Cultura e Entretenimento
04/10/2018 - 04h20

A história da família que inspirou o livro censurado no Santo Agostinho


Colégio suspendeu a leitura de 'Meninos sem pátria', após pedido de pais que o consideraram "comunista"; publicação narra vida de família no exílio, durante a ditadura
 
Lançado em 1981, o livro "Meninos sem pátria" (Ática), de Luiz Puntel, é baseado em uma história real. O romance se inspira na trajetória de uma família que viveu 15 anos no exílio durante a ditadura militar no Brasil. Nesta semana, a leitura da obra, comum no material paradidático das escolas, foi suspensa pelo Colégio Santo Agostinho Leblon, no Rio, que cedeu a um pedido de alguns pais de alunos, que argumentam que o livro “doutrina crianças com ideologia comunista” ao “criticar a ditadura”. 
 
A decisão da escola de suspender a leitura foi encarada como censura e um retrocesso pelos personagens reais do livro. O jornalista José Maria Râbelo, hoje aos 90 anos, e um de seus sete filhos, o fotógrafo e blogueiro Fernando Rabelo, se disseram perplexos com o episódio. Zé Maria considera grave especialmente a decisão do colégio de “se curvar” ao desejo dos pais.
 
— O colégio entrou na irracionalidade dos pais, que estão vivendo este momento de alucinação que o Brasil atravessa, de intolerância, agressividade. O colégio entrar nesse jogo? O resultado disso é nenhum. Essa gente não tem nenhuma perspectiva da História, só dos próprios interesses — diz o jornalista. — O livro traz uma história que poderia ser mais dramática até, e é também sobre milhares de brasileiros cujas famílias tiveram que deixar o país durante o regime militar. 
 
Ele e Fernando, inclusive, já palestraram no Colégio Santo Agostinho de Belo Horizonte sobre a ditadura, para um “auditório lotado” de jovens. Diante disso, a decisão da escola do Rio parece incompreensível, ressalta o fotógrafo. 
 
— Estou pasmo em saber que, em plena democracia, a gente sofre esse tipo de censura. Acho que há um avanço do fascismo, inclusive entre as elites, no país — afirma Fernando, que enfatiza: — Os jovens precisam saber o que houve durante a ditadura. Eles sabem muito pouco sobre isso.
 
"Meninos sem pátria" conta a história de um jornalista que sai forçado do país após o golpe militar e depois que a redação do jornal onde trabalhava ser depredada e ele sofrer ameaças de morte. Isso ocorreu com o mineiro José Maria Rabêlo, que dirigia o jornal "Binômio" em 1964. Naquele ano, Zé Maria deixou o Brasil e a família rumo ao exílio na Bolívia. Ele viveria mais tarde no Chile, um dos países que mais acolheu exilados políticos que fugiam da repressão no Brasil, e na França.  
 
'O exílio nunca vai deixar de estar presente na nossa vida'
 
Meses após chegar à Bolívia e começar a trabalhar em um jornal em La Paz, Zé Maria chamou a mulher, Thereza Rabêlo, para procurarem uma casa onde pudessem morar com os filhos. Quando faziam isso, um golpe militar atingiu o país. E o jornalista teve que buscar um novo local de exílio.
 
Em 1965, os sete filhos, mãe e pai se reencontraram no Chile, onde viveram até 1973, ano do golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, que derrubou o governo do socialista Salvador Allende. Partiram então para a França. Só seis anos depois, em novembro de 1979, voltariam para casa, no Brasil, depois da Anistia. O filho Fernando lembra:
 
— Foram momentos muito duros, de muito medo e tensão. E voltamos a viver isso anos depois, no golpe de 1973 no Chile, em que vimos coisas horríveis — afirma. — Tirar uma criança do seu convívio com a família é muito duro.
 
Hoje aos 90 anos, Zé Maria diz que 70 foram de luta, o que o orgulha.
 
— O exílio nunca vai deixar de estar presente na nossa vida. Nos marcou de uma maneira muito profunda — afirma o jornalista, ressaltando o motivo pelo qual deixou o país. — Saí para salvar a vida, não foi à toa ou a passeio. Saí porque estava ameaçado de morte.
 
 
Ana Paula Blower
 

Comentários (0)


Fala Santos
E-mail: contato@falasantos.com.br
© 2010 Fala Santos. Todos os direitos reservados. site criado por