Saúde
16/07/2018 - 06h29

Por que a indústria do cigarro está investindo em ONG antitabagista?


Por que a indústria do cigarro, capitaneada pela Philip Morris, está investindo um bilhão de dólares numa ONG que promete um mundo sem cigarro?

 
Cientistas de reputação imaculada deveriam aceitar contribuições financeiras de uma companhia de tabaco? Este não é um teste teórico de comportamento ético, mas o dilema que se apresentou dramaticamente para acadêmicos da Universidade de Utrecht (UU), na Holanda.
 
Quem lançou a isca foi a Philip Morris, gigante mundial do tabaco, e a oferta não era de se jogar fora: 360 mil euros (1,64 milhão de reais) para o trabalho de investigar as consequências do contrabando e falsificação de cigarros. De mais a mais, a companhia acenava com total liberdade para os acadêmicos em suas apurações.
 
Não são historicamente as mais decentes as relações entre profissionais da saúde e as controvertidas usinas de câncer de pulmão. Décadas atrás, a indústria de tabaco tinha o hábito de recrutar médicos de forma que eles, ao contrário do que já indicavam os alertas patológicos, alardeassem publicamente as virtudes do fumo para os pulmões e as vias respiratórias.
 
Médicos de prestígio aceitavam alegremente ser cúmplices desse crime. É natural que, hoje em dia, quando a indústria procura a academia, uma fumaça de desconfiança impregne o ar.
 
O professor de Direito John Vervaele, encarregado de administrar a doação em Utrecht, reagiu às críticas argumentando: “A indústria de tabaco não é ilegal. O comércio ilícito de cigarro, sim”.
 
O argumento não convenceu os pneumologistas e oncologistas da Sociedade Holandesa do Câncer, os mais desconfiados em relação à pretensa boa vontade da Philip Morris. Cerca de 7 milhões de pessoas continuam morrendo todos os anos, no mundo inteiro, vítimas dos efeitos malignos do fumo – rebateram os clínicos.
 
A discussão azedou a tal ponto que a UU acabou declinando da doação. Anunciou que ela própria vai bancar a pesquisa do professor Vervaele e sua equipe. 
 
A Philip Morris, por sua vez, está disposta a verter uma montanha de dinheiro em programas como aquele que tentou, em vão, na Holanda. O combate ao comércio ilegal de cigarro vai lhe custar 100 milhões de dólares – não só em pesquisas, mas também nos custos de repressão ao tráfico.
 
Outro bilhão de dólares a Philip Morris pretende investir, ao longo de 12 anos, na Foundation for a Smoke-Free World, uma ONG com sede em Nova York. Como entender que a fabricante do Marlboro, a marca número 1, esteja financiando uma fundação que prega “um mundo sem cigarro?”
 
A tal fundação suscita controvérsias, de fato. A Philip Morris assegura que ela exprime hoje uma preocupação que é de toda a indústria do tabaco: como ajudar os fumantes a encontrar alternativas seguras aos cigarros combustíveis, unanimemente fadados à extinção? 
 
Já a Organização Mundial da Saúde não tem tanta certeza assim dos objetivos meritórios das campanhas da indústria.
 
Segundo a brasileira Vera Luzia da Costa e Silva, chefe da Convenção do Controle do Tabaco, com sede em Genebra, o que uma entidade endinheirada como a Foundation for a Smoke-Fee World almeja é atropelar as iniciativas coletivas para impor sua própria pauta, seus próprios métodos e, no final, seus próprios interesses. Que continuam comprometendo a vida saudável. 
 
 
Carta Capital 
 

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