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23/08/2017 - 07h26

Prostitutas temem perder seguro de saúde com fim do Obamacare nos EUA


Alice Little, formada em psicologia e moradora da montanhosa região rural do Estado de Nevada, é o tipo de jovem que o Obamacare foi concebido para ajudar.
 
Sua renda superior a US$ 100 mil por ano significa que ela não tem acesso à assistência médica do governo aos pobres. Seu status como prestadora independente de serviços significa que ela não tem plano de saúde oferecido por um empregador. Seu trabalho é mais um complicador: ela é profissional do sexo.
 
Little, 27, trabalha em um bordel licenciado que fica no deserto, perto de Carson City, a capital do único Estado norte-americano no qual a prostituição é legal. Essa não é a única coisa que distingue Nevada: lá, o Obamacare chegou mais perto de um colapso genuíno do que em qualquer outro Estado norte-americano.
 
Os esforços dos republicanos para revogar a reforma da saúde implementada por Obama abalaram a tal ponto as operadoras de planos de saúde que elas estão recusando vender planos em grandes porções do Estado, para 2018.
 
"Ficamos aterrorizadas", disse Little, fundadora de uma organização chamada Hookers for Healthcare (prostitutas pela saúde).
 
Os problemas em Nevada podem prenunciar o futuro em outros Estados.
 
"A realidade é que planos de saúde não só se tornaram inacessíveis como se tornaram impossíveis", diz Little, acomodada em um sofá de veludo no saguão do Moonlite Bunny Ranch, um bordel construído de madeira e pintado de cor de rosa. "Não havia opção alguma para nós, literalmente. Havia mulheres falando em procurar outro emprego. Outras falavam em se mudar daqui".
 
O republicano Brian Sandoval, governador do Nevada, anunciou esta semana ter persuadido uma operadora de saúde a oferecer planos no Estado.
 
Mas o mercado nacional de planos de saúde continua problemático, devido à forte incerteza –e os apelos contraditórios de Trump, que pediu tanto pelo reinício do processo de revogação do Obamacare quanto que os republicanos permitam seu colapso, não ajudaram.
 
A lição de Nevada é que o fracasso republicano em reformar o sistema de saúde, em Washington, não devolverá as coisas à situação que existia antes de Trump.
 
Em lugar disso, os últimos sete meses de debates e confusão, que incluíram uma série de demissões na Casa Branca, culminando com a de Steve Bannon, na semana passada, desestabilizaram seriamente o mercado de planos de saúde.
 
Os eleitores de Trump estão muito cientes disso. Conversas com alguns deles, no norte de Nevada, sugerem que está emergindo uma nova vertente do sentimento de oposição a Washington.
 
Eles ainda culpam mais o Congresso do que o presidente pelo fiasco na reforma da saúde, –mas sentem que o homem que prometeu drenar o pântano político da capital está sendo sugado por ele.
 
Jim Dunn, executivo de marketing aposentado que se mudou do Vale do Silício para Reno, a maior cidade da área, e votou em Trump, o descreve como "uma grande decepção", ainda que declare que a indignação quanto à reação do presidente quanto à violência dos supremacistas brancos é injustificada.
 
"Os republicanos, como time, erraram feio", ele diz Dunn.
 
A mulher dele, Ann, acrescenta que "não está empolgada" com Trump, tampouco, dizendo que ele não tem apoio suficiente no Congresso.
 
"Ele faria melhor se não falasse em público ou escrevesse no Twitter, porque não se comunica bem", diz Ann. "Mas mesmo assim eu não votaria em Hillary".
 
Em Nevada, cerca de 89 mil pessoas adquiriram planos de saúde por meio dos mercados online de planos criados pelo Obamacare.
 
Isso reduziu a proporção da população desprovida de cobertura de saúde de 23% em 2012 a 11% em 2015, em parte porque as operadoras foram informadas de que, embora pudessem escolher os municípios em que operariam, não teriam mais direito de negar cobertura a pessoas que considerassem como beneficiários de alto risco, por exemplo profissionais do sexo ou portadores de doenças pré-existentes.
 
Heather Korbulic, diretora executiva do mercado online de saúde do Nevada, diz que ele estava a caminho de um 2018, "muito bem sucedido", com cinco operadoras de planos de saúde –um recorde– preparadas para oferecer planos e concorrer em termos de preço.
 
Mas quando os republicanos iniciaram seu malfadado esforço para revogar e substituir as reformas de Obama, as operadoras ficaram hesitantes, porque temiam que quaisquer mudanças pudessem significar que não obteriam clientes suficientes para cobrir os custos do seguro-saúde.
 
Elas começaram a abandonar as regiões conservadoras e esparsamente povoadas de Nevada, onde prover cobertura é difícil. Essas regiões abrigam muitas prostitutas, proibidas de trabalhar nas cidades, além de pecuaristas e mineiros.
 
No final de junho, Korbulic anunciou que oito mil beneficiários do Obamacare em 14 municípios de Nevada não teriam acesso a planos de saúde, no ano que vem. Os especialistas designam esses municípios como "descobertos".
 
O colapso dos esforços republicanos de reforma, um mês depois, só agravou a incerteza. Na semana passada, Sandoval, sorridente, anunciou ter persuadido a Centene, uma empresa de seguro-saúde, a vender planos nos municípios descobertos, mas reconheceu que as empresas do setor ainda não estão encontrando a certeza de que necessitam.
 
"[As companhias] precisam saber quais serão as regras e, dado o que aconteceu em Washington, é difícil determinar preços para um produto e saber o que fazer", ele disse.
 
Mas encontrar uma seguradora disposta a vender planos não é o fim do problema.
 
A Centene ainda não anunciou os preços de seus planos ou os valores de franquia para sua cobertura.
 
"Temos mais obstáculos a superar", diz Mike Willden, o chefe da Casa Civil do governador. "Se o preço for alto demais, as pessoas podem optar por não adquirir cobertura".
 
Tony Slonim, presidente-executivo do Renown Health, um grupo de hospitais de Nevada, lamentou a maneira pela qual Washington –incluindo Trump– reduziu o debate sobre o Obamacare à questão de revogá-lo ou não. "É insano", ele disse. "As consequências importam... temos anos de trabalho á nossa frente para descobrir o que fazer se [o Obamacare] for revogado".
 
Por enquanto, Little, do Bunny Ranch, expressa alívio por o governador ter encontrado uma operadora de planos de saúde disposta a vender. Isso lhe dá esperança de que as profissionais de saúde tenham suas despesas com exames cervicais cobertas no ano que vem.
 
"Estou certa de que se os pais fundadores tivessem previsto a questão", disse Little, "eles a teriam incluído na constituição, em uma cláusula do tipo 'dê cobertura de saúde ao povo'. Eles nos deram armas. Agora é hora de nos darem cobertura de saúde".


Financial Times
 

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