Saúde
27/02/2018 - 03h59

Dependência de celular pode ser doença; veja como identificar e tratar


Transtorno psicológico, nomofobia é o nome dado ao pavor de ficar longe do smartphone
 
Rafaela tem 23 anos, está desempregada e mora com a família. Ricardo, de 18, vive com a mãe e um tio. O estudante Luís, de 13, divide o quarto com a avó. Os três têm em comum o hábito de acordar durante a madrugada para checar mensagens no aparelho celular e até de trocar o convívio com amigos e familiares pelo telefone.
 
Os nomes são fictícios porque tanto eles quanto seus pais têm vergonha de admitir que o uso abusivo do celular já ultrapassou um limite tênue - e perigoso - para se transformar em um transtorno psicológico, a nomofobia. O problema pode, inclusive, desencadear outras doenças, como depressão, alertam especialistas.
 
Segundo dados da pesquisadora Anna Lúcia King, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 34% dos entrevistados de diversas faixas etárias e classes sociais afirmam ter alto grau de ansiedade quando seus aparelhos celulares não estão por perto.

Acompanhamento
 
A pesquisadora é uma das autorias do livro Nomofobia (da editora Atheneu), em que médicos e psicólogos, doutores e pós-doutores, distinguem a dependência normal da dependência patológica, aquela que necessita de acompanhamento profissional.
 
"Recebemos consistente número de pessoas com transtornos sociais e observamos que suas queixas são relacionadas ao uso abusivo de computadores. Logo, enxergamos a necessidade de construir um guia para auxiliar os profissionais de saúde e leigos a lidar com esse quadro", explica Anna.
 
Ela afirma que recebe muitos pacientes viciados em jogos eletrônicos e que utilizam os aparelhos celulares indevidamente, como, por exemplo, ao dirigir. "É preciso diferenciar esses padrões", diz.
 
Para ela, é importante discutir sobre a etiqueta digital, o relacionamento entre pais e filhos, sobre a conduta on-line e o cyberbullying. "Os pais são responsáveis por dar exemplo e educar sobre como se comportar na internet, além de fiscalizar o tempo de permanência conectado, evitando, assim, o desenvolvimento de dependência", cita a pesquisadora do Rio de Janeiro.
 
Tratamento
 
Uma abordagem específica para brigar contra a dependência de internet e tecnologia em geral deve ser multidisciplinar. No Serviço do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, o paciente deve passar por uma pré-triagem para averiguar o quadro de sintomas.
 
O psiquiatra realiza uma consulta para avaliação e, então, é oferecido ao paciente um plano terapêutico em grupo ou individual, que é constituído de acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
 
Geralmente, há um tratamento semanal de psicoterapia de grupo, consultas psiquiátricas e psicoterapia individual, quando necessário.
 
Além disso, o serviço desenvolve um grupo psicoterapêutico para pais de adolescentes e um programa de educação continuada aberto ao público, chamado Saúde Mental e Internet.
 
Desde a infância
 
O caso se agrava mais ainda quando a nomofobia tem impactos ainda na infância. Pesquisas apontam que, durante os 18 primeiros anos de vida, um jovem consome mais de 20 mil horas conectado.
 
"Hoje, crianças e adolescentes têm total liberdade, desde muito cedo, a utilizar as tecnologias como principal fonte de entretenimento. Comportamento esse que, sem o devido acompanhamento dos pais, pode acarretar diversos problemas físicos, psicológicos e alterar as habilidades de relacionamento interpessoal na vida dos futuros adultos", diz a coach Valeria Ribeiro.
 
No caso de Luís e de Ricardo, que abrem esta reportagem, os pais deles afirmam que "pegam pesado". "Tem dia que chego a confiscar o aparelho. Uma vez até me desesperei porque vi que ele passou várias madrugadas mexendo no aparelho, quando deveria estar dormindo", afirma a mãe de Luís.
 
Conceito
 
Engana-se quem acredita que, simplesmente pelo fato de estar sempre conectada, a pessoa pode nomofóbica. Há uma série de fatores que devem ser avaliados, como sinais e sintomas muito semelhantes aos da dependência de drogas.
 
Um deles é o apego, que acontece quando a pessoa usa o smartphone como bengala para suas reações emocionais.
 
Outro sinal tem a ver com a abstinência, com a preocupação excessiva ao perder chamadas ou mensagens e com a inquietação sempre que deve desligar o telefone. Atraso em compromissos, gastos imprevistos nas contas de telefone e redução de produtividade no estudo e no trabalho são outras situações que devem servir de alerta.
 
Além disso, há falta de atenção aos amigos e familiares e conexão durante longos períodos. "Ao acordar, é preciso dedicar as primeiras horas do dia exclusivamente para cuidados consigo próprio. Caso note a dependência de smartphone em você ou em seus filhos, procure o psiquiatra de sua confiança", orienta Valéria.
 
 
A Tribuna On-line
 

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