Portos
20/08/2018 - 03h39

Do porto de Santos à marina de Miami


Afilhado político de Temer que comandou Codesp acumula patrimônio milionário e offshore no Caribe


 
Radicado em Miami, na Flórida, há pelo menos cinco anos, o economista Marcelo de Azeredo, ex-presidente do porto de Santos e afilhado político do presidente Michel Temer, acumula um patrimônio imobiliário de 12,3 milhões de reais no Brasil e nos Estados Unidos. Azeredo, procurado pela Polícia Federal para depor no inquérito que investiga corrupção no porto paulista, também é diretor de cinco empresas no exterior: quatro na Flórida e uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, Caribe.
 
A piauí encontrou na Divisão de Corporações do Estado da Flórida um pedido da offshore, denominada “Monaco Group Holdings Corp”, para operar em território norte-americano. No documento, Azeredo assina como diretor da offshore, criada em abril de 2013 pela empresa Nerine Trust Company, especializada em criar e administrar offshores no território britânico. A se julgar pela assinatura, trata-se da mesma pessoa: a rubrica é idêntica à do registro da candidatura de Azeredo a deputado estadual em 1994.
 
Além da “Monaco Corp”, Azeredo é diretor de outras quatro empresas na Flórida, criadas entre 2013 e 2017: “Monaco Group Holdings Inc”, “Aventura Assets”, “Brickell Heights” e “Perricone Ventures” – nessa última o economista tem como sócia a mulher dele, Isabela Pereira de Lucena Rodrigues Guerra.
 
Essas empresas são proprietárias de três apartamentos residenciais no condado de Miami: um de 645 metros quadrados vizinho a uma marina de North Miami Beach com valor de mercado de 846,9 mil dólares; outro de 570 metros quadrados no município de Aventura avaliado em 598 mil dólares; e um terceiro com área de 255 metros quadrados e valor de mercado de 431 mil dólares, em Miami. Um patrimônio imobiliário de 1,8 milhão de dólares, ou 7,2 milhões de reais, conforme a cotação do dólar do dia 14.
 
A esses bens de Azeredo em solo norte-americano se somam outros 5,1 milhões de reais em imóveis no estado de São Paulo: um apartamento em Alto de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, e uma área de 12,6 hectares em Campos do Jordão, no Vale do Paraíba. Tudo administrado a distância por ele.
 
A carreira na administração pública de Marcelo de Azeredo começou cedo. Antes de completar 30 anos de idade, no governo de Orestes Quércia à frente do estado de São Paulo (1987-1991), ele foi diretor da Sabesp, companhia de saneamento do estado, e da distribuidora de energia elétrica Eletropaulo, quando ainda era uma estatal.
 
Ao suceder Quércia no comando do estado, Luiz Antonio Fleury nomeou Azeredo executivo da Nossa Caixa, na época um banco estatal paulista, e, depois, coordenador de administração na Secretaria Estadual de Saúde. Na gestão Fleury, o economista tornou-se homem de confiança do irmão do governador, Frederico Pinto Coelho, o “Lilico”.
 
Azeredo tinha um padrão de vida elevado: em 1993, declarou renda média mensal de 60 mil reais, em valores corrigidos, conforme declaração do Imposto de Renda anexada ao registro da candidatura no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Gastou 1,7 milhão de reais na campanha, em valores atualizados, mas, com 16,6 mil votos, ficou na suplência.
 
O consolo viria em junho do ano seguinte, quando foi nomeado diretor do porto de Santos por indicação do então deputado federal Michel Temer. Era época de mudança nos portos brasileiros, com o início das privatizações dos terminais de carga, em licitações milionárias. Azeredo só deixaria o cargo em maio de 1998. No período de três anos, o patrimônio imobiliário dele cresceu 1.000%. Foi de 129 mil para 1,4 milhão de reais – todos os valores estão corrigidos para abril deste ano pelo IGP-DI.
 
O economista voltaria aos holofotes em 2001, quando a então estudante de psicologia Érika Santos entrou com um processo de dissolução de união estável, na Vara de Família de Santos, contra Azeredo. Ela pedia pensão de 10 mil reais mensais e, para justificar a cifra, alta para os padrões da época, os advogados da psicóloga argumentaram que o ex-marido tinha muitos bens em nome dele e de “laranjas”, adquiridos de forma ilícita. Como prova, anexaram ao processo planilhas retiradas do computador de Azeredo que sugeriam o repasse de propinas por parte da Libra e da Rodrimar, ambas concessionárias de terminais no porto, a pessoas identificadas como “MA”, “MT” e “L” – que seriam, segundo a Polícia Federal, Marcelo de Azeredo, Michel Temer e João Baptista Lima Filho, o policial militar amigo de Temer. “Lima quer participação p/ MT + MA + L (em torno de 20%)”, diz um trecho da planilha.
 
Com base nos documentos de Santos, a PF instaurou inquérito para apurar se houvera crimes de corrupção, fraude em licitação e evasão de divisas por parte de Temer e Azeredo – na época, a polícia desconhecia quem era o Lima que aparecia nas planilhas. Então deputado federal, Temer foi intimado três vezes a prestar depoimento sobre as acusações, mas não respondeu a nenhuma.
 
Érika Santos acabou mudando sua versão sobre o caso. Ao ser intimada a depor, retirou todas as acusações contra o ex-marido. Ainda assim, em razão de Temer ter foro especial, a investigação foi enviada ao STF, mas só em fevereiro de 2011, sete anos após o início do inquérito. Três meses depois, em maio, o ministro Marco Aurélio Mello decidiu pelo arquivamento do caso em relação ao deputado. Azeredo seguiu sendo investigado na Justiça Federal em São Paulo, em inquérito sigiloso, que também foi arquivado.
 
Em 2017, a Polícia Federal retomaria as investigações sobre o caso a partir de interceptações de conversas telefônicas entre o deputado Rodrigo Rocha Loures e um diretor da Rodrimar, concessionária de terminal no porto de Santos. Em março deste ano, a PF deflagrou a Operação Skala e prendeu temporariamente treze pessoas, entre elas o coronel Lima, o advogado José Yunes (ambos amigos de Temer) e o ex-diretor da Codesp Wagner Rossi. Azeredo não é investigado neste inquérito, mas desde abril o delegado Cleyber Malta Lopes, responsável pela investigação, tenta ouvi-lo como testemunha, sem sucesso.
 
Após deixar em definitivo a administração pública, Azeredo seguiu comprando e vendendo imóveis em São Paulo, Campos do Jordão e Caraguatatuba, litoral paulista. Em dezembro de 2010, fez sua compra mais vultosa: por 5 milhões de reais, adquiriu um apartamento de 741 metros quadrados e cinco vagas na garagem na avenida das Nações Unidas, vizinho ao Parque Villa-Lobos e a apenas 1,5 quilômetro da casa onde mora o padrinho político, Michel Temer.
 
Além dos imóveis, Azeredo deixou no Brasil uma dívida de 1,2 milhão de reais com a Receita Federal. Ele é réu em uma ação penal na Justiça Federal em Santos por crime ambiental e outra cível, por improbidade administrativa, ambas referentes ao período em que era diretor da Codesp. O processo ainda não foi julgado.
 
Procurada pela piauí, a advogada de Azeredo, Marta Saad, não quis se pronunciar. Tanto a assessoria do presidente Temer quanto a defesa do coronel Lima negam envolvimento em supostas irregularidades no porto de Santos.


Revista Piauí
 

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