Polícia
08/08/2018 - 04h51

'A vida dele custou R$ 15, a minha custaria R$ 20': outro jovem diz ter sido espancado em boate santista


"Eu me arrependo demais por não ter falado nada. Eu me arrependo porque uma vida foi embora. O moleque só saiu para curtir, e o pai dele recebeu a notícia de que o filho estava quase morto. Dói demais saber disso." O depoimento é de Leandro*, 20, que lamenta não ter processado a casa noturna Baccará Backstage, onde diz ter sido espancado pelos seguranças no começo deste ano. Na ocasião, fez boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, mas acabou não levando o caso adiante.
 
Trata-se do mesmo estabelecimento, localizado em Santos (São Paulo), onde o estudante de engenharia elétrica Lucas Martins de Paula, 21, foi espancado no início de julho. Lucas passou 22 dias hospitalizado, em coma induzido, e morreu no último dia 29. Segundo testemunhas, ele foi agredido por seguranças até desmaiar depois que questionou o valor de sua comanda. "Foi R$ 15, uma Skol Beats que ele não consumiu. Tudo começou por causa disso", lamentou Isaías de Paula, 52, pai do jovem morto. 
 
O que aconteceu com o Lucas poderia ter acontecido comigo.
A vida dele custou R$ 15, a minha teria custado R$ 20
Leandro 
 
Diante da agressão e morte do estudante, Leandro decidiu entrar com um processo. Seu objetivo, afirma, é evitar que o mesmo aconteça com outras pessoas. "Ele foi vítima de lesão corporal, ameaça, constrangimento ilegal, cárcere privado e tentativa de homicídio", diz Airton Sinto, advogado que representa Leandro no Caso. "Isso tudo na esfera penal. Na esfera cível, promoveremos ação de indenização de danos morais por motivos óbvios", continuou. 
 
Procurado pela reportagem, o advogado da casa, João Manoel Armôa Júnior, afirmou que só vai se posicionar com o conhecimento formal da acusação e de quem acusa, mediante processo legal - previsto para breve pela acusação.
 
"Gostaria de saber quem é a pessoa", disse. "Eu sou advogado, não falo coisa por suposição, falo sobre coisa que tem processo em andamento. Senão, fica conjecturando, tem que falar de coisa que existe."
 
O dono do estabelecimento, Victor Alves Karan, e três seguranças foram indiciados em 30 de julho por homicídio qualificado por motivo fútil, no caso de Lucas. O estabelecimento está fechado desde 10 de julho por ordem da prefeitura, e a multa por descumprimento varia de R$ 1.300 a R$ 10 mil.
 
Balde de cerveja começou a confusão
 
A história de Leandro tem elementos parecidos com a de Lucas. Ele conta que já havia ido à Baccará Backstage duas vezes, quando voltou ao local para comemorar o aniversário de uma amiga. Com ele havia outras seis pessoas, e Leandro afirma que parte da turma já havia ido embora quando ele, por volta das 3h, decidiu comprar mais um balde de cerveja. 
 
"Enchemos os copos e nos afastamos um pouco do balde. Quando voltei, tinha dois caras bebendo minha cerveja. Falei que era minha, eles disseram que era 'nossa' [para beber juntos]. Fui reclamar com um segurança, que me segurou de forma agressiva e mandou os caras vazarem. Todos se conheciam e eles saíram com meu balde. Deixei quieto e fui procurar meu amigo", relata Leandro.
 
Ele conta que estava sozinho quando aquele mesmo segurança se aproximou e lhe deu um soco na cara. "Outros três chegaram, fingindo que era para me proteger, e me levaram para um quartinho onde os quatro começaram a me bater. Durou uns sete minutos. Até que chegou outro homem, acho que era o dono, e mandou pararem. Eu estava deitado, ele colocou o pé no meu pescoço e disse que eu ia pagar a conta", continua. A tentativa de homicídio mencionada pelo advogado se refere a esta última forma de agressão física.  
 
Assim que levou o soco e foi levado ao outro ambiente, diz Leandro, uma amiga que testemunhou a agressão foi colocada para fora da casa noturna. De lá, ficou gritando pelo amigo. Segundo o relato dela, o segurança a aconselhou a trazer uma maca, pois seu amigo não sairia de lá andando. Ou talvez nem sairia vivo.
 
Acho que só me deixaram sair porque minha amiga era
testemunha. Se ninguém tivesse percebido, eu teria acabado como
o Lucas. Eles iriam me jogar lá na frente [da casa noturna] e já era
Leandro
 
Diferença de R$ 20 e senha errada
 
Ainda no quartinho, o último homem a entrar perguntou quanto Leandro deveria pagar. Ele respondeu R$ 180, referentes a dois baldes de cerveja e um de Skol Beats. O homem, de acordo com Leandro, determinou que ele pagasse R$ 200. E levaram a maquininha até lá, antes de liberá-lo. "Eu ainda errei a senha e levei um chute na costela. Eles perguntaram se eu estava tirando eles." Na segunda tentativa, pagou os R$ 200.
 
Ao deixar o local, Leandro e a amiga saíram correndo e encontraram um carro de polícia. Os oficiais o aconselharam a fazer um boletim de ocorrência, que agora será usado no processo. No dia seguinte, fez um exame de corpo de delito que identificou "equimoses subcutâneas, arroxeadas, circulares, algumas coalescentes e outras justapostas, distribuídas na face [...]. Lesões correspondem a golpe com soco inglês".
 
Leandro confirma que foi agredido com esse acessório. "Eles não quiseram só dar um susto. Eles bateram e 'o que acontecer aconteceu', igual com o Lucas. Minha sorte é que não sou tão magro como ele, acho que isso me protegeu." Como trabalha com público, ele diz ter ficado três dias em casa, afastado, por causa da aparência. Depois, passou mais quatro meses sem sair à noite, por medo que algo ruim pudesse acontecer novamente.
 
O incômodo voltou após o caso de Lucas vir à tona, quando amigos começaram a marcar Leandro no Facebook. "Eu tinha medo, tinha receio. Mas poderia ter entrado com um processo, fechado a casa noturna. Se tivesse feito isso, talvez nada teria acontecido com o Lucas."
 
*O nome foi alterado para preservar a identidade
 
 
UOL
 

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