Ciência
31/07/2017 - 07h10

Suicídios na mesma família podem ser explicados, em parte, pela genética


Suicídios recorrentes na mesma família –como os do presidente Getúlio Vargas, de seu filho Manuel Antônio e, recentemente, de seu neto, também Getúlio– podem ser influenciados por um componente genético, dizem especialistas.
 
A relação entre esse aspecto hereditário e a decisão de pôr fim à própria vida, porém, é indireta, complicada e difícil de esmiuçar, sem nenhuma semelhança com uma suposta "maldição no DNA".
 
"Quando você olha de perto a questão, ela é sempre multifatorial", adverte o psiquiatra Carlos Cais, que é professor colaborador do departamento de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp.
 
"Por mais sedutor que seja encontrar culpados, eles não existem", concorda Maila de Castro Neves, professora do Departamento de Saúde Mental da UFMG.
 
"É como a queda de um avião: em geral, ele cai por uma sequência de problemas. Essa coisa de dizer que o sujeito perdeu o emprego e por isso se matou, ou se matou porque estava com depressão, nunca conta a história toda", compara Cais.
 
Cerca de 90% dos casos de suicídio estão associados a algum tipo de transtorno mental, e é por essa via que os pesquisadores tentam elucidar a associação entre o ato e determinadas predisposições genéticas.
 
 
Em tais casos, a ideia é que variantes de determinados genes produzem problemas mentais e, de forma indireta, os sintomas desses problemas é que deixariam seus portadores mais vulneráveis a ideias suicidas.
 
A importância desse fator, porém, varia muito com o tipo de transtorno mental. Segundo Cais, o transtorno bipolar, seguido da esquizofrenia, parecem ter peso relativamente bem estabelecido no aparecimento de comportamentos suicidas. "Depois disso, os demais transtornos possuem uma força de evidência muito menor", diz.
 
Outra possível via pela qual os comportamentos suicidas se manifestam é a da impulsividade e agressividade mais elevadas, que não podem ser classificadas propriamente como doenças mentais, explica o psiquiatra.
 
Os métodos usados para investigar o tema do ponto de vista genético são, inicialmente, os que envolvem a comparação controlada de membros da mesma família.
 
O ideal seria estudar gêmeos idênticos separados no nascimento –cada um adotado por uma família diferente, por exemplo.
 
Numa situação como essa, embora os irmãos tenham basicamente o mesmo material genético, justamente por serem idênticos, o ambiente em que são criados é distinto, o que ajudaria a desemaranhar a influência da hereditariedade e o componente ambiental.
 
Também se pode comparar uma pessoa adotada com seus irmãos adotivos e seus irmãos de sangue (não gêmeos).
 
Se os irmãos idênticos ou os de sangue apresentarem uma propensão maior ao suicídio do que a de seus irmãos adotivos, mesmo que jamais tenham tido contato entre si, a tese de que há um componente genético ligado ao problema se fortalece. De fato, é o que algumas revisões da literatura científica sugerem.
 
 
IRMÃOS
 
Dados reunidos em 2008 por David Brent e Nadine Melhem, do Western Psychiatric Institute (EUA), por exemplo, indicam que o risco de um gêmeo idêntico cometer suicídio depois que seu irmão o fez é bem mais elevado do que o entre gêmeos fraternos (não idênticos): 15% versus 0,7%, respectivamente, e outras revisões apontam números semelhantes.
 
Em estudos de adoção compilados pelos mesmos pesquisadores, a probabilidade de que os irmãos biológicos de uma pessoa adotada que se suicidou também cometessem suicídio chegava a ser seis vezes maior do que a dos irmãos adotivos (em números absolutos, ainda assim a chance é baixa –a Organização Mundial da Saúde calcula que 11 em cada 100 mil pessoas morram por ano dessa maneira).
 
Maila cita um levantamento recente que aponta que a herdabilidade do comportamento suicida (ou seja, quanto da variação entre as pessoas nesse quesito pode ser atribuída a fatores hereditárias) seria de 43%. "Na minha opinião, é impossível e artificial separar a influência genética da ambiental."
 
Entre os genes com variantes já associadas ao problema, destacam-se os ligados ao funcionamento da serotonina, um dos principais mensageiros químicos do cérebro. Dada a complexidade do comportamento humano, contudo, cada um desses genes terá um efeito no máximo discreto sobre possíveis comportamentos suicidas.
 
"Ainda não temos marcadores genéticos seguros para acompanhar famílias", resume Maila. Segundo ela, o mais importante hoje é acompanhar de perto pessoas que tenham parentes de primeiro grau que tentaram (ou conseguiram) se matar.
 
Embora os casos sucessivos de suicídio na mesma família chamem a atenção do público, Cais lembra que há outros fatores igualmente poderosos em jogo. "Há o chamado modelo de identificação, ou seja, o quanto aquele indivíduo que se suicidou pode ter significado simbolicamente para o filho ou o neto", diz. "Genética não é destino."
 
 
Reinaldo José Lopes 
 

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