o terrorismo continue crescendo e levantar nossas vozes contra a opressão", exortava à multidão um rapaz com um megafone.
 


Nos EUA, muita atenção foi dada ao efeito causado por mais de uma década de guerra na saúde mental dos militares americanos, e com razão. Mas no Iraque e no Afeganistão sociedades inteiras foram traumatizadas. Milhões de crianças crescem entre bombardeios, deslocamento e colapso político. Trabalhadores de saúde pública e agências de ajuda ainda tentam mensurar o imenso preço psicológico que tiveram de pagar.
 
Por isso, vale a pena considerar a profundidade da coragem que afegãos e iraquianos comuns têm de demonstrar diante das ameaças e da violência cotidianas.
 
"Houve muitos outros bombardeios, alguns ainda mais mortíferos. Mas desta vez parecia que o fardo coletivo de uma sociedade em guerra havia subitamente se tornado muito mais pesado", escreveu Constable depois do ataque na quarta-feira. É um peso que não pode ser fácil carregar.
 
"As pessoas hoje têm uma sensação de ansiedade, como uma doença psicológica. Eu desconfio quando vejo alguém carregando alguma coisa", disse a "The Washington Post" Gul Rahim, 42, um agente imobiliário cujo escritório perdeu todas as janelas na explosão. "Eu estive na jihad [contra a União Soviética], e havia muitas bombas e foguetes. Isto foi muito pior."

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Nenhum grupo –nem o Taleban afegão nem bandos ligados ao Estado Islâmico– reivindicou a responsabilidade pelo ataque. Como relatou Constable, o clima que se seguiu foi marcado por ira contra o governo do presidente Ashraf Ghani, que é prejudicado por lutas internas e, como seus antecessores, denúncias constantes de corrupção e incompetência.
 
"Diante desse ato insensato e covarde, o compromisso dos EUA com o Afeganistão é inabalável", afirmou o secretário de Estado Rex Tillerson em um comunicado. "Os EUA defendem o governo e a população do Afeganistão e continuarão apoiando seus esforços para alcançar a paz, segurança e prosperidade." O Pentágono estaria pressionando a Casa Branca para autorizar uma nova remessa de tropas. Mas a paz exigirá negociações e um acordo político com o Taleban que Trump até agora não demonstrou interesse em patrocinar.
 
Enquanto isso, considere as dificuldades dos que já estão feridos pela guerra. Um artigo publicado recentemente pelo Escritório de Jornalismo Investigativo relatou a predominância de amputados nas linhas de frente da guerra contra o Taleban.
 
"Se eu for me sentar em minha casa, o Taleban irá até lá e me matará", disse Kudai Rahm Shakir, um policial da província afegã de Helmand, assolada pela insurgência, que há um ano perdeu as duas pernas atingidas por uma bomba improvisada. "Esta é a única maneira de me proteger e sobreviver." Outro policial postado não longe de Shakir dirige um jipe Humvee "sem problemas". Ele não tem uma perna.
 
"Há pessoas em piores condições que eu", disse ele. "Ainda tenho uma."
 
Você pode lamentar seu desespero, admirar o estado deplorável das forças de segurança do Afeganistão e até comemorar sua resistência. Mas daqui a meses o mundo ainda notará esses atos de coragem, ou lembrará as muitas vítimas em Cabul e Bagdá do modo como serão lamentados os mortos na semana passada em Manchester? Provavelmente não. E está mais que na hora de isso mudar.

O que é Estado Islâmico
 
 
Washington Post
 

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