Cultura e Entretenimento
12/07/2017 - 10h55

Heróis da resistência das lojas de discos: Sound of Fish e Blaster




Em uma cidade na qual lojas de CDs e vinis quase inexistem, os roqueiros santistas têm motivos de sobras para se orgulharem: possui duas segmentadas para o público roqueiro. Blaster e Sound of Fish, ambas no Gonzaga, resistem ao tempo e os desafios impostos pela revolução na indústria fonográfica. Se a região não tem uma Galeria do Rock, como em São Paulo, certamente se destaca se comparada com outras do mesmo porte ou maiores.
 
“Campinas é uma cidade enorme, mas não tem duas lojas tão legais como essas. Ribeirão Preto e São José do Rio Preto também não. As pessoas deveriam agradecer que tem duas lojas descoladas aqui”, diz o proprietário da Sound of Fish, João Marciliano Fernandes Leão, mais conhecido como Fera.
 
Na última década, a Baixada Santista viu cair drasticamente o número de lojas de CDs e vinis na região. Se no início dos anos 2000 contava com quase 40, hoje não chega a cinco, incluindo Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão.
 
E a história de Santos com as lojas de discos voltadas para o público roqueiro é antiga. Como esquecer da Metal Rock e Amsterdam, nos anos 1980?
 
“A Blaster sucedeu a Amsterdam, que durou pouco tempo, e era do Cesar, batera do Harry. Virou Blaster em novembro de 1989, quando eu e um sócio compramos do Cesar. O Hansen (falecido) já trabalhava lá, e continuou por um tempo com a gente. Em pouco tempo fiquei sozinho de proprietário. E estou aqui até hoje. Até 2002 a loja era mais para o fundo da Galeria Ipiranga, depois mudamos para o corredor principal, onde estamos até agora”, recorda o proprietário da Blaster, Rafael Paulino Neto.
 
Rafa, como é conhecido pelos clientes, descarta fazer reformas, decoração ou investimento em tecnologia para se manter vivo. “Operação enxuta, custo mínimo e tudo pelo estoque, pelo que o cara vem comprar”, diz. “A ideia é manter o que funciona. Algo como Vila Belmiro, Ilha do Urubu ou o campo de grama verdadeira do Green Bay Packers, nada de futebol moderno só pela modernidade em si”, completa.
 
Uma coisa legal é a relação entre os lojistas. Não existe nenhuma rivalidade entre os dois. Em 1995, quando iniciou a trajetória da Sound of Fish, ao lado de Alexandre Cruz, vocalista do Garage Fuzz, Fera contou com a ajuda do concorrente. “O Rafa escreveu uma carta em inglês pra mim e mandei para várias gravadoras. Tinha a ideia de fazer um selo, depois uma distribuidora. Mas os caras tinham outras distribuidoras que vendiam muito mais barato porque buscavam na gringa”.
 
Passados 22 anos desde sua inauguração, na Avenida Floriano Peixoto, 20, sala 11, endereço no qual está até hoje, Fera credita a persistência aos clientes. “Eles são o meu maior patrimônio”, diz. “Às vezes vou nos bares, shows e as pessoas me perguntam: A loja está aberta, você ainda está lá? Sempre estive. Quem vive de passado é museu. Não sou museu, estou vivo e a loja também”, completa.
 
Rafa conta que não pretende comercializar outros produtos para manter a Blaster aberta. “Nunca trabalhei com outros produtos, em parte por só conhecer melhor o meu, e em parte por perceber que, via de regra, quando loja de discos começa a virar loja de tudo, é sempre o ultimo suspiro antes de fechar”.
 
Origem do nome
 
Sound of Fish é uma coisa caiçara, algo que eu e o Farofa piramos até hoje. Uma vez o Farofa me explicou, o pai dele era amador de pesca e ele tinha umas revistas de pesca importadas. Em uma delas tinha um nome de sonar para buscar cardume de peixes, Sound of Fish, e achamos legal a ideia e captamos.
 
Causos com os clientes
 
Rafa e Fera colecionam histórias divertidas com os seus clientes. “Quando eu e o Farofa (Alexandre Cruz) estávamos pintando a loja, as pessoas passavam por ali e perguntavam o que estávamos fazendo. Respondia que tínhamos comprado um carrinho de churros e estávamos pintando. Ia ser o carrinho de churros do rock. Você pode ir lá, levar sua fitinha e ouvir um rock”, relembra, Fera.
 
Já Rafa, se diverte com a história de um cliente bem peculiar. “Outro dia entrou um fulano aqui. Um homem obeso, cobrador de ônibus, toalha no ombro, palitando os dentes, muito suado, falando alto e com português capenga. Rude, diria até estúpido. Para minha surpresa, disparou em altíssimo tom: O que tu tem aí da Bjork? (pronunciando algo como Bijorque). Um fã um tanto atípico da cantora. Bem mostrei alguns CDs, e no mesmo tom de voz, tome-lhe outra: Malandro, essa japonesinha é a maior xarope! E se despediu de mim com aquele cumprimento tipo tapão forte na mão”.
 
Feira de vinil e Disqueria
 
Ex-vendedor da Amsterdam e Blaster, o falecido Johnny Hansen, um dos fundadores da banda Harry, batiza a principal feira de vinil de Santos. No próximo sábado, a partir das 15h, acontece a nona edição, no Centro Comercial do Gonzaga, na Avenida Floriano Peixoto, 69. Responsável pela discotecagem nas feiras, Sérgio Dias é o idealizador dos encontros.
 
Para os amantes das bolachas musicais, a feira é uma boa oportunidade de encontrar raridades. E a programação não para por ai. No dia 20, às 20h, Dias montará outra banquinha de vinis em um evento na Stormix (Rua Mato Grosso, 176), que terá como atrações shows do ACruz Sesper Trio (projeto paralelo do Alexandre Cruz, do Garage Fuzz) e A Sea Of Leaves.
 
Outras opções para quem busca vinis usados na região é a Disqueria, na Avenida Conselheiro Nébias, 850, lojas 3 e 4, e a Musical, na Praça Mauá, 26.
 
 
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