Cultura e Entretenimento
18/06/2018 - 03h23

Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha


A história marcou a cidade e a história de uma das maiores bandas de rock do país

 
Em 1988, o Brasil era governado por José Sarney, a economia havia entrado em colapso, pós-Plano Cruzado, as exportações caíram drasticamente e as reservas cambiais foram esgotadas. Na televisão, o programa de maior sucesso era a novela Vale tudo, de Gilberto Braga. As rádios FMs, tocavam à exaustão Que pais é este?, o hit do momento e nome também do terceiro LP da Legião Urbana, a banda que saiu de Brasília para se tornar o grande nome do rock nacional.
 
O sucesso estrondoso da Legião, após três discos lançados, fez de Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá os novos ídolos dos brasilienses. Músicas como Será, Geração Coca-Cola, Ainda é cedo, Tempo perdido, Índios e Eduardo e Mônica faziam parte do set list básico dos jovens daquela geração. E a elas se juntaram Faroeste caboclo e Angra dos Reis, as músicas de maior destaque do novo álbum, ao lado da faixa título.
 
Desde que foi anunciado o show de retorno da banda à capital, um ano e meio depois de lotar por duas noites a Sala Villa-Lobos e o Ginásio Nilson Nelson — numa série de três apresentações — para um megaconcerto no Estádio Mané Garrincha, era enorme a expectativa em todos os cantos do Distrito Federal. Não foi surpresa para ninguém a presença de um público de 50 mil pessoas na friorenta noite de 18 de junho de 1988 para assistir àquele show, que se tornaria histórico por diferentes razões.
 
A primeira delas tem a ver com o fato de, até então, nenhum artista ter reunido na cidade, num espaço fechado, 50 mil pessoas. A outra foi o badernaço provocado pela recusa de Renato e banda de voltarem ao palco, após quase serem atingidos por objetos e bombinhas de são-joão, arremessadas da plateia.
 
Documentários
 
Em consequência disso, os equipamentos de som foram quebrados pelos fãs mais exaltados. Cenas de violência explícita ficaram registradas, igualmente, fora do estádio, culminando com o confronto entre parte dos espectadores e policiais militares. Ônibus foram destruídos e dezenas de pessoas feridas. Cenas do tumultuado concerto ganharam registro, posteriormente, em dois documentários: Rock Brasília — Era de Ouro, de Vladimir Carvalho; e Dê-me abrigo, de Ana Carolina Bussacos, Jania Bárbara de Souza e Beatriz Leal.
 
Dado Villa-Lobos, que desde 2015 faz turnê ao lado Marcelo Bonfá, para celebrar os 30 anos do LP de estreia da Legião, ao falar sobre o show do Mané Garrincha, a pedido do Correio, foi lacônico: “Minhas lembranças estão registradas no livro Memórias de um legionário. Eu me lembro bem do palco pelos mais de 60 minutos que lá ficamos. Bombas explodindo, alambrado despedaçado, invasão e mais bombas explodindo do meu lado; e depois de uma noite em claro, hostilizado no aeroporto, no caminho de volta pra casa”.
 
Um dos produtores do show, Rodrigo Amaral, que estreava nessa função naquela oportunidade, afirma enfático: “Apesar dos problemas ocorridos e dos aborrecimentos vividos, vivenciamos um evento que entrou para a história de Brasília e do rock brasileiro”. Ele recorda que houve críticas em relação à altura do palco, mas justifica: “Veio da própria produção da Legião, representada pelo Rafael Borges, o pedido para que fosse mais baixo, a fim de deixar a banda mais próxima do público”.
 
Rodrigo faz questão de deixar claro que era da banda o segurança do palco. “Foi ele quem permitiu o acesso do fã, de cadeira de rodas, que agarraria o pescoço do Renato”. O produtor acrescenta que naquele tempo não se usava barricada como proteção de palco. O alambrado instalado acabou cedendo, diante da pressão das pessoas que estavam na parte frontal do palco. Tomei como lição, para não repetir as falhas cometidas naquele show”.
 
Orgulho
 
Presente ao show, Romero Pedrosa, economista e servidor da Telebras, que à época tinha 21 anos, até hoje é fã da Legião Urbana e, em especial, de Renato Russo. A primeira apresentação da banda que assistiu foi em 1983, no Clube do Servidor, com abertura da banda Obina Shok. Depois marcou presença num dos shows na Sala Villa-Lobos.
 
“Quando cheguei ao Mané Garrincha, em 18 de junho de 1988, vivia um sentimento que misturava expectativa e orgulho. Orgulho por ver uma banda surgida em Brasília, alcançar o mais alto patamar do rock brasileiro, capaz de reunir 50 mil pessoas num estádio”, destaca. “Assistia ao show da arquibancada e percebi, logo que o Renato começou a cantar Que país é este?, o começo de um tumulto no gramado, em frente ao palco”, rememora Pedrosa.
 
Segundo ele, o discurso do Renato, após o estouro de uma bomba, próximo aos pés do cantor, aumentou a confusão. “Mas, o mais determinante para aumentar a baderna, foi a decisão da banda de não voltar para o bis. Como testemunha de tudo o que ocorreu naquela noite, me vi, desde então, como personagem de um dos maiores momentos do rock no Brasil e da história de Brasília”.
 
 
DEPOIMENTO
 
Carmem Teresa Manfredini, irmã de Renato Russo
 
“No dia do fatídico show do Mané Garrincha, meu irmão estava de bom humor, diferentemente de outros shows, em que ficava nervoso antes de subir ao palco. Ele se hospedou com a banda no Hotel Saint Paul. Quando cheguei ao estádio, fiquei numa espécie de chiqueirinho, um local reservado para os amigos e jornalistas.
 
Achei o palco muito baixo e pequeno e não tinha ideia da tensão que já dominava o ambiente, com pessoas quebrando vidros de ônibus, por exemplo. Obviamente, o governo do Distrito Federal e a produção local subestimaram o número de pessoas que iriam ao show e, além disso, não houve organização e infraestrutura corretas.
 
No decorrer do show, a tensão foi se agravando, com Renato, que era ariano, despejando opiniões que estava tendo naquele momento. Quando um homem subiu ao palco e o agarrou pelo pescoço, imobilizando-o, eu fiquei com medo pela segurança física dele.
 
Sabia que, dali em diante, o show não iria ser bom, mesmo que eles continuassem até o fim. E foi o que aconteceu. Muito nervosismo, bombinhas no palco. Conhecendo o meu irmão, percebi que ele acabaria drasticamente com aquilo.
 
Quando saíram do palco e não voltaram, deu-se o caos. Eu me lembro de termos saído por uma passagem subterrânea e ficarmos por um tempo numa espécie de sala. Os fãs gritavam para que voltassem, mas, mesmo que a banda quisesse voltar ao palco, o meu irmão não voltaria, orgulhoso que era.
 
Fomos para o hotel com uns amigos, mas ele, muito abalado, decidiu ir para o nosso apartamento na 303 Sul. Queria escapar do assédio e das possíveis agressões, que viriam realmente a acontecer. Os nossos pais estavam no Rio de Janeiro. 
 
Duas amigas em comum tinham vindo para show e estavam hospedadas comigo.
 
Ele começou a sair do estado de agitação e começou a ficar deprimido e muito preocupado com o que tinha acontecido, se havia mortes, etc. Preparamos a banheira com água quente e sal grosso e ele ficou nesse banho por um bom tempo, e foi dormir no quarto dos nossos pais, enrolado com um cobertor até a cabeça.
 
O telefone não parava de tocar: amigos, jornalistas, mas também vozes de homens, ameaçando jogar bombas no apartamento e matar o meu irmão. O porteiro estava instruído a não deixar ninguém subir sem identificação. Alguns amigos vieram.
 
Quando ele decidiu ir embora, tivemos a ideia de sair pela entrada da garagem e seguir para o aeroporto, fugindo, literalmente. Ele foi escoltado pelo Murilão, um amigo, até a área VIP.
 
Antes de falecer, o meu irmão ensaiou uma volta para um grande show em Brasília, mas acho que ficou reticente, com medo da reação do público. Tornou-se algo mitológico alguém ter ido ao show do Mané Garrincha. Apesar de toda a conjunção de erros, foi um ponto divisor na carreira da Legião e do meu irmão. Dali em diante, ele percebeu a dimensão do sucesso da banda no país e teve a responsabilidade, cada vez maior, pelas letras que escrevia e os efeitos que causavam e, ainda hoje, causam nas pessoas.”
 
 
Correio Braziiense
 

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