Cultura e Entretenimento
21/03/2018 - 09h33

Finalista de prêmio internacional, Biblioteca de São Paulo quer ser espaço de convivência


Construída no terreno do antigo presídio do Carandiru, a instituição aparece entre as finalistas ao prêmio de melhor biblioteca do mundo.
 
"Mas isso aqui não é uma biblioteca". O paulistano Pierre Ruprecht diz que se diverte toda vez que escuta a frase repetida com certa frequência à porta da Biblioteca de São Paulo (BSP), que ele administra. O prédio moderno, com grandes paredes de vidro e pontuado por puffs coloridos, lembra uma livraria ou centro cultural. Passa longe do que o imaginário diz ser uma biblioteca clássica. Aberta em 2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru, a Biblioteca de São Paulo aparece, agora, entre as finalistas do prêmio de melhor biblioteca do mundo, promovido pela Feria do Livro de Londres em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Concorre com outras três instituições, todas europeias: da Noruega, da Dinamarca e da Letônia.
 
O anúncio dos finalistas, feito na sexta-feira, pegou de surpresa Ruprecht e seus colegas da SP Leituras, a organização que administra a BSP e a biblioteca do Parque Villa-Lobos. Para ele, trata-se de um reconhecimento dos britânicos ao desafio de manter um espaço de leitura em um país que ainda lê pouco:
 
— Já Noruega e Dinamarca têm uma tradição literária considerável — diz ele.
 
A informação de que a BSP concorre ao prêmio de melhor biblioteca do mundo foi publicada na coluna de Ascânio Seleme na edição deste domingo do GLOBO.
 
Esse é o primeiro ano em que o prêmio, já na quinta edição, agracia bibliotecas. Ao todo, representantes de 27 países se inscreveram para concorrer em 17 categorias, entre elas, inovação digital no mercado editorial, melhor audiobook e melhor livraria. O Brasil encabeça a lista de finalistas, com indicações em cinco categorias, segundo a organização. Em segundo lugar aparecem os Estados Unidos.
 
A presença da BSP na lista tem peso simbólico. Sua abertura foi a etapa final da transformação dos escombros do Complexo Penitenciário do Carandiru. O presídio, que chegou a ser o maior da América Latina, foi demolido em 2002. Deu lugar a um parque e a uma instituição de ensino técnico. Da antiga prisão, restam poucas ruínas, preservadas como museu a céu aberto. O prédio da Biblioteca foi o último a ter destino definido – tinha sido planejado, originalmente, como um espaço para eventos e exposições. À época da inauguração, ficou decidido que a nova biblioteca serviria como uma espécie de laboratório, aberta a experimentos que, se bem-sucedidos, poderiam ser replicados em outras unidades da rede estadual:
 
- objetivo é ser um espaço para pensar o que deve ser uma biblioteca contemporânea – diz Ruprecht.
 
Segundo ele, a imagem das bibliotecas públicas no Brasil precisa ser renovada. Elas ainda são lembradas, pela população, como enfadonhos “templos do saber”.
 
- E é sempre o saber dos outros – afirma.
 
A ideia, hoje, é que sejam vistas como lugares de produção de conhecimento – e onde seja possível ter prazer. No caso da BSP, essa renovação significou transformar o prédio, com mais de 4 mil metros quadrados, em um espaço de convivência atraente para a população local, que nem sempre está habituada a frequentar esses locais. Segundo Ruprecht, é grande o número de moradores de rua, que se dividem entre os albergues da vizinhança.
 
- E a biblioteca precisa ser pensada para essas pessoas também.
 
Anualmente, cerca de 900 atividades são organizadas ali – entre oficinas, apresentações e círculos de leitura. O espaço é alegre – no térreo, há cabanas coloridas onde o frequentador pode se esparramar em sofás macios. Há contação de histórias para o público infantil e já houve uma “oficina de smartphone”, que ensinou pessoas com mais de 60 anos a usar o celular. Muitas atividades são simultâneas. Nem sempre, a conexão com a literatura é óbvia: algumas falam sobre videogames (há um conjunto deles na instituição) e filmes. Materiais que podem roubar leitores – ou que, se bem trabalhados, servem de porta de entrada à literatura.
 
- O que queremos é trabalhar as novas formas de narrativa que existem hoje – diz Ruprecht.
 
E a biblioteca tenta inovar na forma como monta seu acervo de livros. Em lugar de fazer grandes compras anuais, como é usual, adquire novos títulos semanalmente. Alguns, por sugestão dos frequentadores _ foram mais de 200 mil visitantes em 2017. Há livros em braile, livros eróticos e revistas diversas – tudo ao alcance da mão. A organização diz que quis evitar balcões e outros elementos que afastassem os frequentadores dos títulos.
 
Todo o esforço, diz Ruprecht, é também uma forma de BSP fazer juz à transformação de que é símbolo.
 
- Demolir uma prisão não basta para mudar a vida das pessoas – diz.
 
Permitir que elas tenham acesso à cultura, por outro lado, pode garantir bons avanços.
 
 
Extra 
 

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