Educação
16/10/2018 - 05h41

Mais de 700 estudantes são presos em congresso da UNE durante a ditadura militar, há 50 anos


 
A maior parte dos participantes do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) estava dormindo quando a polícia chegou ao sítio Muduru, na pequena cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo. Por volta das 7h30 daquele sábado, dia 12 de outubro de 1968, há 50 anos, agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) chegaram à propriedade acompanhados por homens da Força Pública, como eram denominadas as tropas estaduais na época. Após anunciar o cerco e fazer disparos de metralhadora para o alto, os policiais prenderam 739 estudantes que estavam hospedados no sítio.
 
A realização de um congresso estudantil não seria considerada ilegal numa democracia. Mas, em meio à ditadura militar imposta no Brasil pelo golpe de 31 de março de 1964, aquela reunião de estudantes era uma infração. A Lei Suplicy de Lacerda, decretada em novembro de 1964 pelo então presidente, marechal Humberto Castelo Branco, colocou a UNE na clandestinidade. Desde então, todos os eventos da entidade eram organizados e realizados às escondidas.

 
Os moradores da pacata Ibiúna, que tinha então cerca de 6 mil habitantes, vinham estranhando a movimentação de jovens desconhecidos desde a segunda-feira daquela semana. Eles chegavam em grupos para comprar mantimentos na cidade. Como o sítio ficava afastado do centro, os habitantes não sabiam muito bem de onde vinham os "forasteiros", mas os rumores alertaram a polícia local. Segundo a edição do GLOBO de 14 de outubro de 1968, a suspeita foi reforçada depois que um lavrador foi impedido de chegar ao sítio por seguranças dos estudantes.  
 
O delegado de Ibiúna contactou, então, a Secretaria de Segurança de São Paulo, que determinou a mobiização do 7º Batallhão de Polícia (Sorocaba). Ainda de acordo com o jornal da época, ao todo foram acionados 150 soldados e 80 investigadores do Dops, que se meteram na estrada de terra que levava até o sítio. No caminho, prenderam três estudantes que faziam a segurança do congresso. Um deles estava armado com uma pistola Lugger 7mm. Os três levaram coronhadas dos agentes, informou O GLOBO na reportagem sobre a operação.

 
Foram necessários cerca de 20 minutos até que todos os integrantes do congresso recebessem voz de prisão. Entre eles, estavam os conhecidos líderes estudantis Luis Travassos, Antônio Ribas, Vladimir Palmeira e José Dirceu. Por volta das 14h, os detidos foram levados para São Paulo num comboio formado por oito ônibus particulares, seis caminhões de transporte de tropa, três kombis, 12 viaturas pequenas e uma ambulância. Na capital paulista, Travassos, Ribas, Palmeira e Dirceu foram encaminhados ao Dops, enquanto os demais foram levados a um presídio que ficava na Avenida Tiradentes.
 
Dois dias depois, estudantes revoltados com a prisão dos colegas em Ibiúna realizaram manifestações em diferentes capitais do Brasil. No Rio, cerca de mil jovens ocuparam a antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo, onde, depois do banimento da entidade, funcionava o Conservatório Nacional de Teatro. Eles fizeram discursos de protesto na sacada do prédio e bloquearam o trânsito com móveis e outros objetos para dificultar a chegada dos policiais. Uma caminhonete do Ministério da Educação (MEC) foi incendiada. Quando os soldados chegaram, os estudantes já haviam deixado o local.

 
Aquele foi o ano de maior recrudescimento da repressão militar no Brasil. Após meses de prisões durante protestos e perseguição a pessoas que se opunham à ditadura, o então presidente, o marechal Artur da Costa e Silva, decretou o Ato Constitucional de número 5 (AI-5). Com isso, o governo federal passou a ter poderes para cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e estados e suspender garantias individuais constitucionais, o que, ao longo dos anos seguintes, resultou na prática de tortura pelos agentes da ditadura contra pessoas consideradas perigosas pelo regime militar.



 
 
Acervo O Globo
 

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