Trabalho
16/10/2017 - 06h11

Precarização: página no Facebook expõe vagas de emprego "arrombadas"


Iniciativa criada por publicitário e diretor de arte reúne anúncios de emprego que oscilam do trágico ao cômico

 
Receber dois reais por artigo escrito, suportar ser "zoado" por colegas de trabalho, aceitar 100 reais por mês para cuidar de duas crianças, ter "baixa ambição salarial", receber uma "gaveta de doces" como benefício trabalhista -- essas são algumas das propostas de emprego divulgadas na página do Facebook “Vagas Arrombadas”.
 
Com cerca de 81 mil seguidores, a página trata com humor a precarização do mercado de trabalho brasileiro por meio da exposição de anúncios de vagas que, em sua maioria, são enviadas aos administradores pelos próprios leitores da página. Hoje, eles recebem em média 600 “denúncias” por dia. 
 
Os exemplos oscilam entre o cômico e o trágico e, em sua maioria, mostram a falta de constrangimento dos empregadores em oferecer pagamentos abaixo do salário mínimo ou dos pisos das categorias, além de normalizar situações de violações de direitos.
 
Em busca de um estagiário de administração, por exemplo, uma loja de Campo Grande colocou como pré-requisito ser "do signo de virgem, por ser reconhecido por sua organização". 
 
Outra empresa, uma startup, listava o que o candidato poderia gostar ou não no estágio. Do lado negativo: trabalhar de graça nos primeiros três meses, com destaque para a informação de que, quando o dinheiro finalmente vier "não vai ser igual aos dos seus amigos que já estagiam, vai ser pior".
 
Além disso, anuncia-se que o emprego "vai atrapalhar a faculdade", exige-se disponibilidade aos finais de semana e alerta que não há funcionários disponíveis para "ensinar tudo o tempo todo". Já a lista positiva afirma que o local de trabalho classifica-se como "meritocracia na veia", mas alerta em caps lock "Não venha pelo dinheiro".
 
Já outra "vaga" republicada na página pretendia trocar "moradia por trabalho" em um hostel no Rio de Janeiro.
 
Em mais uma postagem, uma das que mais despertou a indignação dos seguidores da página, com 3,5 mil compartilhamentos, foi o de uma empresa que justificava o não oferecimento de benefícios ao funcionário por serem contra a "cultura" da empresa e tornarem os empregados "acomodados".
 
"Acreditamos que o fornecimento de benefícios como vale refeição, vale transporte, assistência médica e odontológica, entre outros, são totalmente contra a nossa cultura e o nosso sonho, pois não incentivam em nada as pessoas a empreender ou correrem atrás de seus objetivos e sonhos, ao contrário, na nossa visão, só as torna mais acomodadas e conformadas"
 
A descrição da vaga se desdobra na tentativa de justificar a decisão.
 
"Obviamente isso não está nem um pouco relacionado ao valor em si, pois uma empresa que se propõe a ter um plano de carreira tão agressivo e claro como o nosso, não seriam algumas centenas de reais por pessoa que afetaria nosso orçamento".

 
Oriundos do mercado publicitário, o analista de marketing Daniel Alves e o diretor de arte Tiago Perrart, responsáveis pela página, contam que a iniciativa nasceu de maneira informal, justamente da experiência de estarem desempregados e se depararem com anúncios de “vagas arrombadas” na busca por emprego.
 
Meio na brincadeira, começaram a postar as consideradas mais absurdas. “Isso acabou gerando repercussão, então, criamos a página para expor os contratantes. Era pra ser uma coisa tragicômica, mas acabou se tornando quase uma página de serviço. As pessoas começaram a se sentir representadas, vingadas mesmo”, explica Alves.
 
Para Perrart, a experiência ajudou a mostrar que a precarização, infelizmente, não é exclusividade de áreas como comunicação e publicidade, onde a contratação de prestadores de serviço (pessoas jurídicas, ou PJs) por baixos salários e com exigências absurdas não é incomum.
 
“Com a página, vemos que o problema é geral. As empresas dizem que é porque o mercado está saturado, mas nada justifica você querer lucrar em cima da miséria alheia”, afirma.
 
"Sem dúvidas, vamos receber denúncias de ofertas de emprego precarizantes cada vez mais no Ministério Público do Trabalho", analisa Ângelo Farias da Costa, presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT). "A criatividade do brasileiro é inimaginável para economizar e, muitas vezes, explorar o próximo. Serão criadas situações que você nem vai acreditar. E a reforma trabalhista dá margem a isso, uma vez que precariza a relação de trabalho". 
 
A reação das empresas “denunciadas” também varia: alguns ameaçam processar os administradores do Vagas Arrombadas, enquanto outros empregadores até pedem desculpas e pedem dicas de como redigir melhor suas oportunidades de emprego.
 
Para o procurador, o desafio é conscientizar a população brasileira sobre seus direitos. "Presentes os elementos da relação de emprego, o contrato precisa ser reconhecido e garantido. Mas vários trabalhadores serão enganados, e acharão que agora estão sem direitos e se submeterão a isso. Já que é preferível receber comida ou um salário ínfimo a ficar totalmente desempregado", afirma Farias da Costa. 
 
Apesar do tom de revolta que permeia a maioria das postagens e comentários, muitas vezes o pragmatismo e a necessidade de pagar as contas fala mais alto. “Muitos dizem que a vaga [enviada para nós] é arrombada, mas confessam que enviaram o currículo mesmo assim”, conta Alves.
 
 
Carta Capital
 

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