Cultura e Entretenimento
08/03/2018 - 03h45

ESPECIAL CHORÃO: "Intenso, empreendedor e poeta" definem grandes parceiros do líder do CBJR




“Desde que ele foi embora, uma música começou a tocar na minha cabeça", lembrou Alexandre Teixeira, baixista do What’sUp, primeiro conjunto com Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista e compositor da banda Charlie Brown Jr. A música é: "Só os Loucos Sabem". Na hora em que recebeu a notícia, o ex-baixista, que hoje é advogado, sentou na cadeira de seu escritório e pôde ver o filme da vida dos dois amigos sem precisar de qualquer televisor ou tela para isso.
 
"A nossa primeira gravação foi em um concurso feito por uma rádio, onde 11 bandas amadoras de Santos participaram. E aí o objetivo era ganhar um disco, um LP. Nós entramos como a décima primeira classificada! Foi assim: na 'raspa do tacho'. Assim que nós gravamos, ele pegou essa fita e foi em tudo quanto é lugar, bateu de porta em porta atrás de todo mundo. Dormiu na porta das gravadoras e esperou os caras abrirem pra insistir, persistir até conseguir", contou Teixeira. 
 
Outra passagem que lhe veio à mente foi quando o Planet Hemp veio tocar em Santos e os integrantes estavam almoçando no Restaurante Vista ao Mar, próximo ao canal 5. Assim que soube da presença da banda, Chorão pegou a bicicleta e o toca fitas, seguiu para lá e ficou tentando chamar a atenção dos integrantes do Planet Hemp. “Marcelo D2, tu tem que por a minha banda (o Charlie Brown Jr) pra abrir teu show", recordou Alexandre Teixeira, o Bolinha. “De tanto insistir, o D2 falou: 'então tá bom, tua banda vai abrir meu show!' E eles abriram o show do Planet Hemp, na antiga Reggae Night, no morro da Nova Cintra. Venceu pela persistência, correu atrás do sonho e o sonho abraçou”, completou.
 
O contato profissional dos dois durou cerca de 11 meses. Após What’s Up, Chorão deu início ao Charlie Brown Jr, segundo o jornalista e crítico de música Julinho Bittencourt, que era amigo de Chorão, o novo grupo fazia um som hardcore e inglês, o que para ele e para o antigo integrante da banda Renato Pelado, que ainda não fazia parte do conjunto oficialmente, não possibilitaria a banda ir para frente.
 
Mas, depois de algumas mudanças no estilo do grupo, tudo começou a tomar outras proporções para o Charlie Brown Jr. “Os garotos eram engraçados, despachados, e o Chorão tinha o jeito marrento, cheio de talento e opiniões. Ele era o menino que incorporou como poucos a nossa alma santista e a levou adiante. Não tem nada mais santista do que falar: 'Meu, tu não sabe o que aconteceu'”, disse Bittencourt, fazendo alusão a um trecho da música "O Coro Vai Comê", primeiro grande sucesso da banda. 
 
Para o jornalista, que conhecia o cantor desde menino, não tinha fama ou assessoria de imprensa que mudasse o jeito único do astro. “O Chorão era o mesmo sempre, nunca engoliu meio desaforo de ninguém. Falava e fazia o que queria e pronto! Muitas vezes pagou caro por isso. Mas, em outras ganhou muito, como suas canções sinceras e diretas. Um talento indiscutível”, afirmou Julinho.
 
Personalidade intensa
 
A continuação da CBJR em sua segunda fase, não só foi importante para os fãs, mas também para André Ruas, o Pinguim, ex-baterista da banda. O batera revelou que a intensidade de Chorão fez com que um de seus maiores sonhos fosse realizado, da água para o vinho. “Com ele é assim: as coisas acontecem no dia. Ele não deixava nada para depois. Foi uma das fases mais importantes da minha vida musicalmente. Ele me deu a oportunidade para que eu pudesse alcançar minhas metas, com ele isso aconteceu. Foram momentos lindos”, contou Pinguim.
 
A visão que Pinguim tinha das apresentações da banda era diferenciada. Até porque, o baterista tinha uma vista “privilegiada”. De trás do palco, ele podia ver seus companheiros e a profundidade do público que curtia o som na mesma intensidade da personalidade de Chorão. “Eu brincava que ele era igual pastor, manja? Ele falava de forma ecumênica. Mandava as pessoas mexerem os braços para um lado e elas faziam. Ele gritava ‘Charlie’ e a plateia completava ‘Brown’”.
 
Sem previsão de término é a forma como o ex-integrante define o grupo, e isso pode ser interpretado em dois sentidos. O primeiro: em razão das músicas que permanecem imortais. Já para o segundo trouxe à tona a época dos shows que não tinham hora para acabar. “O som parava, a luz ligava, desligava... Mas, a gente tava lá. E ele falava: ‘Vamos começar de novo’ e tocávamos mais duas horas. Era coisa de louco”, afirmou.
 
Ao contrário de Alexandre Teixeira, Pinguim precisou ligar a TV quando a mensagem da fatalidade chegou até ele. Na época, os dois não estavam com o relacionamento de amizade totalmente estável e o ex-baterista lamentou não ter tido o ‘timing’ (tempo, traduzindo do inglês para o português) de reatar os laços. “Foi um dia horrível. Eu acordei e minha esposa me disse: 'André, o Chorão morreu'. Como assim? Isso é coisa de Facebook”, mencionou o ex-baterista do CBJR, sentindo arrepio.
 
Mas, infelizmente, a informação era verdadeira. “Liguei a televisão e já estava explodindo os noticiários informando o que aconteceu. É louco isso, mas a Cidade estava em silêncio. Parecia um dia de feriado, sabe...?”, comentou Pinguim.
 
Por fim, o resumo da essência de Chorão foi feito por Bolinha, um dos grandes parceiros da vida do ídolo: “Tem uma frase que eu costumo dizer que define o Chorão, que é: 'Minha mente nem sempre tão lúcida é fértil e me deu a voz'. Aí você imagina, né? A mente nem sempre tão lúcida e fértil, deu a voz pra ele. Mas no dia 6 de março de 2013 (a mente) não estava tão lúcida e o que aconteceu? Ele era um poeta”, encerrou.


Isabella Chiaradia / Santaportal
 

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