Esportes
08/03/2018 - 03h41

Pelé elege o ‘não gol’ que mais gostaria de ter feito na Copa de 1970




Essa avalanche de bolas na rede, aliada à completude como jogador (executava com perfeição todos os fundamentos e tinha inteligência e raciocínio inigualáveis), o tornou o Atleta do Século, o Rei do Futebol.
 
Pelé foi tão único que em uma das quatro Copas do Mundo que disputou, a de 1970, no México, fez fama até pelos gols que não fez.
 
Foram três “não gols” históricos, que embasbacam todos que veem cada uma dessas obras-primas – sim, instantes que são obras-primas mesmo sem o gol, pela genialidade de Pelé (em duas das jogadas, ele deveria ter ganhado um Oscar de roteiro original) e pela marcante coadjuvação dos goleiros envolvidos.
 
Na ordem, ei-las:
 
  • Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia. Primeira fase, partida de estreia da seleção brasileira. Primeiro tempo, jogo empatado por 1 a 1. Pelé, no círculo central, campo de defesa do Brasil, vê o goleiro Viktor (hoje com 75 anos) adiantado e repentinamente dá um chutão para o gol. Pego de surpresa, o camisa 1 tcheco vira-se e corre desesperado, mas a bola percorria com velocidade o espaço aéreo, e ele não conseguiria chegar a tempo para fazer a defesa. A redonda passa a centímetros de sua trave esquerda.
     
  • Brasil 1 x 0 Inglaterra. Primeira fase, segunda partida da seleção. Primeiro tempo, 0 a 0. Jairzinho vai à linha de fundo pela direita e cruza para Pelé testar firme, para o chão, no canto direito baixo de Banks, que milagrosamente defende, jogando a bola por cima do gol. Eis o que disse Piazza, zagueiro titular do Brasil na Copa: “A cabeçada foi mortal, certeira, da forma como tem que ser feita, para baixo, no canto, com força… Eu fiquei bobo, pela beleza plástica da jogada, de o Banks ter conseguido fazer a defesa. Não consigo entender até hoje aquele lance”.
     
  • Brasil 3 x 1 Uruguai. Semifinal. Segundo tempo, 1 a 1 no placar. Desta vez, o comentário é do volante Clodoaldo, autor do gol de empate da seleção: “Teve aquela jogada do Pelé, fantástica, ele dribla o Mazurka, dá aquele drible da vaca, chuta, a bola vai fora”. Mazurka é Mazurkiewicz (1945-2013), o goleiro uruguaio. Tostão lançou Pelé, que enganou magistralmente Mazurkiewicz na meia-lua da grande área. O camisa 10 da seleção passou por um lado do goleiro, a bola pelo outro, chutou… e errou por muito, muito pouco.
     
Quem já tem pelo menos a minha idade (44) e é apaixonado por futebol certamente viu várias vezes essas jogadas, todas realizadas no estádio Jalisco, em Guadalajara. Aos mais jovens, que talvez não tenham tido essa oportunidade, recomendo uma busca no YouTube. São imperdíveis.
 
E aí fica a questão: entre esses “não gols”, qual Pelé mais gostaria de ter feito?
 
A resposta veio em um vídeo publicado pela Fifa, há alguns dias, no meio de um texto que traz entrevista com Pelé.
 
Nesse vídeo, Cafu, o capitão da seleção que conquistou o pentacampeonato no Mundial de 2002 (Coreia/Japão), faz essa pergunta ao Rei.
 
A resposta: “É difícil escolher um deles. Agora, a única jogada que eu já tinha gritado goooool, já tinha virado, já ia dar um soco no ar… quando olhei para o lado… o Banks salvou. Se tiver que escolher um, não tiver outra alternativa, essa cabeçada. Mesmo porque vários gols com a perna esquerda, com a perna direita eu já tinha feito, e cabecear… não era muito comum eu fazer gol de cabeça. Esse gol eu gostaria de ter feito”.
 
Por fim, as palavras de Banks, hoje com 80 anos (Pelé está com 77), esbanjando reverência ao Rei: “Se eu soubesse o quão importante seria esse gol, eu não teria defendido. Não sei como ou por que aquilo aconteceu. Me desculpe, Pelé, me desculpe”.
 
Um autêntico cavalheiro.
 
Que não tem que se desculpar por ter proporcionado ao futebol um momento maravilhoso e inesquecível: a maior defesa da história das Copas.
 
Em tempo 1: Pelé, na final da Copa de 1970, na qual o Brasil goleou a Itália por 4 a 1 no estádio Azteca, conseguiu o que queria: fazer um gol de cabeça – o primeiro da decisão. “Parando no ar”, testou firme para as redes de Albertosi. Não foi, entretanto, o primeiro gol que ele marcou desse jeito em uma Copa. Em 1958, com um cabeceio de Pelé o Brasil fechou a goleada por 5 a 2 nos anfitriões suecos que significou o primeiro título mundial da seleção brasileira.
 
Em tempo 2: O blog para por algumas semanas. Leia notícias sobre futebol internacional na página de esporte da Folha.
 
 
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