Turismo
31/01/2018 - 05h35

A ilha na Europa que muda de 'dono' a cada seis meses




Na semana que vem, sem que uma bala seja disparada, a França vai entregar 3 mil metros quadrados de seu território à Espanha. Daqui seis meses, porém, a Espanha vai voluntariamente devolver esse pedaço de terra à França.
 
Tem sido assim há 350 anos.
 
Hendaye, uma cidade litorânea que fica no País Basco francês, é a última antes da fronteira com a Espanha. Surfistas de inverno ocupam sua baía curvada em períodos fora da temporada.
 
Do outro lado está Hondarribia, uma cidade histórica da Espanha.
 
Entre as duas cidades, há uma fronteira natural: o rio Bidassoa, que escorre em um estuário, dividindo os dois países.
 
A paisagem muda quando se navega rio acima. Edifícios coloridos bascos dão lugar a galpões industriais do lado francês e torres residenciais nada atraentes surgem do lado espanhol.
 
Mas o que viemos conhecer é a Ilha dos Faisões. Não é fácil encontrá-la. Quando se pede indicações do caminho, ninguém entende por que se quer ir para lá. Dizem que não há nada para ver e que não é possível ir lá só para visitar: ninguém mora ali e não é um destino turístico.
 
 
Lá está, no entanto. Uma pacífica e quase inacessível ilha no meio do rio, com sombras sob as árvores e grama bem cortada. Também há um monumento que homenageia um evento histórico que aconteceu aqui em 1659.
 
Durante três meses, a Espanha e a França negociaram na ilha o fim de uma longa guerra. O local foi escolhido porque era considerado neutro. Pontes de madeira foram erguidas dos dois lados. Os exércitos ficaram de sobreaviso enquanto aconteciam as negociações.
 
Um acordo de paz foi assinado: o Tratado dos Pirineus. Territórios foram negociados e fronteiras, demarcadas. O acordo foi selado com um casamento real: Luís XIV, da França, casou-se com a filha de Filipe IV, da Espanha.
 
 
Outro detalhe do acordo era que a ilha em si seria compartilhada entre os dois países, com o controle dela passando de um para o outro a cada seis meses. Sendo assim, de fevereiro a 31 de julho, ela fica sob a soberania espanhola –e, nos meses que seguem, fica com a França.
 
Esse tipo de soberania conjunta é chamada "condomínio" e a Ilha dos Faisões é um dos mais antigos modelos desse tipo de governança.
 
O comandante naval da cidade espanhola de San Sebastian e o também comandante naval da cidade francesa de Bayonne são os governadores e vice da ilha. Mas, na realidade, eles têm afazeres mais importantes, então os prefeitos de Irun e Hendaye são quem efetivamente tomam conta do território.
 
Benoit Ugartemendia administra a divisão de parques para o conselho local em Hendaye. Ele me disse que manda uma pequena equipe de barco para a ilha uma vez por ano para cortar a grama e podar os galhos das árvores. O rio muda com a maré –por isso, é possível, por exemplo, chegar à ilha a pé saindo da Espanha–, então além de cortar a grama, a polícia espanhola tem que perseguir os eventuais invasores ilegais.
 
A ilha é bem pequena, tem apenas pouco mais de 200 metros de comprimento e 40 metros de largura. De vez em quando, a população é convidada a visitar o local em dias abertos ao público, mas Ugartemendia diz que isso é algo que interessa apenas aos mais velhos, porque os jovens não sabem nada sobre a importância histórica do local.
 
Hoje, a experiência de cruzar a França até a Espanha por terra é uma experiência incrível, com exceção do trânsito que se pega para completar o trajeto. Mas sob a ditadura de Franco na Espanha, a fronteira era altamente vigiada por policiais. O prefeito de Hendaye, Kotte Encenarro, conta que havia pontos de checagem a cada 100 metros ao longo do rio de frente para a ilha para evitar que adversários entrassem ou saíssem dali.
 
 
Hoje em dia, os prefeitos de Irun e Hendaye se encontram dezenas de vezes ao longo do ano para discutir questões de qualidade da água e direitos de pesca. No passado, os pescadores espanhóis reclamaram do formato dos barcos franceses e, recentemente, eles se irritaram com franceses que viajavam de férias em canoas e atrapalhavam seus negócios.
 
A ilha em si não é prioridade para nenhum dos dois governos. Ela, aos poucos, está sendo corroída –já perdeu quase metade de seu tamanho ao longo dos séculos, porque, conforme a neve derrete, ela cai dos Pirineus para o rio. Mas nenhum dos países quer gastar dinheiro para cuidar desse território.
 
Neste ano, não haverá qualquer cerimônia de passagem no momento de transferir a ilha de um governo para outro. Havia uma ideia de balançar a bandeira do país que estivesse no comando no momento, mas o prefeito Encenarro disse que isso só motivaria os separatistas bascos a retirarem-na dali ou a colocarem outra deles próprios.
 
Sendo assim, em alguns dias, na ilha de fronteiras menos disputada do mundo, haverá uma troca de comando de novo. E, em agosto, a Espanha irá devolver o território, seguindo uma tradição secular. 
 
 
BBC Brasil
 

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