Saúde
23/08/2017 - 07h23

Novo remédio para insuficiência cardíaca reduz mortes em 20%


Após aprovação nos EUA e na Europa, medicamento chega às farmácias do Brasil esta semana e poderá substituir tratamento que se mantém o mesmo há 20 anos
 
Chega esta semana às farmácias brasileiras uma nova classe de remédio para tratar insuficiência cardíaca que, segundo estudos, é capaz de reduzir em 20% o índice de morte desses pacientes e em 21% o número de internações. Isso promete melhorar muito o difícil prognóstico enfrentado até hoje por quem tem insuficiência cardíaca — apenas metade dessas pessoas está viva cinco anos após o diagnóstico.
 
O medicamento, chamado de Entresto — feito com as substâncias sacubitril e valsartana —, surgiu a partir de um estudo realizado na Escócia, teve aprovação nos Estados Unidos e na Europa cerca de dois anos atrás e conseguiu, agora, a definição de seu preço em terras brasileiras, após obter a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): uma caixa com 28 comprimidos do medicamento custa R$ 147.
 
A insuficiência cardíaca é uma doença debilitante e com alto risco de morte, já que o coração se torna incapaz de bombear a quantidade suficiente de sangue para o organismo. Isso acontece porque os músculos do coração se tornam fracos ou rígidos demais para trabalhar de maneira adequada. Como consequência, as hospitalizações dos pacientes são frequentes.
 
3 MILHÕES DE PACIENTES NO BRASIL
 
O problema atinge cerca de 3 milhões de pessoas no Brasil. Informações do DataSUS, do governo federal, em 2015, registraram 219 mil internações por insuficiência cardíaca. O custo da doença para a economia mundia chega a US$ 108 bilhões por ano — o equivalente a mais de R$ 342 bilhões, uma cifra espantosa. Para o Brasil, o impacto na economia é de R$ 22 bilhões.
 
A insuficiência cardíaca é a segunda causa de hospitalização em pessoas acima de 65 anos, e a taxa de mortalidade é maior do que a de vários tipos de câncer.
 
Uma pesquisa do Departamento de Insuficiência Cardíaca (DEIC) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) traçou o perfil dos brasileiros com insuficiência cardíaca. Entre os principais fatores de risco no país estão: pressão alta (70%), diabetes (34%), histórico de infarto (27%) e insuficiência renal crônica (24%).Essa doença é mais comum em pessoas com mais de 65 anos e acima do peso.
 
Apesar de os homens apresentarem mundialmente maior prevalência do problema, no Brasil, segundo os dados da SBC, 60% dos pacientes diagnosticados são mulheres.
 
RENOVAÇÃO NO TRATAMENTO
 
Para o principal autor do estudo chamado de Paradigm-HF, que levou ao desenvolvimento do remédio, será possível mudar radicalmente o modo como esses pacientes são tratados a partir de agora:
 
— Os resultados impressionantes do estudo Paradigm-HF me levam a acreditar que, uma vez aprovado, o LCZ696 [antigo nome do Entresto] poderia rapidamente substituir o principal tratamento utilizado há mais de 20 anos, os inibidores da ECA — comentou o principal pesquisador, John McMurray, no final de 2015, ocasião em que o Comitê para Produtos Medicinais de Uso Humano (CHMP), órgão europeu, concedeu parecer positivo em relação ao medicamento.
 
O estudo liderado por McMurray, maior pesquisa clínica já desenvolvida para insuficiência cardíaca, envolveu mais de 8 mil pessoas e comprovou que esse medicamento é mais eficaz do que o que já existe de melhor atualmente, possibilitando que os pacientes acima de 65 anos vivam quase 1,5 ano a mais.
 
O pedido de aprovação do remédio à Anvisa foi submetido em junho de 2015, e, desde então, a expectativa era disponibilizar o medicamento aos brasileiros ainda no primeiro semestre de 2017.
 
Os principais sintomas da insuficiência cardíaca são falta de ar, fadiga, retenção de líquidos, inchaços nos tornozelos e pés e dificuldade de dormir, o que impacta de modo significativo a qualidade de vida. Ainda que milhões de pessoas vivam com o problema, a maioria delas tem dificuldade de reconhecer os sintomas ou os associam a sinais do envelhecimento.
 
TÃO MALIGNA QUANTO CÂNCER
 
Confira abaixo uma entrevista com o principal autor da pesquisa que deu origem ao novo medicamento, o médico escocês John McMurray, considerado o "Papa" da insuficiência cardíaca. Ele é professor da Universidade de Glasgow, autor principal das diretrizes de manejo sobre insuficiência cardíaca para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e para o Scottish Intercollegiate Guidelines. Em 2014, McMurray foi citado como uma das mentes científicas mais influentes do mundo pela Thomson Reuters.
 
O GLOBO: Um estudo assinado pelo senhor e publicado no "European Journal of Heart Failure" indica que a insuficiência cardíaca pode ser considerada tão "maligna" quanto alguns tipos comuns de câncer. Por quê?
 
John McMurray: Verifiquei que os dados oficiais de mortes mostram que a insuficiência cardíaca mata mais pessoas do que o câncer de próstata em homens, e do que o câncer de mama em mulheres, por exemplo. Esse é um estudo que fizemos porque eu estava preocupado com o fato de a insuficiência cardíaca não ter tanta atenção quanto outras doenças que têm, inclusive, uma mortalidade menor. O que eu decidi fazer foi olhar os cinco tipos mais comuns de câncer em homens e em mulheres, além do número de pessoas que tiveram ataques cardíacos, para comparar com a sobrevivência de pacientes com insuficiência cardíaca.
 
O GLOBO: E quais foram os resultados?
 
JM: O que descobrimos foi que, excluindo o câncer de pulmão, a insuficiência cardíaca é mais mortal que qualquer outra forma de câncer e ataques cardíacos. E, de fato, vimos que mais mulheres morrem de insuficiência cardíaca do que de câncer de mama, ovário, útero e colo do útero. E, apesar de haver mais conversas sobre a importância desses cânceres femininos, muito mais mulheres morrem de insuficiência cardíaca do que de todos esses cânceres juntos. O que estamos tentando fazer é destacar a importância da insuficiência cardíaca.
 
O GLOBO: Como mudar esse quadro?
 
JM: Nós estamos tendo muita sorte na área de insuficiência cardíaca. Mais do que na maioria dos cânceres. E agora descobrimos um grupo de medicamentos [elaborados com as substâncias sacubitril e valsartana] que são altamente eficazes e podem reduzir bastante o risco de morte e hospitalizações, nas quais os pacientes sofrem bastante. A insuficiência cardíaca é considerada uma doença de progressão rápida, na qual as pessoas passam mal, vão para o hospital e morrem. Nós podemos mudar tudo isso com um pequeno grupo de medicamentos e alguns equipamentos, além de cirurgias específicas.
 
O GLOBO: Mas demorou muito anos para que surgisse essa nova classe de remédios, não é?
 
JM: Sim. Entre o fim de 1998 e o início de 1999, nós descobrimos que um grupo de medicamentos chamados inibidores da ECA que reduzem a mortalidade. Cerca de 10 anos depois, nós descobrimos que os beta-bloqueadores poderiam reduzir a mortalidade e, ao mesmo tempo, os ARM (antagonistas de mineralocorticoides) também. Então, em 10 anos, descobrimos três tratamentos que poderiam reduzir a mortalidade de pacientes. Mas, depois, não tivemos mais desenvolvimento de medicamentos com sucesso. Até agora, porque recentemente encontramos esse novo tratamento: um medicamento de uma nova classe terapêutica que inibe uma enzima chamada neprilisina e também bloqueia o receptor da angiotensina. Esse novo tratamento poderá reduzir bastante a mortalidade e a hospitalização e fazer com que os pacientes passem a não perder a qualidade de vida ao longo do tempo. Temos essas interrupções na inovação e a última foi a mais longa, mas sabemos temos algo novo que fará uma grande diferença.
 
O GLOBO: O Brasil está preparado para lidar adequadamente com pacientes de insuficiência cardíaca?
 
JM: Não conheço a fundo, mas o que vi [ele visitou o Brasil em maio deste ano, no XVI Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca] é que vocês têm uma Sociedade Médica de Insuficiência Cardíaca, vocês têm um congresso que é bem estruturado e vocês contam com médicos que fazem muitas e boas perguntas. São médicos que demonstram estarem interessados em insuficiência cardíaca e determinados em fazer boas coisas aos pacientes, participando de pesquisas relevantes. Então a minha opinião é que o Brasil está indo bem.
 
 
Clarissa Pains
 

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