Polícia
28/03/2018 - 06h03

Policiais nos EUA já usam digitais de cadáveres para desbloquear iPhones




Em novembro de 2016, cerca de sete horas depois de Abdul Razak Ali Artan atropelar, esfaquear um grupo de pessoas e ser baleado por um policial dentro da Universidade do Estado de Ohio, um agente do FBI colocou o dedo ensanguentado do terrorista no iPhone dele. Os policiais esperavam que isso os ajudasse a acessar o aparelho para investigar os motivos que levaram Abdul a cometer o crime.
 
Foi o especialista forense Bob Moledor quem contou à FORBES os detalhes do primeiro caso conhecido em que a polícia usou as impressões digitais de um cadáver na tentativa de passar pelo sistema de segurança Touch ID, da Apple. Na época, o FBI não conseguiu desbloquear o aparelho, um iPhone 5. Apesar de Moledor não lembrar ao certo do modelo, a tecnologia Touch ID foi introduzida a partir do iPhone 5S.
 
Segundo o especialista, entre o período da morte e a tentativa de acesso, quando os policiais tiveram de pedir autorização da Justiça para isso, o iPhone descarregou e, quando ligado novamente, requeria uma senha. Moledor, então, enviou o aparelho a um laboratório forense, onde as informações foram extraídas do dispositivo com sucesso. Esses dados ajudaram as autoridades a determinar que os atos de Ali Artan podem ter sido resultado de influências do Estado Islâmico.
 
Mas os tempos mudaram. Fontes próximas a investigações policiais locais e federais em Nova York e Columbus, que pediram para manter o anonimato por não serem autorizadas a falar com a imprensa, afirmam que atualmente é relativamente comum usar digitais de cadáveres para acessar iPhones, aparelhos com criptografia cada vez mais poderosa nos últimos anos. Segundo uma fonte, a técnica tem sido usada em casos de overdose, por exemplo. Nesses casos, o celular da vítima pode conter informações que levam ao traficante.
 
Sem privacidade após a morte
 
Nos EUA, a polícia pode legalmente usar essa estratégia, mesmo se houver dilemas éticos a serem considerados. Segundo a advogada Marina Medvin, proprietária do escritório Medvin Law, assim que um indivíduo morre, não tem mais direito privado do seu corpo. Isso significa que não há mais o direito à privacidade.

 
Parentes ou pessoas próximas dos mortos têm poucas chances de impedir a polícia de usar as impressões digitais ou outras partes do corpo do cadáver para acessar um smartphone nos EUA. “Isso significa que você perde o controle sobre como a informação é protegida e usada quando a compartilha com alguém. Você não consegue garantir o seu direito à privacidade quando o celular do seu amigo é investigado, e a polícia vê as mensagens que você mandou. O mesmo acontece com mensagens compartilhadas com alguém que morreu”, explica Marina.
 
“Nós não precisamos mais de um mandado de busca para acessar o celular de uma vítima, a não ser que seja um dispositivo compartilhado”, afirma Robert Cut, detetive de homicídios em Ohio, que trabalhou no caso de Ali Artan. No entanto, ainda há dúvidas em relação à habilidade dos policiais de acessar os iPhones sem permissão quando chegam a uma cena do crime. Greg Nojeim, conselheiro e diretor-sênior do Projeto Liberdade, Segurança e Tecnologia, no Centro para Democracia e Tecnologia, nos EUA, diz que, em muitos casos, é válida a preocupação sobre a aplicação da lei no uso das digitais de cadáveres sem nenhuma causa provável. “É por isso que a ideia da necessidade de um mandado segue sendo discutida”, explica Nojeim.
 
Com a falta de restrições legais, usar as impressões digitais dos cadáveres é muito mais barato do que a contratação de serviços como Cellebrite ou GrayShift para desbloquear iPhones. Enquanto o Cellebrite cobra entre US$ 1,5 mil e US$ 3 mil por celular, a caixa GrayKay, da GrayShift, custa até US$ 30 mil para tentativas de acesso ilimitadas.
 
Face ID
 
Atualmente, os policiais estudam como passar pela tecnologia de reconhecimento facial Face ID, da Apple, introduzida no iPhone X. A tática pode fornecer uma maneira de acesso a dados mais fácil do que o Touch ID.
 
Marc Rogers, pesquisador e diretor de segurança de informações na Cloudflare, conta que tem analisado o Face ID nos últimos meses e descobriu que a tecnologia aparentemente não requer a imagem de uma pessoa viva para funcionar. Embora o Face ID também utilize o movimento natural dos olhos no desbloqueio, para que os olhos falsos ou que não se movem não consigam destravar os dispositivos, Rogers descobriu que a tecnologia pode ser “enganada” com o uso de fotos, nas quais os olhos da pessoa estão abertos. Isso foi verificado por pesquisadores vietnamitas em novembro de 2017, quando eles alegaram burlar o sistema com máscaras criadas especialmente para isso, conta o diretor de segurança.
 
Rogers também descobriu que isso é possível de diversos ângulos e que o aparelho só precisava identificar um olho aberto para se desbloquear. “É muito mais fácil destravar o iPhone desse modo do que com o Touch ID. Tudo o que você precisa é mostrar o celular ao dono do aparelho, que em um golpe de vista para o smartphone o desbloqueia”, explica. A Apple preferiu não se manifestar à reportagem.
 
Não há evidências de que a polícia tenha usado o Face ID para acessar o aparelho de vítimas até o momento. “Não sei se isso já foi usado”, diz Rogers. “Provavelmente, será o mesmo que usar as digitais. Deve funcionar se o corpo estiver reconhecível”, explica.
 
 
Brasil Forbes
 

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