Trabalho
01/09/2017 - 03h42

Em um de cada cinco lares do país ninguém tem renda do trabalho


A maior crise econômica da história do país ainda pesa na estrutura de renda das famílias brasileiras. No segundo trimestre deste ano, o Brasil tinha 15,2 milhões de lares onde ninguém trabalhava, 2,8 milhões a mais do que no mesmo período de 2014 - um incremento de 22%. Isso significa que um em cada cinco domicílios (21,8% do total) não tinha renda fruto do trabalho (formal ou informal).
 
O levantamento foi feito a pedido do Valor pelos pesquisadores Samuel Franco e Suiani Febroni, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets) e da Oportunidades, Pesquisa e Estudos Sociais (OPE Sociais), a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
"A crise colocou muitos chefes de família para fora do mercado de trabalho. Em muitos lares, cônjuges e filhos também foram demitidos. Membros da família tiveram que buscar emprego para recompor a renda, mas poucos conseguiram. Esse é o motivo mais provável para o resultado da pesquisa. São lares que estão agora sem renda do trabalho e que passam por um momento difícil", diz Franco.
 
De acordo com o IBGE, 2,6 milhões de pessoas perderam seus empregos entre o fim de 2014 e o segundo trimestre deste ano. Nesse período, a taxa de desemprego nacional passou de 6,5% para os atuais 13% da força de trabalho. O país tinha 13,5 milhões de pessoas desempregadas no segundo trimestre, mais do que o dobro apurado pelo instituto nos três últimos meses de 2014 (6,4 milhões).
 
No entanto, o número total de pessoas sem renda do trabalho é maior, porque há aqueles que apesar de estarem sem emprego não estão sequer procurando e ainda aqueles que vivem de outras rendas, incluindo aí os aposentados e pensionistas; além daqueles que recebem benefícios de programas de transferência de renda. Segundo o IBGE, o país tinha 64 milhões de pessoas fora da força de trabalho no segundo trimestre.
 
Franco diz que o envelhecimento da população explicaria apenas uma pequena parcela do aumento do número de residência em que ninguém trabalha. Ao se aposentar, as pessoas deixam de receber a renda do trabalho. Pelas projeções do IBGE, o número de idosos (60 anos ou mais) cresceu 8% de 2014 a 2017 - ou seja, mesmo se todos tivessem se aposentado, a variação seria bem inferior aos 22% encontrados.
 
Segundo o levantamento, a crise foi mais cruel para as famílias mais pobres. No segundo trimestre, não havia ninguém empregado em 12% dos lares em que o chefe de família cursou o ensino superior (1,4 ponto percentual a mais que o verificado no segundo trimestre de 2014). Quando o chefe de família tem o ensino fundamental incompleto, a proporção era de 32% (cinco pontos acima de 2014).
 
Para os pesquisadores, as estatísticas mostram, assim, a importância dos programas de transferência de renda em momentos de crise no mercado. "O indicador chama atenção para a importância do funcionamento eficiente das políticas assistenciais, de forma que as famílias que perderam sua fonte de renda possam se manter até recuperar a situação ideal", diz Franco.
 
Na casa da manicure Valeria Resende, de 34 anos, as únicas fontes atuais de renda são o benefício mensal do Bolsa Família e o apoio financeiro recebido do irmão. Desde que perdeu emprego em um salão de beleza, a capixaba vive com os dois filhos, de 8 e 14 anos, sem renda do trabalho. Ela diz que há poucas oportunidades.
 
"Tenho ensino médio completo e fiz alguns cursos de informática. Mas busco nas agências de emprego e no boca a boca qualquer oportunidade que aparecer", disse Valeria, após ser atendida num centro de referência de assistência social, no Centro do Rio de Janeiro, local de cadastramento dos programas de assistência social da prefeitura e do governo federal.
 
O quadro mais drástico está na região Nordeste. Dos domicílios nordestinos, 27,2% (cerca de 5 milhões de lares) não têm ninguém empregado. A situação é pior em Alagoas: 35% dos lares no Estado não têm renda do trabalho. O resultado tem origem nos problemas crônicos da região (baixa escolaridade, falta de oportunidades), agravados pela crise econômica.
 
As estatísticas menos desfavoráveis estão na região Norte (16,8%), segundo a pesquisa. No Sudeste, a proporção é bem próxima da média nacional: 20,6%. No Estado de São Paulo, o indicador está em 18,7% - mais alto que no primeiro trimestre (18,6%) e em processo de piora desde o fim de 2016. São 2,9 milhões de famílias paulistas sem ninguém empregado.
 
Existe, porém, uma sinalização positiva do levantamento: na média nacional, o número de lares sem ninguém empregado parou de piorar. Ainda que seja prematuro apontar uma tendência favorável, essa proporção declinou para 21,8% no segundo trimestre, de 21,9% no primeiro trimestre deste ano. Essa variação pode ser considerada, estatisticamente, como estabilidade.
 
"Isso tem a ver com os sinais positivos recentes do emprego. Apesar de ainda estatisticamente não significativo, é possível verificar uma possível estagnação, ou declínio, do número de residências sem nenhuma renda do trabalho. Mas é cedo para vermos isso como uma tendência. A crise política no Brasil continua", afirma Franco.
 
Do primeiro para o segundo trimestre deste ano, 1,3 milhão de pessoas conseguiram se ocupar no país. Segundo Cosmo Donato, economista da LCA, esses trabalhadores foram absorvidos pelo mercado informal. São trabalhos por conta própria e empregos sem carteira assinada, espécie de válvula de escape para recompor a renda de casa.
 
"Quando analisamos especificamente as estatísticas dos chefes de família, percebemos que 1,6 milhão deles perderam emprego desde o fim de 2014. No segundo trimestre, 123 mil conseguiram voltar a se ocupar, principalmente na informalidade. Falta muito para recuperar as perdas, mas foi um primeiro passo positivo", considera Donato.
 
Mas a redução no número de lares sem ninguém empregado não se deu uniformemente no país. Ao mesmo tempo em que recuou frente ao primeiro trimestre nas regiões Norte (de 17,5% para 16,8%), Sudeste (de 20,8% para 20,6%), Sul (de 20,7% para 20,5%) e Centro-Oeste (de 17,6% para 16,9%), cresceu no Nordeste (de 26,9% para 27,2%).




Valor Econômico
 

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