Turismo
09/03/2018 - 10h21

Caminho dos Diamantes revela igrejas e casarios coloniais na Estrada Real




A rua de terra de tom avelã desemboca num gramado aparado em cujo centro uma amendoeira bem podada não esconde a vista do paredão cor de chumbo da serra do Espinhaço. À esquerda de quem o mira, está assentada uma pequena igreja de alvenaria branca. Sem se darem conta do cenário que emoldura sua infância, crianças ensaiam o futebol numa manhã ensolarada, um par de chinelos à guisa de trave imaginária.
 
Em harmonia com a natureza do Caminho dos Diamantes da Estrada Real, a capela Nossa Senhora do Rosário, em sua singeleza, é uma espécie de cartão-postal do minúsculo distrito da cidade de Serro conhecido como Milho Verde (dizem que esse nome homenageou o único alimento que os bandeirantes tinham à disposição no local).
 
Rota turística com quatro caminhos que cruzam o Rio, São Paulo e Minas, a estrada surgiu no século 17, quando a coroa portuguesa decidiu oficializar as passagens mineiras para o trânsito de ouro e diamantes até os portos do estado do Rio.
 
No trecho da Estrada Real que segue de Ouro Preto a Diamantina, conhecido como Caminho dos Diamantes, a capelinha, construída de madeira e barro no século 18, revela a beleza erguida pelas mãos humanas, enquanto a cadeia de montanhas simboliza a da natureza, em seu incessante e despercebido lapidar.
 
A menos de 10 km dali está São Gonçalo do Rio das Pedras, também distrito da cidade histórica de Serro, esta famosa pelo seu queijo. A vila de ruas de pedra tem na praça central a Igreja Matriz de São Gonçalo, cuja arquitetura mescla traços do barroco e do rococó. Quem estiver de costas para seu portal poderá avistar um dos mais belos espetáculos da viagem: o sol a submergir por detrás das montanhas.
 
O Caminho dos Diamantes é um mergulho no passado histórico de Minas Gerais: casarões e igrejas seculares convivem com estradas de areia e terra, serras aqui e acolá.
 
O alto dos morros convida os forasteiros ao suspiro diante da beleza da paisagem e, quem sabe, ao anoitecer, diante de um céu pontilhado de estrelas.Nessa aventura que segue o legado do ouro e do diamante, a companhia de pássaros coloridos e vaquinhas malhadas é praticamente dada como certa.
 
À medida que o veículo avança sobre a estrada de terra batida, os passageiros vão sendo envolvidos por cheiros e sabores e pelas cores vivas das janelas, portas e fachadas coloniais. Nas calçadas de pedra, vale se demorar num dedinho a mais de prosa e ouvir os "causos" contados por antigos moradores.
 
Ainda se esbarra aqui e ali em vaqueiros; é gente matuta, atada à terra, um cenário que inspirou o romance "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa (1908-1967), mineiro de Cordisburgo, cidade da região.
 
Os 395 km do Caminho dos Diamantes (dos quais mais da metade é de terra) são emoldurados pela serra. O ideal é percorrê-lo sem pressa, em mais ou menos 15 dias, podendo visitar ainda Itabira, com memorial e museu a céu aberto em homenagem ao poeta Carlos Drummond, seu filho mais ilustre.
 
Em Ouro Preto, a cidade histórica dona do mais bem preservado acervo colonial do país, a imersão no barroco se dá de forma plena na Basílica de Nossa Senhora do Pilar, um dos mais imponentes templos do ciclo do ouro, construído em torno de uma primitiva capela entre 1711 e 1768. Com o Itacolomi dominando o alto da paisagem, seguimos para a vizinha Mariana, a primeira cidade planejada de Minas.
 
Seu centro histórico concilia lado a lado as igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis. Bem perto dali fica Catas Altas, onde a capela de Nossa Senhora do Carmo ou de Santa Quitéria oferece uma impressionante vista da serra do Caraça, nome da cadeia montanhosa cuja grandiosidade atinge picos de mais de 2.000 metros. No Santuário do Caraça, o lobo-guará deixa a mata onde mora para ir comer à noitinha na porta da igreja do centro de peregrinação, impávido diante dos turistas.
 
Depois vem Cocais, assim batizada em razão da quantidade de coqueiros, de onde se pode seguir para Conceição de Mato Dentro. Avançando pelo chão de terra batida, é possível alcançar a maior queda-d'água de Minas Gerais: a cachoeira do Tabuleiro. Também chamada de cachoeira do Coração, ela exibe 273 metros de queda dentro de um parque municipal muito bem zelado.Quem quiser emoção vai ter de sacolejar muito e, é claro, sujar o carro. Se a delicadeza do trajeto está nos casarios e nas igrejas coloniais, sua força vem da natureza, que ajuda a moldar a paisagem. Quanto mais se segue rumo ao norte mineiro, mais a vegetação ganha coloração e novos contornos.
 
Até parece que aqueles buritis foram plantados propositadamente ali, em meio às árvores retorcidas, típicas do cerrado.No rio Jequitinhonha, somos acolhidos por paisagens até mais exuberantes. Praticamente dentro de Diamantina, a graça da bucólica vila de Biribiri está em sentar-se no meio do "quadrado mineiro" -referência ao homônimo baiano de Trancoso-, sentir o cheiro da terra e, sobretudo, flertar com a sua história. Cercada por vegetação de transição entre o cerrado e a mata de galeria, a reserva guarda rios de leitos de pedras formando cachoeiras, nascentes e cursos d'água, convidativos a um banho fresco.
 
Rumo ao lugarejo de Curralinho, a 9 km do centro histórico de Diamantina, chega-se à Gruta do Salitre, um monumento natural que desponta na paisagem com relevo de rochas quartzíticas em forma de ruínas, revelando cânions, fendas e paredões de até 80 metros de altura. Considerada um dos principais atrativos naturais da região, foi palco de gravações de documentários, filmes e novelas. Logo se percebe: não é conversa fiada.
 
De maior produtora de diamantes do mundo no século 18, Diamantina continua a esbanjar riquezas: sejam as que são vistas na arquitetura, sejam as que afloram em meio às montanhas. Uma viagem pelo passado histórico ou, quiçá, pelas veredas da alma.

 
 
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