Meio Ambiente
11/06/2018 - 04h56

Mariposas na Boraceia indicam preservação da Mata Atlântica no local


Levantamento de zoólogos da USP mostra abundância de inseto cuja ocorrência serve como indicador de conservação ambiental
 
A abundância de algumas espécies de mariposas na Estação Biológica de Boraceia, Salesópolis, região metropolitana de São Paulo, indica que o bioma da Mata Atlântica desse local ainda se mantém preservado. O monitoramento de mariposas da família Sphingidae foi feito por pesquisadores do Museu de Zoologia (MZ) da USP, que consideravam que o avanço repentino da urbanização no entorno da estação poderia ter exercido influência sobre o estado de conservação da área. As mariposas, que em geral têm hábito noturno e cumprem a função de polinização das plantas, também servem como indicador para detecção de degradação ou preservação da natureza.
 
O estudo com os esfingídeos (como são popularmente conhecidas) foi feito em 2012 e 2013 e os dados populacionais dos insetos foram comparados com os de outro levantamento feito há 64 anos. O objetivo foi verificar se ao longo desses anos houve mudanças na comunidade dessas mariposas. Biritiba-Mirim, um dos municípios próximo à estação ecológica, por exemplo, teve um crescimento populacional de 204% entre 1970 e 2007. Neste mesmo período, Mogi das Cruzes cresceu 162%.
 
O trabalho realizado pela equipe do Museu de Zoologia permitiu avaliar o estado de conservação e manutenção dos esfingídeos em um importante fragmento da Mata Atlântica, uma vez que atualmente restam apenas 12% da área original deste bioma, que cobria os cerca de 150 milhões de hectares distribuídos ao longo da costa brasileira, relata Marcelo Duarte, orientador da pesquisa. A Mata Atlântica é um celeiro onde vivem várias espécies de animais, além de uma infinidade de plantas. São mais de 16.000 espécies de plantas e mais de 2.200 espécies de vertebrados. Os esfingídeos têm uma riqueza enorme de espécies. No mundo, já foram descritas cerca de 1.400 espécies e na América do Sul, mais de 300, das quais mais de 60% ocorrem no Brasil.
 
Felizmente, mesmo tendo havido mudanças drásticas nas paisagens ao redor da Estação Biológica, o estudo apontou que houve certa estabilidade na composição e estrutura da comunidade de esfingídeos, explica o pesquisador. Nas duas amostragens consideradas na pesquisa, a de 1948-1950 e a de 2012-2013, foram registradas 76 espécies da família Sphingidae. Destas, 11 ocorreram exclusivamente no primeiro levantamento, 14 foram exclusivas do levantamento recente e 51 foram registradas em ambos os períodos da pesquisa.
 
Somente um gênero (Lintneria) foi exclusivo para o levantamento histórico, enquanto cinco gêneros (Hemeroplanes, Hyles, Isognathus, Madoryx e Orecta) foram registrados exclusivamente na pesquisa recente. Na pesquisa histórica, foram coletadas 877 mariposas pertencentes a 62 espécies; no levantamento recente, foram encontradas 2.509 mariposas pertencentes a 65 espécies. Algumas espécies amostradas ao longo do estudo são consideradas endêmicas da Mata Atlântica, ou seja, ocorrem exclusivamente neste bioma.
 
O fato de não ter sido observada diferença significativa de espécies entre os dois momentos da pesquisa mostra que a Estação Biológica da Boraceia é, de fato, um importante fragmento da Mata Atlântica brasileira para manutenção da diversidade de algumas mariposas, devendo segundo Duarte ser mais bem estudada para se verificar se o padrão encontrado no estudo é válido para outros organismos.
 
A pesquisa com os esfingídeos da Estação Biológica de Boraceia é de autoria de Pedro Ivo Chiquetto Machado, que defendeu dissertação de mestrado com o título Estrutura e composição da comunidade de esfingídeos (Lepdoptera: Sphingidae) atraídos por Luz da Estação biológica de Boraceia, Salesópolis, São Paulo, no Instituto de Biociências (IB) da USP, sob orientação do professor Marcelo Duarte. Parte dessa pesquisa foi recentemente publicada no Journal of Insect Conservation no artigo Long-term stability of the hawkmoth fauna (Lepidoptera, Sphingidae) in a protected area of Brazilian Atlantic Rain Forest.
 
 
Jornal da USP
 

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