Mulher
23/07/2018 - 05h53

A obscena senhora Hilda Hilst


Escritora é biografada por duas mulheres em 'Eu e Não Outra' e será a homenageada da edição 2018 da Flip, que começa nesta próxima semana

 
"Hilda e Lygia arrasam uma velha teoria: nem sempre beleza e talento são incompatíveis.” Assim a jornalista grega Alik Kostakis referia-se, em 1959, no jornal Última Hora, às escritoras paulistas Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, amigas próximas desde a juventude até a morte de Hilda, em 2004.
 
Se a frase com ênfase na beleza física soa incompatível com as lutas femininas de quase 60 anos mais tarde, Hilda está vivíssima em 2018, como homenageada principal da 16ª Feira Literária Internacional de Paraty, a Flip (de 25 a 29 de julho), e como protagonista da biografia Eu e Não Outra – A Vida Intensa de Hilda Hilst (editora Tordesilhas).
 
O tempo de enfrentamento ao machismo estrutural dos terráqueos coloca a escritora outrora marginalizada no palco central da Flip e entrega a duas outras mulheres, as jornalistas e pesquisadoras Laura Folgueira e Luisa Destri, a tarefa de, juntas, biografar uma pensadora que, à sua maneira, afrontou e confrontou as normas predominantemente masculinas de outros tempos.
 
Desde os atos inaugurais de ocultar o sobrenome provinciano-aristocrático Almeida Prado no nome público e se firmar como poeta ainda muito jovem, Hilda Hilst, nascida em Jaú, em 1930, numa família de fazendeiros, fez do desvio das normas sua própria norma de conduta.
 
A juventude high society foi trocada, em 1966, pela vida alternativa na chamada Casa do Sol, que Hilda implantou em uma fazenda da família em Campinas, e onde morou pelo resto da vida, rodeada por escritores (como Caio Fernando Abreu), namorados, amigos e cães (chegou a ter  90 cachorros).
 
As autoras não creditam à condição feminina a opção pela vida afastada da nevralgia metropolitana nem a penúria econômica de que Hilda passou recorrentemente a reclamar, mesmo na fase em que a Unicamp encampou, em parte, sua criação literária.
 
“Quanto às dificuldades financeiras, é difícil saber”, afirma Laura Folgueira. “Talvez um homem fazendo a literatura que ela fazia fosse mais bem-aceito pelo mercado leitor, pois se esperava – e, em alguns sentidos, ainda se espera – que uma mulher tratasse de temas ‘femininos’, e essa não é a obra dela. É possível que isso tenha criado uma camada de dificuldade adicional, sim.”
 
Para Luisa Destri, Hilda dedicou-se à literatura de um modo que até então era considerado masculino. “Não teve filhos nem vida doméstica, não tratava de questões cotidianas e não foi ‘esposa’.
 
Nem durante os anos em que esteve casada entendeu o casamento de modo tradicional. Conseguiu abolir as preocupações mundanas de modo análogo a muitos de nossos escritores, que tinham os dias livres para a leitura e a escrita”, diz.
 
Laura e Luisa retratam de modo sempre delicado os traços mais duros da “vida intensa” da autora de Fluxo-Floema (1970), Qadós (1973) e A Obscena Senhora D (1982), que circundam situações de abuso sexual, prostituição, loucura e diversos estigmas da normatividade. “Como nossa proposta era fazer um perfil biográfico de Hilda e não uma biografia intelectual, a narração é quase sempre o caminho tomado pelo nosso trabalho”, justifica Luisa.
 
“Para nós, esse tratamento delicado tem a ver com respeitar a biografada”, explica Laura. “Essas questões foram muito importantes para a constituição de quem ela era, e algumas chegaram a ser relatadas por ela não só para amigos e para a imprensa, mas também em obras, como a história do pai. Escolhemos não interpretar nem dar mais peso a essas coisas que se diriam ‘polêmicas’. Foi importante tentar evitar qualquer estereótipo de Hilda como apenas uma mulher excêntrica e polêmica. Ela mesma não evitou isso em vida, pelo contrário.” 
 
Mesmo com todo cuidado, não evitam episódios potencialmente anedóticos da trajetória da autora. O livro de poemas Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974) flagra Hilda apaixonada por um dos donos do jornal O Estado de S. Paulo, Júlio de Mesquita Neto, cujas iniciais estão inscritas no título.
 
“Hilda lia diariamente o jornal dos Mesquita. Constantemente, encontrava pistas que interpretava como sinais de que era retribuída em sua paixão por Júlio ou como oportunidades para estar perto dele”, escrevem. Narram, também, as muitas tentativas de Hilda de se comunicar com os mortos, através da gravação e decupagem de estática radiofônica.
 
A certa altura, a escritora de poesia, prosa e teatro decidiu ganhar dinheiro com o próprio ofício e elegeu perseguir tal objetivo insurgindo-se mais uma vez contra o “bom gosto”: decidiu escrever pornografia, e daí nasceram O Caderno Rosa de Lory Lamby (1990), Contos d’Escárnio (1990) e Cartas de um Sedutor (1991).
 
As “adoráveis bandalheiras” (segundo sua própria definição), escritas em idade já sexagenária, foram inicialmente rejeitadas por editores, críticos e até por Lygia Fagundes Telles. “Você cometeu uma agressão contra si mesma”, criticou a amiga, segundo as biógrafas.  Presença terna e constante em Eu e Não Outra, Lygia, hoje com 95 anos, não falou às autoras. 
 
À má recepção inicial de sua fase erótica (foi definida como “pueril”, “meninil”, “pornografia para crianças”), Hilda respondeu: “Você vomita a cada linha, lendo o senhor Genet. (...) O homem fala coisas realmente repugnantes. E não é impressionante como ele é lido?” 
 
No dia 28, Laura Folgueira participa de um debate em Paraty, mas Eu e Não Outra não terá lançamento oficial na Flip devotada à memória da poeta de Bufólicas (1992). Por vias sempre tortuosas, o tempo parece dar razão à obscena senhora H. 
 
Os piratas editoriais invadem a Flip
 
Evento tradicionalmente dominado pelo estreito círculo das editoras mainstream, a Festa Literária Internacional de Paraty será invadida por piratas em 2018. O ato chama-se Flipei, Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, e reunirá autores e personalidades políticas de perfil progressista, como Djamila Ribeiro, Esther Dwek, Gregório Duvivier, Guilherme Boulos, Jessé Souza, Laura Carvalho, Manuela D’Ávila, Marcelo Freixo, Marcelo Semer, Marcia Tiburi, Roberta Estrela D’Alva, Sabrina Fernandes, Sonia Guajajara, Suely Rolnik, Tatiana Roque e Wagner Schwartz, entre dezenas de outros.
 
A iniciativa é da editora Autonomia Literária e da plataforma cooperativa Rizoma (“o vietcong das editoras independentes” contra “a ilha colonial de Paraty”). “Por estar tendo que se reinventar, a Flip começou a permitir que outras iniciativas menores do mercado editorial participassem da feira”, diz o editor da Autonomia Literária, Cauê Ameni.
 
“Com a procura de casas para alugar no maior evento literário do País, a especulação imobiliária começou a atuar com mais intensidade em Paraty, e então pensei: é melhor alugar um barco de um caiçara local do que pagar uma fortuna para algum herdeiro.”
 
Ele explica o ideário e o formato: “Vamos juntar as editoras que estão florescendo no mercado com seus autores para fazer debates, lançamentos e saraus. Todas têm um alinhamento político progressista organicamente, porque estão tentando mudar o mercado convencional, que está caindo aos pedaços, com os monopólios das grandes livrarias devendo fortunas. Para isso, não poderia existir uma plataforma melhor que um barco pirata”. Os debatedores deverão falar no barco ancorado, para uma plateia localizada no continente.
 
“A estrutura de um barco pirata é perfeita para que pequenas editoras de esquerda promovam debates políticos, sobretudo no período sombrio que o País está atravessando”, define Ameni.
 
As editoras independentes que compõem o conglomerado corsário são Autonomia Literária, Boitempo, Contracorrente, Dublinense, Elefante, Escola da Cidade, Expressão Popular, Hedra, Lote 42, N-1, Nós, Politeia, Relicário, Ubu e Veneta. 
 
 
Carta Capital 
 

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