Entrevistas
11/01/2018 - 05h43

Vida de Mariel Mariscot, do Esquadrão da Morte e amante de Rogéria, começa a virar filme




O cineasta Mauro Lima, 50, diretor, entre outros, de “Tim Maia” e “Meu Nome não é Johnny”, prevê para maio o início das filmagens da vida de Mariel Mariscot, personagem lendário dos anos 1970. Policial com pinta de galã cafajeste da época, Mariscot teve casos amorosos, entre outros, com as atrizes Darlene Glória e Rogéria (morta no ano passado aos 74 anos) –que se intitulava “a travesti da família brasileira”.
 
Participou dos Homens de Ouro da Polícia, grupo que deu origem ao Esquadrão da Morte, e morreu assassinado em 1981. Além do filme, Mauro Lima está fazendo um documentário que será exibido na Globonews. Nesta conversa com o blog ele fala do projeto e de seu novo personagem.
 
Blog – Quando surgiu a ideia de filmar Mariscot? 
 
Mauro Lima – Há coisa de dois anos, o Bruno Wainer [produtor e distribuidor] me contou que tinha sido procurado pelo Rodrigo, filho do Mariscot com a Darlene Glória, que tinha a ideia de fazer um filme sobre a história do pai. Disse que ele tinha um bocado de material, além das próprias memórias de infância.
 
Era um nome que não ouvia há muito tempo, mas imediatamente me veio aquela figura mítica à lembrança. Emergiu das profundezas da memória de infância tipo um submarino nuclear. Acabou que, além do longa, estamos fazendo um documentário com a Globo News e o Canal Brasil sobre ele.
 
O Rodrigo gravou muitas horas de depoimento em vídeo com pessoas do convívio dele, como figuras que pertenceram ao Esquadrão e outros da crônica policial da época. Muitos até já morreram.
 
Não fosse o acesso por ser filho do cara, suponho que seria quase impossível entrevistar alguns deles. Também tem a Darlene falando, o Aguinaldo Timóteo e outros. O material é bem legal e revelador. Vai ser um lance bom pra reacender o tema.
 
Blog – É um personagem e tanto. Você conhecia a história dele?  
 
Mauro Lima – Não como agora…  Como eu disse, foi um nome presente no imaginário das crianças e adolescentes daquelas décadas. Memórias de quando eu pegava de orelhada o rádio de pilha ligado pelo porteiro ou o rabo de olho na manchete sangrenta da banca quando ia comprar “Chapinhas de Ouro” ou a revista “Recreio”.
 
Eu via e ouvia esse nome presente na crônica policial da época, assim como Esquadrão da Morte, Homens de Ouro da Polícia, Escuderie Le Coq… Mais tarde, me lembro que veio o filme do Hector Babenco sobre o Lúcio Flávio Vilar, no qual o Mariscot tinha lá um certo destaque na pele do ator Paulo Cesar Peréio, além de outros filmes menos conhecidos.
 
Ele morreu assassinado, lá pelos anos 80. De fato foi uma figura interessante, tinha essa aura meio de galã da noite de Copacabana, tinha sido salva-vida no fim dos anos 50, foi virando meio um xerife tropical, muito com a ajuda da imprensa, que na época já investia na “meganhagem” pra vender na banca. Nessa época meio que brotou a coisa do “bandido bom é bandido morto”. Aliás, slogan com o qual foi eleito seu colega de Homens de Ouro, o deputado Sivuca.
 
Na realidade, o espírito da “meganhagem” permaneceu até os dias de hoje e foi bastante intensificado, razão pela qual acho interessante voltar às origens dessa discussão. Ali surgiram alguns mecanismos que permitiram à polícia, portanto a um braço do Estado,  executar pessoas na prática –como o polêmico “auto de resistência”.
 
Essas aberrações usadas como instrumentos de fraude processual tiveram sua gestação exatamente naquela época, quase que como encomenda da repressão. A criação dessa medida é do mesmo ano do nascimento dos Homens de Ouro, do qual o Mariel fez parte e que deu origem ao Esquadrão da Morte. Essa barbárie resiste até os dias de hoje.
 
Blog – A ideia é contar a vida dele?
 
Mauro Lima – Sim, desde a adolescência como atleta do Clube Bangu, patrocinado pelo jogo do Bicho,  até ser assassinado em 1982, pelo mesmo jogo do bicho. A cúpula do bicho sempre manteve uma relação próxima com ele, mesmo durante o tempo em que ficou preso.   
 
Blog – Quem vai viver Mariscot? 
 
Mauro Lima – Estou entre alguns nomes. É um “target” meio específico a figura do galã de época, um tipo de “boa pinta” que era comum, mas que saiu de moda.
 
Blog – E a Rogéria? Vai ter ela no filme?
 
Vai sim. É uma faceta interessante desse personagem ter tido um romance assumido com uma transsexual ainda nos anos 60 (com mais de uma na realidade), isso sendo um ícone do “xerifismo” tupiniquim. Um sujeito que atraía defensores da troglodice autoritária, machões de classe média com indiscutível inclinação fascista. Consta que ele circulava de mãos dadas com a Rogéria pelas esquinas da noite carioca entre uma diligência e um bico de leão-de-chácara da boate Porão 73.
 
Já tem uma previsão para o lançamento? Aliás, como está o mercado depois da explosão das comédias tipo televisivas?
 
Eu calculo que seja em 2019, mas não saberia dizer em que mês. De toda forma, o calendário pra lançamento de filmes no Brasil virou um bloco de batalha naval infernal. Antes você fugia das semanas que tinham lançamentos de grandes produções de Hollywood.
 
Agora, além dessas grandes produções, existem as comédias populares brasileiras e as franquias americanas de toda sorte. Às vezes um grande lançamento sozinho toma mais de um terço da totalidade das salas do país. E, lamentavelmente, o público de cinema brasileiro deixou de ver filmes “não comédia” como via até cinco ou seis anos atrás. É como se, de uma hora pra outra, deixasse de ser um bom negócio qualquer filme que não uma comédia com um tipo específico de humor.
 
O brasileiro começou a deixar os outros gêneros para assistir “on demand”, em casa, na sua própria TV. O que é muito curioso, porque as comédias que esse mesmo público opta por ver na sala de cinema usa e abusa de uma linguagem completamente televisiva. É quase uma inversão das expectativas estéticas do grande público.
 
A comédia virou meio que a pornochanchada dos tempos atuais, filas enormes, centenas de salas.
 
 
Blog do MAG
 

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