Mulher
29/08/2018 - 08h25

A gata andaluza


Uma tarde em Pilas, terra da primeira transexual a disputar o título de Miss Universo

 
Desde 2011, quando um padeiro da cidade acertou os sete números da maior loteria europeia e embolsou 121 milhões de euros, o nome de Pilas não era tão citado fora das fronteiras andaluzas. Agora, o município de 14 mil habitantes, próximo de Sevilha, vem sendo celebrado nacionalmente como a terra natal da nova Miss Universo Espanha, Ángela Ponce, coroada no último dia 29 de junho.
 
A beldade de 27 anos que irá representar o país no mais famoso concurso de beleza do mundo tem o biótipo esperado de uma miss: 58 quilos, 1,77 metro de altura, 90 centímetros de busto, 61 de cintura e 90 de quadril. Longos, seus cabelos castanhos são levemente cachea-dos. Já os olhos azuis parecem ser o único traço herdado do pai, um homem atarracado e bonachão. “Ángela é alta como a mãe”, me disse Eustáquio Ponce numa tarde quente de julho, em Pilas.
 
Encontrei-o no Café-Bar Mandurrio, que ele administra com o filho e onde a própria miss já trabalhou. Trata–se de um local bem simples, um tanto escuro e quase sem decoração, em que trabalhadores da região costumam beber um trago ou comer algo depois que deixam o serviço. “Para mim, Ángela é a menina mais linda do planeta, mas não esperava que ela pudesse ganhar”, confessou Ponce.
 
Não apenas os parentes duvidavam da vitória. A candidata andaluza, afinal, tornou-se mulher muito recentemente. Até quatro anos atrás, para efeitos legais, se chamava Ángel. Primeira transexual a participar do Miss Universo Espanha, também será a primeira a concorrer à honraria máxima do concurso feminino: o título de Miss Universo.
 
Em Pilas, o prefeito José Leocadio Ortega planeja uma recepção para a jovem, que mora em Madri, mas visita a cidade com frequência. “Falamos por telefone há pouco tempo e vamos acertar a data”, afirmou. “Estou convicto de que não será a última homenagem. Essa menina ainda vai nos trazer muitas alegrias.” O vereador Manuel Quintero fez coro: “Sempre a respeitamos por aqui. Lembro que, em desfiles beneficentes, Ángela era a primeira a subir na passarela, magrinha e de cabelos curtos. Duvido que outra cidade do país a tratasse tão bem como a tratávamos.”
 
As recordações da miss, porém, não são tão amenas. Embora os familiares a aceitassem com naturalidade desde a infância, permitindo que brincasse de boneca ou com as roupas da mãe, ela enfrentava sérias dificuldades fora de casa, onde muitos a desprezavam. “Eu achava que não podia chorar em público. Então só chorava escondida”, me disse por telefone, de Madri, um dia antes de exibir a faixa e a coroa na parada gay da capital. “Sempre me vi como uma figura pública, pois todo mundo se julgava no direito de falar de mim. Eu tentava não ligar. Se comentavam algo sobre minha tiara na escola, por exemplo, eu ia com uma maior no dia seguinte, cheia de lantejoulas.” Ela relembrou que, na adolescência, embora se sentisse diferente dos demais meninos, custou a entender o que realmente acontecia consigo, até porque não existia outra pessoa no lugarejo que pudesse lhe servir de espelho.
 
Na Plaza de Belén, no Centro de Pilas, me aproximei de quatro homens que conversavam animadamente. “Ainda hoje, não há ninguém como Ángela na cidade”, comentou um deles, que aparentava ter 70 e poucos anos. “O que há são muitos gays, mas vários não saíram do armário.” Perto da praça, me deparei com o Copacabana Bar, do brasileiro Marco Antônio Ferreira, que vive há duas décadas em Pilas. “Muita gente agora alardeia que é amiga de Ángela, que frequentava a mesma praia onde ela ia ou sei lá o quê. Você vai ouvir um monte de história inventada”, alertou. Ele frisou, ainda, que a miss nunca visitou o Copacabana Bar. “Mas o padeiro milionário, sim.”
 
A transição de Ángela Ponce aconteceu gradualmente. A partir dos 10 anos, ela começou a usar roupas unissex. Depois, deixou o cabelo crescer e adotou peças mais femininas. Aos 15, chamou a mãe para uma conversa, e a família achou que devia buscar ajuda médica. “Tínhamos que viajar a Málaga para as consultas. Chegamos a ir três vezes por mês”, recordou o pai da miss. “De fato, enfrentei muitos anos de tratamento”, reiterou a moça. “Precisei passar por diversas entrevistas com psicólogos e provar que não estava louca, que não via cachorros voando.” Rea-lizada em Málaga, a cirurgia para troca de sexo trouxe “mais liberdade”, mas não alterou o modo como a miss vê a si mesma. “Muito cedo descobri que há inúmeras maneiras de ser mulher.”
 
Foi em 2014 que a Comunidade da Andaluzia aboliu a necessidade de médicos atestarem algum distúrbio psíquico ou alguma patologia física para justificar a mudança de sexo dos pacientes. A transexualidade deixou de ser classificada como um transtorno de saúde, e todo andaluz passou a ter o direito de definir o próprio gênero.
 
Nas inúmeras entrevistas que concedeu após ser coroada, Ángela Ponce chamou a atenção dos jornalistas não apenas pela beleza, mas pelo calibre de suas respostas. “Não esperem de mim o típico discurso da miss que deseja a paz na Terra”, disparou numa delas.
 
Depois de concluir o ensino médio, a moça fez um curso de informática – que não chegou a completar – e se empregou como cabeleireira num salão de beleza, cujo dono lhe aconselhou: “Você não nasceu para pentear as pessoas. Nasceu para ser penteada.” Em 2015, se elegeu Miss Cádiz e disputou um outro concurso internacional, o Miss Mundo. Não chegou à final, mas foi descoberta pelos estilistas. Virou, assim, a primeira transexual a desfilar na semana madrilenha de moda e para a badalada grife Carolina Herrera. Hoje  ainda trabalha como modelo e planeja ampliar sua atuação na Fundación Daniela, ONG que se dedica a esclarecer pais, professores e crianças sobre a transexua-lidade. “Gostaria que o fato de uma mulher transexual ser miss ou prefeita não fosse algo raro. Mas as coisas não são desse jeito. Por isso, encaro a maratona de entrevistas como uma oportunidade de transmitir minha mensagem.”
 
Ainda não se sabe quando e onde será o Miss Universo 2018. A mudança nas regras que permitiu a participação de transexuais ocorreu seis anos atrás. À época, Jenna Talackova, Miss Vancouver, revelou ter mudado de sexo e foi excluída da etapa nacional do concurso no Canadá. A decisão gerou protestos ruidosos, e a organização do Miss Universo – cujos direitos pertenciam a Donald Trump – recuou. As regras foram alteradas, e a moça, aceita de volta. Desde então, qualquer pessoa que for “morfológica e legalmente” mulher pode concorrer. Talackova acabou não ganhando a coroa, mas abriu as portas para que, agora, Ángela Ponce possa sonhar com o título de a mais bela do planeta. Ou do universo, a se levar em conta a megalomania da competição.
 
 
Revista Piauí
 

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