Tecnologia
27/06/2018 - 05h36

Fábrica de mentiras: Maioria dos eleitores não desconfia de que recebem fake news, diz pesquisa


Uma pesquisa realizada pelo INCT (Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação) demonstra que a maioria dos eleitores brasileiros não percebe que recebem notícias falsas de política. Entre 2.500 pessoas ouvidas no primeiro semestre de 2018, com representatividade nacional em várias faixas etárias e de renda, menos de um quarto respondeu que desconfiava do recebimento de fake news.
 
De acordo com os autores do estudo, os cientistas políticos Max Stabile e Marisa von Bülow, professora do Instituto de Ciência Política na UnB (Universidade de Brasília), as entrevistas foram realizadas, coincidentemente, quando uma série de informações falsas a respeito da vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março no Rio de Janeiro, foram disseminadas e compartilhadas nas redes sociais e em serviços de mensagens.
 
"A primeira coisa a se notar no resultado é que esse fenômeno das notícias falsas é importante no mundo todo, é algo que tem tido impacto na qualidade dos debates políticos de forma geral e, em especial, em momentos eleitorais. E a nossa pesquisa aponta que há pouca consciência disso no Brasil", afirma a professora.
 
"A pergunta era: 'Você desconfia de que recebe notícias falsas sobre política?'. Menos da metade daqueles que usam redes sociais [para se informar] disseram que desconfiam e, no total, menos de 24% dos que responderam a pesquisa disseram que desconfiam", Bülow explica.
 
São consideradas notícias falsas nesse estudo "aquelas produzidas de forma intencionalmente mentirosa". A definição exclui "rumores, fofocas ou opiniões, focando especificamente na produção de mentiras que têm como objetivo manipular e distorcer os debates políticos, disfarçando-os de notícias".
 
Nas respostas, 7,7% afirmaram "não sei", 23,9% afirmaram que "têm recebido" notícias sobre política que desconfiam que sejam falsas, e o restante, 68,3%, correspondem aos que responderam que "não recebem". 
 
 
"Se dois terços das pessoas que a gente entrevistou não desconfiam de que recebem notícias falsas sobre política, isso quer dizer também que elas nem estão se questionando se estão sendo usadas como iscas para reproduzir e viralizar o conteúdo. E isso é mais preocupante", diz Bülow.
 
Os pesquisadores esperavam um índice maior de pessoas que admitem receber fake news de política, dada a grande repercussão do assunto no Brasil, e consideram que 24% é um número pequeno, uma vez que "a ampliação do acesso à internet --que hoje supera 60% da população brasileira-- também significa ampliação do acesso a notícias falsas".
 
"Em contextos eleitorais, o tema ganha ainda maior relevância, devido a seus impactos distorcivos no debate político e, portanto, na construção de preferências eleitorais. Um estudo recente sobre a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 estima que um de cada quatro americanos acessou portais produtores de notícias falsas", afirma a pesquisa.
 
"Outro estudo sobre o caso americano aponta que as notícias falsas mais populares tiveram maior quantidade de compartilhamentos no Facebook do que as notícias mais populares dos meios de comunicação tradicionais."
 
(As pessoas) não estão se questionando se estão sendo usadas como iscas para reproduzir e viralizar o conteúdo. E isso é mais preocupante
Marisa von Bülow, professora do Instituto de Ciência Política na UnB (Universidade de Brasília) e coordenadora da pesquisa
 
Número cresce entre usuários de redes sociais
 
Se forem consideradas somente as respostas dos entrevistados que declararam usar plataformas de redes sociais para se informar sobre política, o número de pessoas que afirmam desconfiar que recebem fake news sobe para 45,7%. "Apesar do aumento, consideramos o número baixo. É evidência de que o fenômeno das notícias falsas ainda não é percebido como tal por uma parte importante da população, que tenderia a acreditar nessas 'notícias'."
 
"A pesquisa mostra uma crise de confiança não só com relação à parte política, aos parlamentares, ao sistema político de forma geral, à urna eletrônica. Estamos vendo também que os atos de desconfiança com relação aos meios de comunicação tradicionais estão muito elevados. As notícias falsas se alimentam dessa desconfiança, é uma ironia, mas é assim", ressalta Bülow.
 
Extremistas desconfiam mais
 
Outro resultado que se destaca nas respostas dos entrevistados é a interferência da ideologia política na percepção sobre a propagação de fake news.
 
"Como varia a percepção da pessoa de que ela recebe notícias falsas? O que a gente encontrou é que, por identificação ideológica, a percepção varia. [Ficou mais visível] Sobretudo [entre] aquelas pessoas que se identificaram como mais conservadoras, mais à direita do espectro ideológico", explica a professora.
 
Em uma escala de 1 a 10, as pessoas que disseram que são 10 (extrema-direita) e também as que disseram que são 1 (extrema-esquerda) afirmaram que desconfiam mais de que recebem notícias falsas.
 
"Mas aí tem uma coisa muito irônica", diz Bülow, "como a gente viu acontecer nos Estados Unidos". "As pessoas mais desconfiadas das notícias que recebem, às vezes, são também as maiores consumidoras de notícias falsas. Não dá para dizer que os que estão nos polos são os mais conscientes, não necessariamente."
 
A renda e a idade dos entrevistados não interferem nessa percepção.
 
"O mesmo estudo que avaliou que um em cada quatro americanos acessou sites de notícias falsas identificou que a maior parte das visitas a essas páginas foi feita por eleitores conservadores (e que votaram em Donald Trump). Esse viés pró-Trump das notícias falsas foi corroborado por outro estudo, mostrando que as notícias falsas mais discutidas eram favoráveis àquele candidato. Ao mesmo tempo, tais eleitores declararam desconfiar mais dos meios de comunicação tradicionais", aponta a pesquisa.
 
"Fake news é um item no cardápio de manipulação"
 
Embora o foco da pesquisa seja exclusivamente a percepção sobre notícias falsas de política, a professora Bülow acha importante olhar também para outras formas de manipulação nesse debate. "Tem todo um cardápio de formas de manipulação usando as novas tecnologias, e não estamos olhando muito para ele. A gente sabe que tem muita venda de comentários, com falsidade ideológica, atores [políticos] estão comprando conjuntos de comentários para poder influenciar em determinados debates e em certos fóruns", ela diz.
 
"Estamos chegando a uma situação em que a gente não sabe mais se quem está comentando naquele vídeo do YouTube ou naquele grupo do Facebook é aquela pessoa mesmo, e se o que ela está falando é o que ela realmente pensa ou se ela está sendo paga por alguém para falar aquilo."
 
A pesquisadora cita mais exemplos: os robôs usados para curtir e fazer comentários, que se passam, com facilidade cada vez maior, por usuários humanos nos filtros das redes sociais; e a venda de bancos de dados com números de WhatsApp.
 
"Esses números de telefone vão ser usados, provavelmente, não para a propaganda política, mas para a disseminação de notícias falsas ou para falar mal do outro candidato, em campanhas contrárias", ela avalia.
 
Pesquisadora aponta sete dicas para evitar fake news
 
A professora da UnB aponta sete dicas para serem usadas (cada vez mais) ao se pesquisar e receber notícias de política:
 
1. Cuidado com manchetes muito chamativas. Olhe o conteúdo da notícia e veja se ela entrega o que o título promete.
 
2. Tente se informar por múltiplas fontes, não dependa de uma fonte só.
 
3. Apoie-se nas iniciativas de fact checking para se informar.
 
4. Não torne WhatsApp, Facebook e Google suas principais fontes de informação. Essa não é a função das redes sociais.
 
5. Desconfie do que pode parecer um "segredo", algo que "só eu estou sabendo".
 
6. Desconfie muito da polarização. As notícias falsas geralmente demonizam o outro.
 
7. Não compartilhe se desconfiar de que é falso.
 
"A propagação de notícias falsas aproveita muito da desconfiança. Se apresenta como a notícia verdadeira contra tudo aquilo que a mídia estaria dizendo, que seria falso. Quem não gosta de uma boa conspiração, não é?", pergunta.
 
 
Gabriela Fujita / UOL
 

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