Cultura e Entretenimento
04/08/2017 - 05h03

História do Torto MPBar vai ganhar documentário independente


Sócio-proprietário, Michel Pereira diz que só um milagre pode manter o Torto, que fica no Canal 4, aberto

 
No Canal 4 com a praia, em Santos, tem uma portinha de vidro, na parte de baixo de um prédio bem inclinado. É por ali que se entra no Torto MPBar. Pequeno, mas aconchegante, o ponto de encontro de santistas e muitas outras pessoas abriga histórias desde 1984, quando foi inaugurado. Serviu de berço a diversos músicos importantes, como o grupo Charlie Brown Jr. O destino, em setembro, é o fechamento, após a última noite (17, um domingo).
 
Para manter a história do bar viva, um documentário será produzido por um coletivo de cineastas de Santos. As imagens serão captadas até o dia do fechamento e somadas aos arquivos dos donos do bar. Também será feita uma campanha de doação via internet, para não só arcar com os custos do documentário, mas com os equipamentos para o show de encerramento. 
 
“Infelizmente é isso mesmo. Só um milagre para manter o Torto aberto”, diz o sócio-proprietário, Michel Pereira. Ele será entregue no dia 20 de setembro. Um acordo de desocupação judicial já foi assinado. 
 
Na noite em que a Reportagem esteve no Torto, ele tocou ao lado de Julinho Bittencourt, um dos fundadores do bar. Michel aparentava sobriedade apesar da notícia triste. “Eu já sofri muito. No dia que saí do advogado e assinei o acordo, fui embora dirigindo e chorei demais. Fiquei dois dias em casa, mal mesmo. Chega uma hora em que você pensa ‘não dá, tenho que encarar a coisa de frente’”, conta ele, entre um e outro cumprimento. 
 
“No caso do Torto, especificamente, não é mais um negócio. É outro tipo de relação. São 33 anos de história, é como um casamento. E tem casamento que termina com amor... É muito difícil. Às vezes eu acho que não vai acontecer também. Fico aqui sozinho, olhando o pessoal, vem uma sensação super-estranha, acho que não estou convencido também”, desabafa o empresário, de 52 anos.
 
Diversidade
 
O Torto sempre recebeu todo tipo de público. Julinho Bittencourt, um dos fundadores do local, diz que lá dentro não havia distinção de raça, cor ou orientação sexual. “Nós tínhamos um garçom alto, parrudo e que servia às pessoas em um vestido de seda”, lembra ele. “Nós recebíamos muitos tipos de pessoas. Os gays ficavam bem aqui, as mulheres vinham sozinhas, se quisessem. Tinha jovem, velho. Todo mundo podia ser o que quisesse aqui”.
 
 
Michel Pereira ratifica e decreta: “Tinha uma moça com filha especial, cadeirante. Mas chegava sexta-feira, ela vinha para cá. Ela era bem recebida, a gente arrumava espaço para ela. Tem uma outra amiga que é anã e ela vem para cá porque aqui ela é tratada bem. Não existe preconceito. Não importa se é gay, especial, anão. É gente! Porque é o que a gente é!”.
 
Bar ajudou na formação cultural
 
À frente do projeto do documentário, a cineasta Raquel Pellegrini diz que o Torto contribuiu também para a formação cultural local. “Eu tenho 46 anos e frequentei o Torto desde os 16. Eu vejo que os jovens que vêm hoje para cá têm o mesmo perfil dos da minha época, que possuem um nível cultural diferenciado. Isso aqui é um patrimônio cultural que vamos perder”, lamenta ela.
 
O contato com música de qualidade é um dos principais fatores dessa perda, segundo Raquel. “Aqui, os jovens têm contato com Arrigo Barnabé, Mutantes, coisas raras do Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, as músicas do Clube da Esquina, formando um repertório cultural e de MPB na vida do santista”. 
 
Experiências
 
Morando há 20 anos em Santos, a aposentada Ester Zonis, de 70 anos, frequenta o bar desde que se mudou da Capital para o Litoral. “Eu venho aqui sempre, amo esse lugar, me sinto livre e me sinto em casa. Mostrei para minha filha e ela, sempre que pode, também vem. É uma tristeza fechar”, lamenta ela, enquanto curte o som de Julinho e Michel, sentada num banquinho, logo ao lado da porta. “É apertado assim mesmo, mas é aconchegante. E a música é ótima, né?”.
 
Quem também passou boa parte da vida no Torto foi a engenheira química Hélia Lopes, de 36 anos. Assim que começou a namorar, apresentou o bar para o marido. “Eu namorei muito aí dentro. Será que vai fechar mesmo?”, questiona ela. 
 
Michel diz que esse é um lamento comum. “Quando eu postei a nota no Facebook, teve gente que duvidou mesmo do fechamento. Não caiu a ficha nem para mim. Parece que a gente está programando o próprio velório, sabe?”.
 
 
Júnior Batista / AT On-line
 

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