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09/04/2018 - 06h43

50 anos da Primavera de Praga: o sonho sob os tanques


Moscou esmagou as ideias de liberdade de Alexander Dubcek, primeiro-secretário do Partido Comunista checo. Movimento prenunciou o Maio de 1968

 
Janeiro de 1968. Mesmo se as insurreições de Maio na França ainda estivessem a ser gestadas no centro da sociedade civil, uma república do leste europeu prepara a eclosão de seu ovo da serpente revolucionário: a Checoslováquia de Alexander Dubček, que acabava de se tornar o novo primeiro-secretário do Partido Comunista local. 
 
Reformista, ligado a intelectuais como o escritor Milan Kundera e o futuro presidente, o dramaturgo Vaclav Havel, ele deseja instaurar um “socialismo com rosto humano”. Antes de ser esmagadas pelos tanques do Pacto de Varsóvia, sob o comando de Moscou, Dubček anunciava, há exatos 50 anos, em 5 de abril de 1968, as mudanças da Primavera de Praga, que fizeram sonhar não apenas toda uma geração de tchecos, mas intelectuais, estudantes e trabalhadores de todo o planeta.
 
“Todos os cidadãos mais velhos se lembram exatamente onde estavam em 21 de agosto de 1968, quando os tanques de Moscou tomaram Praga de assalto”, lembra Alexis Rosenzweig, correspondente da RFI na capital da Checoslováquia. Não é para menos: a repressão russa não apenas mitigou um movimento ilustrado, apoiado por intelectuais e estudantes, mas defendido por campesinos e população ao longo do país. Sob o olhar de uma Europa chocada, os tanques do Pacto de Varsóvia marcharam sobre o sonho de um “comunismo humanista”, livre do peso dos grilhões soviéticos.
 
A história da Primavera de Praga começa, no entanto, com a chegada do novo secretário do Partido Comunista da Checoslováquia, Alexander Dubček, que decide abolir a censura, autoriza as viagens ao estrangeiro e chega até a prender o chefe de polícia do antigo regime.
 
Quando Dubček ascende ao poder, a Checoslováquia era percebida como um Estado autoritário, dirigido pelo impopular stalinista Antonín Novotný, ligado a Moscou. Durante sete meses e meio um vento de liberdade sopra sobre a Checoslováquia: escritores considerados subversivos pelo regime soviético são libertados da prisão e o Partido Comunista passa a aceitar a participação de membros não ligados a seu círculo ideológico.
 
Não foi apenas no campo político que Dubček fez mudanças. O Estado passa a ter mais tolerância em relação à Igreja Católica e, no campo econômico, as empresas passam a ter mais autonomia, numa economia então completamente planificada. O primeiro-secretário não acreditava, no entanto, que as medidas pudessem contrariar a cúpula do Partido Comunista em Moscou e provocar a violenta reação russa.
 
“Foi um momento terrível para todos os europeus”, lembra o jornalista René Bachmann, em entrevista à RFI. “Um povo que acreditava que alcançaria a liberdade é esmagado no momento em que achava que sairia do túnel".
 
Primavera de Praga foi "atmosfera revolucionária"
 
“Não tenho o sentimento de que a Primavera de Praga tenha sido um momento triste de nossa história recente. Muito ao contrário, tenho a lembrança de uma solidariedade absoluta entre cidadãos que cooperaram para enfrentar os soviéticos, para conversar com eles, uma vez que todos falávamos russo. Era uma atmosfera revolucionária que eu nunca mais vi depois, nem mesmo durante a Revolução de Veludo. Até abril de 1969, a Checoslováquia viveu um momento de liberdade de expressão, de imprensa, que não conhecemos nem mesmo hoje”, diz o ex-dissidente tcheco e jornalista Petr Uhl.
 
“Eu me lembro de reformas progressistas, que aconteceram não no contexto de uma democratização, mas de uma espécie de liberalização. Muita coisa mudou, no setor trabalhista, da Cultura, da Ciência, foi muito importante do ponto de vista social, até 1968, quando o Partido Comunista foi atingido por uma crise política interna e tentou resolvê-la, mudando sua direção. Foi um movimento que aconteceu no coração do partido, a partir de seus membros nas grandes escolas, nas universidades, nas redações dos jornais, os artistas, escritores, pesquisadores e mesmo dentro do aparelho do partido”, lembra Uhl.
 
 
Radio France Internationale
 

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