Tecnologia
19/07/2017 - 06h25

Como as mídias sociais destróem seus relacionamentos (e também suas férias)


Se neste julho você ficou em casa porque tinha que trabalhar ou, pior, porque estava duro, pode ter ficado com a impressão que está sozinho na vida. E não é só porque seus amigos e conhecidos embarcaram para algum lugar, longe ou perto, mas porque foram e ficaram deixando rastros diários em suas contas de Facebook, Instagram - ou qualquer outra rede que de social nada tem -, rastros dos quais eles mesmos podem não ter lembrança alguma ou sequer ter vivenciado de fato.
 
Se está se sentindo assim, saiba que não é só sua impressão: os chamados “smartphones” e as mídias sociais transformaram completamente a experiência de viajar de quem foi e de quem ficou. Isso não é só porque se você teve a sorte de poder escapar um pouco tem que ficar se esquivando dos "paus de selfie" nas atrações turísticas, mas também porque, hoje, os turistas sequer olham para os monumentos, praças, ou obras de arte. 
 
Em vez disso, viram as costas e perdem-se em sua própria imagem em uma telinha de alguns centímetros quadrados de superfície, numa eterna bajulação pessoal, absorvidos em sua própria imagem, pouco importando onde ou como estão. Estão tão alucinados com o melhor ângulo que, às vezes, até perdem o equilíbrio e caem no abismo, literalmente. É tão dramático que de quando em quando ouve-se falar do esperto que caiu de uma torre enquanto tentava se mostrar para outros. Mas esse não é o foco central desse texto.
 
Vivemos a era do puro narcisismo virtual e, hoje, a experiência da arte e da história foi substituída por outra, a da mera representação digital dessas coisas. Passamos mais tempo tentando imaginar como outras pessoas verão nossas aventuras do que de fato vivenciando e absorvendo-as como algo que terá valor emocional permanente.
 
Acredite se quiser, estudos mostram que o desejo de verificar e postar nas mídias sociais é mais forte até do que o desejo de transar, um que, na biologia evolucionária é equiparado apenas ao impulso de evitar a morte. Ambos transar e postar são impulsionados por uma necessidade de se conectar. Depois de nos alimentarmos, buscarmos abrigo e fugir de nossos predadores, nossa necessidade de pertencer e nos sentirmos ligados a outros de forma positiva é, sem dúvida, o principal preditor de bem-estar, felicidade, saúde e até mesmo de longevidade. Sem isso, corremos o risco real do adoecimento.
 
O curioso é que embora você possa não ter percebido isso, pois está absorvido demais no seu mundo particular do smartphone, tentar se conectar aos outros assim é contraproducente e tende à falha e catástrofe totais.
 
Exploro a seguir maneiras como nossas conexões virtuais estão arruinando nossos relacionamentos da vida real:
 
VOCÊ PERDEU O MOMENTO
 
Pare para pensar: o que você está fazendo nas mídias sociais? Já sei, “compartilhando momentos”, pensou. Momentos de alegria, amizade, humor, de beleza. Ironicamente, ao se envolver com as mídias sociais, são exatamente esses momentos que você perde. Eles passam sem você sequer perceber porque, em sua ânsia de se conectar virtualmente, acaba se desconectando de sua realidade presente e, muito pior, das pessoas que estão no aqui e agora.
 
Enquanto tentar ajustar e refinar seu sorriso para consumo público, você perde a experiência da felicidade de estar onde e com quem está. E depois de fazer a postagem, seu apego ao reforço positivo que consegue por meio de curtidas e comentários lhe manterá distante de outros e de você mesmo por ainda mais tempo, num ciclo vicioso que é retroalimentado por uma postagem aqui, uma curtida lá, mais uma postagem aqui, outra curtida lá. E todos temos um amigo que passa o dia mais preocupado com quantas curtidas teve de pessoas distantes do que com quem esteve em pessoa.
 
Os momentos mais felizes de nossas vidas são quando nossas mentes estão no momento presente, não quando vagando em algum lugar. Verdadeiramente saborear uma experiência positiva - ou seja, imergir-se completamente nela - melhora a experiência e a felicidade que derivam dessa experiência. Quando você arma o "pau de selfie" ou ergue o braço em busca da melhor posição para mostrar a ponta do seu nariz, perde para sempre o momento presente, como se pressionasse "pause" bem na hora que está prestes a fazer sua maior comemoração virtual.
 
É VICIANTE
 
Em vez de derivar prazer de sua experiência e com as pessoas à sua volta, procura por ele (e por validação) no seu telefone. Os centros de prazer localizados em seu cérebro também respondem positivamente a novidades, novidades essas que as mídias sociais oferecem a cada segundo, em um fluxo constante de novas interações, novos lugares e novas imagens. Aí, você está em um lugar fisicamente, mas na realidade de outro quando tenta acompanhar o que aquela pessoa está fazendo, afinal, você não pode ficar de fora mesmo quando está fora. E o ciclo gira para a outra pessoa quando vê o que você fica o dia inteiro postando também.
 
Ironicamente, uma ferramenta que você utiliza para se conectar com outros faz você sentir isolado e obcecado com a "aparência" daquilo que você está fazendo, as respostas que você está recebendo, as impressões que você está dando. Aposto que você já ficou se questionando se o que escreveu ficou legal, ou chateado porque a foto de tal lugar maravilhoso ou prato delicioso não mereceu mais curtidas.
 
Conectar-se de verdade com outras pessoas traz inúmeros benefícios. O autofoco, por outro lado, está associado com ansiedade e depressão. Em vez de derivar prazer de suas férias, o dispositivo torna-se sua principal fonte de prazer. Enquanto isso, ele deixa você muito menos conectado e mais narcisista. Aí vem uma montanha russa de altos e baixos emocionais causados ??pela busca obsessiva por atenção de outros, muitos dos quais, por sua vez, em busca da mesma coisa.
 
DE FATO PREJUDICA RELACIONAMENTOS
 
Outro efeito revelado por um estudo recente é que quanto mais você publica aquilo que você está fazendo, mais dá aos outros o impulso de se afastar de você, quer por conta de um sentimento de ressentimento gerado por ciúmes ou inveja ou por considerarem você inoportuno, narcisista ou exibido. Ainda que essa possa não ser sua intenção original (de fato, você está buscando alimentar seu ego com as curtidas de outros), postar o que faz o tempo todo transmite um ar de arrogância e indiferença com sentimentos alheios, em particular daqueles que não tiveram a mesma “sorte” que você nas férias. Em vez de atrair seus amigos, você os afasta e, não incomum, de forma permanente.
 
Nessa conexão, uma pesquisa mostrou que a mera presença de um telefone celular enquanto duas pessoas conversam interfere com sentimentos de proximidade, conexão e comunicação. Uma das grandes marcas dos mamíferos, primatas e, em especial dos seres humanos é que somos criaturas profundamente sociais, antenadas e desejosos por nos conectarmos a outros. Entendemos as pessoas ao internalizarmos as menores mudanças em sua linguagem corporal e rostos. Espelhamos e imitamos esses movimentos automaticamente, criando uma sensação de compreensão para com os sentimentos dos outros. É por isso que você fica estremecido quando vê alguém cair na rua ou sente tristeza quando vê os olhos de alguém se enchendo de lágrimas.
 
Se os dispositivos interferem constantemente com suas conversas, você mina sua capacidade de se conectar com os outros, perde a centelha de emoção nos olhos de seu filho, o olhar de exasperação de seu parceiro, ou a tentativa de um amigo de compartilhar algo importante e da vida real com você. Em teoria, as mídias sociais têm como objetivo nos conectar com outros, mas na realidade funcionam como barreira.
 
É simples assim: você pode nem ter percebido isso, mas o impulso para dar aquela olhadinha no Facebook ou no Instagram domina até seus impulsos animais mais básicos, e isso tem um custo psicológico e até físico para você. E não é só a vontade de ficar “riscando” no seu celular ou girando o botão do seu mouse, mas de ficar mostrando aos outros suas conquistas (turísticas inclusive), de exibir sua vida lhe impede de ver e absorver os detalhes das vitórias que teve e das pessoas que conquistou em outro momento, um de mais plena atenção ao mundo real.
 
Assim, em suas próximas férias, não ceda à tentação. Deixe seu "pau de selfie" em casa, delete os aplicativos de mídias sociais de seu smartphone e mergulhe na experiência da viagem e da vida. Ao fazer isso, poderá realmente fazer algo que merecerá uma postagem depois e, sobretudo, o compartilhamento real, presencial, físico em uma reunião com aqueles que lhe são queridos. E lembre-se: quando se reunir para falar de suas aventuras e ouvir as aventuras de outros, desligue o smartphone para não passar o encontro inteiro com vontade de postar também isso.
 
 
Intelligentsia 
 

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