Turismo
04/05/2018 - 09h19

Beatles e futebol num roteiro pelas paixões de Liverpool e Manchester


Celeiros de bandas e craques, cidades no noroeste da Inglaterra se completam

 
Um jovem John Lennon poderia estar andando de skate no Albert Dock, desviando de turistas por entre os antigos armazéns que guardam a História de Liverpool. Assim como um Paul McCartney criança do século XXI acompanharia o pai nos jogos do Everton, no centenário estádio de Goodison Park. A 50km dali, um Morrissey hipster cortaria seu cabelo no Northern Quarter, bairro moderninho de Manchester, enquanto um George Best com tatuagem no pescoço celebraria mais uma vitória do Manchester United num dos bares do complexo gastronômico Spinningfields.
 
Ícones do passado — sobretudo da música e do futebol, duas especialidades locais — ainda estão presentes em Liverpool e Manchester. O que não significa que as maiores cidades do noroeste da Inglaterra tenham parado no tempo. Áreas revitalizadas, grande oferta de museus e um vibrante cenário cultural fazem das duas destinos imperdíveis no Reino Unido, a pouco mais de duas horas de trem a partir de Londres.
 
Contestador, o jovem Lennon talvez não ligasse tanto para os Beatles. Ao contrário da maioria das pessoas que visitam Liverpool. Os Fab Four fazem parte da paisagem da cidade, que os celebra em estátuas, passeios guiados, apresentações de bandas cover e até hotel temático. Mas tente não se restringir à essa “caverna beatlemaníaca” para aproveitar as atrações de primeira linha da cidade, como os museus do Albert Dock, a renovada zona portuária.
 
Celeiro de bandas


 
Se a trilha sonora de Liverpool remete aos anos 1960, a de Manchester está mais sintonizada com as décadas seguintes. A cidade é berço de bandas como The Smiths, Oasis, Stone Roses, Simply Red, New Order e Joy Division, além de ter visto florescer a música eletrônica no país. Até hoje pubs e casas de show de lá são frequentados por artistas em busca de espaço e ouvintes ávidos por novidades. Museus e galerias de arte completam o cenário cultural vibrante dessa cidade universitária e antiga metrópole industrial.
 
O futebol também aproxima as duas cidades, e explicita a rivalidade surgida ainda no início da Revolução Industrial. Manchester e Liverpool estão no centro da “Football is Great”, campanha elaborada pelo Visit Britain, órgão oficial do turismo do Reino Unido, para promover a visitação a estádios e atrações ligadas ao popular esporte bretão. Não à toa, são da região o atual campeão inglês, o Manchester City, e o Liverpool, representante do país na reta final da Liga dos Campeões da Europa.
 
LIVERPOOL: NOS PASSOS DOS QUATRO GAROTOS

 
Passados mais de 40 anos desde a última apresentação na cidade, os Beatles continuam ditando o ritmo de Liverpool. É como se os acordes de “I’m down” — o animadíssimo rock escolhido para encerrar aquele show do dia 5 de dezembro de 1965 no Empire Theatre — ainda ecoassem por lá. Em Liverpool, eles estão “aqui, lá, em todo lugar”.
 
Diversos passeios guiados oferecem a chance de seguir os passos dos quatro garotos cabeludos que mudaram a indústria musical nos anos 1960, a pé, em táxis estilizados ou a bordo de um ônibus, como é o mais famoso deles, o Magical Mystery Tour.
 
Estão no roteiro, por exemplo, o portão do antigo internato de Strawberry Fields e a igreja de St. Peter, onde John e Paul se encontraram pela primeira vez, e em cujo cemitério anexo há a lápide de uma tal Eleanor Rigby. E lá, sob o céu azul suburbano, Penny Lane, a rua mais famosa de Liverpool, que servia de ponto de encontro para os futuros Beatles. Sim, há uma barbearia, mas não sabemos se o barbeiro ainda guarda fotografias de todas as cabeças que já conheceu.
 
A excursão passa ainda pelos endereços onde os músicos nasceram ou passaram parte da infância e juventude, em bairros residenciais que nunca atrairiam a atenção dos turistas. Os interiores das casas dos jovens Lennon e McCartney, aliás, podem ser visitadas em outro tour, organizado pelo National Trust do Reino Unido.
 
A caverna reconstituída
 
O ônibus com pintura psicodélica faz sua última parada na região central da cidade, a poucos passos da Mathew Street — uma espécie de meca beatlemaníaca. Ali fica o Cavern Club, o palco onde a banda se apresentou 292 vezes entre os anos de 1961 e 1963. Apertada e apinhada de gente, a casa de shows é uma parada obrigatória para qualquer pessoa que já assobiou uma melodia pop nos últimos 50 anos.

 
Uma informação que pode decepcionar alguns: o atual Cavern funciona exatamente ao lado do original, que foi fechado em 1973 para dar lugar a uma galeria do metrô. Mas diz a lenda que muitos tijolos originais foram usados para reconstituir a “caverna”. De fato, o cenário parece idêntico àquele frequentado pelos Reis do Iê-iê-iê.
 
São dois espaços, ambos subterrâneos. O primeiro, o Front Stage, com teto baixo e abobadado, tem um clima mais despojado, com bandas se revezando sobre o palco e tocando um repertório bem variado. Já o Live Lounge é o palco “premium”, para artistas mais conhecidos e, principalmente, as bandas cover de Beatles que costumam transformar o lugar, nas noites de sextas, sábados e domingos, em uma grande celebração aos Fab Four, com direito a terninhos, cabelos em cuia, baixos Höfner e guitarras Rickenbacker.
 
O Cavern é o principal chamariz para a Mathew Street, mas a rua é tomada de bares, pubs e boates com música ao vivo, quase todos na carona dos Beatles, como o Cavern Pub (que fica em frente ao Cavern Club), o Rubber Soul e o Lennon’s Bar.
 
A região é repleta de hotéis, mas nenhum deles é como o Hard Days Night. Do lobby aos quartos (110 no total), a decoração remete à banda, incluindo objetos pessoais de John e Paul, nas suítes principais, por exemplo. O nível de detalhes é tamanho que as plaquinhas de serviço de quarto têm escrito “Let it be” para o “não perturbe” e “I need you” para “arrume o quarto”. O hotel — localizado em um prédio histórico, que teve estátuas dos quatro músicos esculpidas na fachada — tem ainda um restaurante, o Blakes, em homenagem a Sir Peter Blake, o designer responsável pela capa do “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.
 
O submarino amarelo
 
Há na cidade outra opção de hospedagem ainda mais exótica: o Yellow Sub é um barco-hotel de seis cabines que faz referência ao famoso submarino amarelo cantado por Lennon na fase mais lisérgica

 
O quadrilátero formado por galpões de tijolos aparentes abriga bons restaurantes, hotéis e museus, como a filial do Tate, o Merseyside Maritime Museum, o Beatles Story (uma exibição permanente sobre a banda) e o International Slavery Museum — Liverpool foi um grande porto escravagista da Europa e James Penny, homenageado na rua Penny Lane, um dos maiores negociantes de escravos de seu tempo.
 
No lado oposto ao Albert Dock está Pier Head, outra área do Waterfront, que se destaca pela coexistência pacífica entre prédios moderníssimos, como os do Museum of Liverpool, e construções históricas, que remetem à era de ouro da atividade portuária na cidade, no século XIX e início do seguinte.
 
Hendrix, Bowie, Stones...
 
Um deles abriga o British Music Experience, que mostra de forma interativa a colaboração britânica para a música pop internacional desde os anos 1950, com muito espaço dedicado a artistas como Jimi Hendrix (que era americano, mas foi revelado na Inglaterra), David Bowie, Sex Pistols, Pink Floyd e Rolling Stones, claro. Em frente ao museu, no entanto, uma estátua com quatro cabeludos mostra quem são os verdadeiros donos da cidade.
 
Manchester: revolução industrial e musical

 
Manchester, à primeira vista, parece uma cidade que não está para brincadeira. Seu nome é trabalho desde os primeiros momentos da Revolução Industrial, ainda no século XVIII, e segue assim até hoje, como o maior centro econômico do país fora de Londres. Mas o recém-chegado não precisa de muito tempo para descobrir outro lado da cidade, mais relaxado e atraente para quem não está de gravata ou tailleur.
 
A começar pela música. A cidade é provavelmente o maior celeiro de bandas importantes do país desde os anos 1980. The Smiths, Oasis, Joy Division, Stone Roses, Simply Red, Happy Mondays, New Order... Do punk do Buzzcocks ao pop do Take That, passando pela batida eletrônica dos Chemical Brothers, a lista é interminável e indica que o terreno é fértil para a criatividade.
 
Aspirantes a Morrisseys e a Noel Gallaghers se apresentam quase diariamente em pubs e casas de shows, repletas dos jovens que chegam de todas as partes para estudar nas três grandes universidades da região. Essa energia é descarregada também na intensa vida noturna nas boates de “Madchester”, sugestivo apelido dado à cidade onde a música eletrônica floresceu na Grã-Bretanha.
 
Um dos locais mais tradicionais para escutar boa música, produzida localmente ou não, é a Band on the Wall. A casa de shows é famosa por abrir espaço para novos artistas e ritmos variados. O nome vem da época em que era uma cervejaria, no início do século passado, e havia um mezanino onde uma banda de jazz animava o público, quase que pendurada na parede.
 
Um ‘pint’ com Ian Curtis
 
Ela fica no Northern Quarter, o “bairro moderninho” de Manchester e endereço de alguns dos melhores bares e pubs da cidade. É o caso do The Castle Hotel, que serve pints desde 1776 e que oferece palco para artistas da cidade desde os tempos em que Ian Curtis, do Joy Division, era apenas um funcionário público de Manchester.
 
De dia, o bairro vale o passeio por suas ruas cheias de grafites, galerias de arte, brechós, antiquários, lojas de marcas locais e muitas, mas muitas, barbearias hipsters.

 
Lojas, bares e gente cuidadosamente arrumada também compõem a paisagem em Spinningfields, complexo comercial-gastronômico ao sul do centro da cidade. Um dos destaques é o restaurante Tattu, que serve versão moderna da cozinha oriental.
 
Essa combinação entre a tradição e a modernidade é marcante. Manchester não parece ter pudor de erguer torres envidraçadas, como as de Spinningfields, em meio a joias arquitetônicas que remetem ao auge de sua economia industrial, na virada do século XIX para o XX. E ao mesmo tempo exibe com orgulho remanescentes daquela época, como os imponentes prédios vitorianos dos hotéis Midland (de 1903) e The Principal (1895), no Centro. Este, aliás, passou por uma enorme reforma e foi reaberto no ano passado, com um bom restaurante (The Refuge by Volta) e um pub no lobby sempre movimentado.
 
O pioneirismo tecnológico é motivo de orgulho local. Foi em Manchester que uma máquina a vapor foi usada pela primeira vez em uma fábrica de tecidos. E de lá partiu, para Liverpool, a primeira linha de trem para passageiros da História. A cidade viu nascer também o primeiro computador com memória interna, o Baby. Parte dessas informações vem do Museum of Science and Industry, que não fica somente na Revolução Industrial e se propõe a explicar as descobertas da ciência até os dias de hoje de forma interativa.

 
A história do “chão de fábrica”, por assim dizer, também está contemplada em outra importante atração local. O People’s History Museum se debruça na construção da democracia britânica, a partir das lutas por direitos trabalhistas e benefícios sociais ao longo dos últimos dois séculos. Manchester, mesmo a lazer, não está mesmo para brincadeira.
 
Futebol: No berço do ‘esporte bretão’

 
O futebol, evidentemente, é uma paixão nacional também na Inglaterra, onde a modalidade, como conhecemos, nasceu. E em Liverpool e Manchester, o “esporte bretão” é também uma atração turística. As cidades são sedes de quatro grandes clubes e protagonizam a principal rivalidade do futebol inglês, entre Manchester United e Liverpool.
 
As duas cidades, assim como Londres, fazem parte do programa “Football is great”, desenvolvido pelo Visit Britain e lançado este ano. Dele resultou um pacote de seis noites que inclui, em Manchester, visitas ao National Footbal Museum, tour pelo estádio do Manchester United e ingresso para um jogo do Manchester City, o atual campeão da inglês; e visita a Stamford Bridge, casa do Chelsea, em Londres. Em Liverpool, o pacote, que no Brasil é comercializado exclusivamente pela Abreu, dá direito à entrada no Beatles Story.
 
Entre museus e estádios
 
Em Manchester, qualquer amante do esporte deve cumprir a peregrinação a Old Trafford, o centenário (porém moderno) estádio do Manchester United. Ainda que seja apenas para reverenciar a “santíssima trindade" do clube, formada pelos jogadores George Best, Denis Law e Bobby Charlton, heróis do título da Liga dos Campeões de 1968, a primeira conquistada por um time inglês, eternizados em uma estátua em frente ao portão principal. Eles fazem parte da história do clube mais vitorioso do país, contada no museu que faz parte do tour pelo estádio, aberto em 1910 e apelidado de “Teatro dos sonhos".
 
Fundado em 1894, o rival Manchester City também tem muita história para contar. Mas não um museu. Os tours mostram apenas os bastidores do moderno Etihad Stadium. Atualmente, no entanto, o futebol apresentado pelo time de Pep Guardiola tem sido o grande atrativo do clube azul. Os ingressos para os jogos fazem parte do pacote do Visit Britain.

 
O National Footbal Museum não poderia estar em outra cidade, a não ser Manchester. A exposição conta a história do jogo no país e no mundo e exibe de peças históricas, como bolas de um ancestral chinês do futebol, a telas interativas. Na entrada, a calçada da fama rende homenagens a craques como os brasileiros Pelé e Marta.
 
O pacote do Visit Britain não inclui visita a estádios ou jogos em Liverpool. Mas estando lá, não deixe de visitar Anfield, a casa do Liverpool F.C., a principal equipe da cidade. Para fãs do futebol de raiz, Goodison Park, sede do Everton, é um programa imperdível. Pena que o clube deve se mudar nos próximos anos para um estádio mais moderno — e menos autêntico — na região do Waterfront.
 
Serviço

 
ONDE FICAR
 
LIVERPOOL
 
Hard Days Night. Diárias a £ 161. harddays nighthotel.com
 
Ibis Centre Dale Street. Diárias a partir de £ 68. ibis.com
 
MANCHESTER
 
The Principal Hotel. Diárias a £ 103. phcompany.com
 
Marriott Victoria & Albert. £ 107. marriott.co.uk
 
PASSEIOS
 
LIVERPOOL
 
Magical Mystery Tour. £ 18,95 (R$ 91) por pessoa. cavernclub.org
 
The Cavern Club. Preços e horários em cavernclub.org
 
Beatles Story. £ 16,95 (R$ 81). beatlesstory.com
 
British Music Experience. £ 14 (R$ 67). britishmusicexperience.com
 
MANCHESTER
 
National Football Museum. Grátis. nationalfootball museum.com
 
Museum of Industry and Science. Entrada franca. msimanchester.org.uk
 
People’s History Museum. Grátis. phm.org.uk
 
Football is Great. A Abreu vende pacotes a partir de R$ 4.336. bit.ly/2HXwqcH


Eduardo Maia 
 

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