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06/02/2018 - 04h53

Historiador russo luta para tirar vítimas de Stálin do esquecimento


Os livros com os nomes e datas de nascimento e morte das vítimas do líder comunista somam 13 volumes

 
Há 30 anos, o historiador russo Anatoli Razumov trabalha para trazer à tona os nomes daqueles que foram executados nos expurgos de Stálin em Leningrado, atual São Petersburgo, um trabalho que tirou milhares de vítimas do anonimato.
 
"Não encontrei nenhuma lógica. Era desumano e inexplicável", disse o historiador à AFP depois de anos de um meticuloso trabalho, em meio a um ambiente de indiferença.
 
O trabalho de memória histórica continua sendo difícil mais de 80 anos depois do apogeu do regime de terror de Stálin, o qual provocou a morte de milhões de pessoas e enviou milhões para trabalhar nos "gulags" em condições insalubres, à beira da morte por inanição.
 
As autoridades russas – com o presidente Vladimir Putin à frente – buscam minimizar essas páginas sombrias do passado, usando a cartada da unidade nacional.
 
Nos 13 volumes de "Martirológio de Leningrado" (tradução literal em português do título original), redigidos desde 1987 sob a direção de Razumov, estão nomes, datas de nascimento e de óbito, ocupação e destino daqueles que um dia desapareceram das ruas de Leningrado. Desvaneceram-se como se nunca tivessem existido.
 
No melhor dos casos, seus familiares eram informados de sua "condenação sem direito a receber correspondência", mas sem nunca chegar a saber o que, de fato, aconteceu. "Iniciei minhas investigações em 1987, na época da Perestroika, assim que foi possível", contou Razumov à AFP.
 
Filho de um militar soviético que não foi engolido pela repressão, Razumov mergulhou na tarefa de prestar uma última homenagem a esses homens e mulheres, sem importar sua ocupação. Homens e mulheres que foram caluniados e executados durante esta época de terror.
 
O escritório de Razumov, de 62 anos, fica no centro da cidade, antiga capital imperial, dentro do enorme edifício que abriga a Biblioteca Nacional.
 
O local está repleto de armários cheios de livros e de documentos que ele conseguiu recuperar. Entre eles, destacam-se os arquivos da Polícia política de Stálin, a NKVD. O historiador também tem em mãos os papéis enviados pelas famílias das vítimas.
 
Razumov mostra um deles: os trechos dos interrogatórios e o veredicto do processo contra Nina Dubrovskaya, uma estudante de 28 anos procedente da Polônia. Foi acusada de ser uma espiã polonesa e terminou executada em 11 de dezembro de 1937.
 
"Máquina punitiva"
 
"O período conhecido como 'o Grande Terror' durou cerca de um ano e meio, até o outono de 1938. As execuções tiveram um caráter de massa: matava-se todas as noites. Não havia tribunais", explica.
 
Os acusados compareciam diante de pequenos comitês de duas, ou três, pessoas que pronunciavam o veredicto. "Era uma verdadeira máquina punitiva", conta.
 
Segundo o historiador, nesse breve período de tempo, um "plano de liquidação" elaborado por Stálin e por seus subordinados provocou a morte de 40 mil pessoas.
 
O historiador afirma que nunca recebeu muita ajuda do Estado, apontando que há uma "indiferença" em relação aos expurgos stalinistas. Em seu trabalho, enfrenta, muitas vezes, a hostilidade das autoridades – relata.
 
Anatoli Razumov conta que acaba de viajar para Petrozavodsk, na República da Carélia, pertencente à Rússia, para apoiar seu colega Yuri Dmitriyev, um historiador membro da ONG Memorial. Dmitriyev também é conhecido por suas pesquisas sobre os desaparecidos desse período.
 
Dmitriyev passou mais de um ano na prisão por acusações de pornografia infantil. A ONG denunciou essas acusações como falsas, com único objetivo de obstaculizar suas investigações sobre o passado.
 
As autoridades russas raramente fazem referência à repressão, e o presidente Vladimir Putin não assiste ao evento anual realizado pela organização sobre esse tema. Nesse contexto, muitos familiares ainda desconhecem o paradeiro de seus entes queridos, ou as acusações que um dia pesaram contra eles.
 
Razumov afirma que continuará sua pesquisa, sem se importar com a postura do Estado. "Tenho a impressão de trabalhar para eles, que, mais tarde, vão querer compreender. Estou fazendo isso e vou continuar o que tenho de fazer, apesar de tudo", completou.
 
 
AFP
 

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Fala Santos
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