Mundo
23/11/2017 - 05h11

Mladic, o 'carniceiro' condenado, e o resgate da cooperação internacional




A condenação à prisão perpétua de Ratko Mladic resgata uma ponta de esperança na hoje combalida cooperação internacional e na predominância de um sentimento de horror ante comportamentos desumanos.
 
Mladic comandou o exército sérvio-bósnio na República Srpska (República Sérvia) durante o conflito dos Bálcãs (1992/1995), o mais recente caso de genocídio em solo europeu. Mais precisamente, foi acusado pelos crimes praticados na Bósnia, a ponto de ter sido apelidado de "Carniceiro de Srebrenica", cidade símbolo de uma violência sem limites (no caso contra muçulmanos).
 
O que há de notável no julgamento, além da pena em si, é o fato de que se trata da culminação de um processo de colaboração internacional em que intervieram policiais e magistrados de diversas nacionalidades, cujo traço de união foi a integridade, o profissionalismo e a coragem, conforme excepcional relato recente do jornal "Le Monde".
 
Implicou delicadas e perigosas operações no terreno, com apoio de tropas britânicas, francesas e norte-americanas, única forma de executar mandados de captura numa ex-república iugoslava então ainda em ebulição.
 
Os investigadores refizeram, na primavera (do hemisfério norte) deste ano, o caminho exato da "marcha da morte", como foi batizada na época a fuga desesperada dos sobreviventes do encrave bósnio de Srebrenica rumo a Tuzla, através de colinas e bosques, perseguidos pelo exército de Mladic.
 
Relata o "Monde": "Alguns investigadores descobriram, emocionados, o memorial de Srebrenica-Potocari, com os túmulos de cerca de 7 mil prisioneiros executados no verão de 1995. Um memorial que testemunha uma verdade histórica que eles, ao longo de suas investigações, contribuíram a estabelecer".
 
Hasan Nuhanovic, que perdeu sua família em Srebrenica e só sobreviveu por ter sido tradutor dos capacetes azuis da ONU, disse ao jornal francês: "Dou meu reconhecimento ao mundo e à ONU por ter criado o tribunal (TPIY - Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia) e gasto centenas de milhões de dólares para conduzir esses inquéritos e manter esses processos".
 
Concluiu: "Haia [sede do tribunal] é nossa Nurembergue [a cidade alemã onde foram julgados os criminosos de guerra da Alemanha nazista]. Sem o tribunal, não haveria senão negacionismo e revisionismo".
 
O TPIY encerra seus trabalhos a 31 de dezembro, com este balanço: 161 atas de acusação, 123 prisões, 83 condenações (e 19 absolvições, das quais 8 estão em processo de revisão e 2 serão julgadas de novo).
 
Ao todo, mais de um milhão de páginas que contam uma história terrível, mas que, ao final, com a condenação de Mladic, permitem um fio de esperança no resgate do respeito à vida e à memória. E, acima de tudo, ensinam que só a cooperação internacional pode produzir esse resultado, em uma era em que os nacionalismos põem as garras de fora —garras idênticas às que produziram Srebrenica. 
 
 
Clóvis Rossi
 

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Fala Santos
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