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26/10/2018 - 02h15

Imobiliária põe "à venda" a ilha das Couves, em Ubatuba, por R$ 30,9 milhões. Negócio é ilegal


Venda está sendo anunciada em sites especializados de classificados


 
Uma imobiliária de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, colocou "à venda" a ilha das Couves, em Ubatuba, um dos destinos turísticos mais procurados do litoral norte durante todo o ano, por R$ 30,9 milhões.
 
A venda está sendo anunciada em sites especializados de classificados, como OLX e Mercado Livre. A venda é ilegal, segundo o Serviço de Patrimônio da União (SPU), pois a ilha pertence à União. Por meio dos anúncios, a imobiliária diz que o local "é excelente para a construção de um resort, hotéis cinco estrelas e píer" e que o local possui "escritura definitiva".
 
A ilha tem 68,7 hectares e está inserida nos limites da Área de Proteção Ambiental (APA) Marinha Litoral Norte.  
 
A imobiliária publicou informações curiosas no anúncio. Entre elas, a existência de uma caixa d´água subterrânea com capacidade para 60 mil litros e que a ilha pertenceria a um holandês. Ainda de acordo com o anúncio, na ilha existem seis fontes de água doce, um pequeno lago no topo da ilha, uma estrada que a circunda, com 3,5 quilômetros de extensão, e muros de contenção de pedras nas duas únicas praias existentes na ilha. 
 
Os atrativos para chamar a atenção de possíveis compradores não param por aí. Segundo a imobiliária publicou no anúncio, existe no local uma base já aterrada para a construção de um píer e “milhares de plantas exóticas, como palmitos-juçara e vários animais silvestres bem protegidos”.
 
No site Mercado Livre, o anúncio informa que “toda documentação está em ordem com escritura”.  A imobiliária diz no anúncio que estuda a possibilidade de aceitar até 20% do valor, o que equivaleria a cerca de R$ 6 milhões, em imóveis localizados no estado de São Paulo.
 
Ao saber da “venda” da ilha das Couves pelo Costa Norte, a SPU informou, por meio de nota, que o local é um imóvel de propriedade da União e ninguém está autorizado a colocá-lo à venda. “Diante disso, a Superintendência do Patrimônio da União em São Paulo (SPU-SP) encaminhará o caso à Advocacia-Geral da União (AGU) para as devidas medidas legais”.
 
Ilha é um paraíso ameaçado pelo turismo depredatório
 
Nos últimos três anos, a ilha das Couves foi descoberta pelo turismo. Águas límpidas e cristalinas, areia fofa, vegetação exuberante, tranquilidade e contato direto com a natureza. O que era para ser um lugar bucólico para visitação turística no litoral norte,  transformou-se em um pesadelo para os turistas que a frequentam. E agora, é alvo da especulação imobiliária.
 
Com apenas duas pequenas faixas de areia, a praia da Terra e a praia de Fora (conhecida também por Japonês), que têm, respectivamente, 100m e 250m de extensão, a ilha recebe até cinco mil pessoas por fim de semana durante a temporada de verão e duas mil pessoas em feriados prolongados. Sem banheiros ou qualquer tipo de infraestrutura (exceto por um quiosque na praia da Terra), os milhares de turistas fazem suas necessidades no mar ou nas trilhas, afirmam os guias de turismo que operam no local.
 
Apesar da quantidade de banhistas, não há salva-vidas. Atualmente, caixas acústicas e térmicas, toalhas, esteiras, fraldas descartáveis usadas e muito lixo fazem parte do cenário, antes praticamente deserto. O som dos pássaros deu lugar às vozes de uma multidão que disputa cada centímetro de areia.
 
A ilha fica a 10 minutos de barco a partir da praia de Picinguaba, uma vila de pescadores artesanais distante 43,5km do centro de Ubatuba e a 10km da divisa de Paraty (RJ). Os passeios são realizados por pescadores da Associação dos Barqueiros e Pescadores da Comunidade Tradicional de Picinguaba e por diversas agências de turismo.  
 
Ao final do dia, os barqueiros, que veem no negócio uma oportunidade de obter renda extra, retiram por conta própria o lixo deixado pelos turistas, já que não há recipientes para deixar os dejetos.
 
A guia Moara Sanchez, 21 anos, da Associação Coaquira de Guia de Turismo, Monitor e Condutor de Ubatuba, lamenta: “Até dois anos atrás, a ilha era tranquila. Mas a partir do ano passado, após vários vídeos viralizarem na internet, o lugar foi descoberto e, hoje, o que vemos é isso, um turismo totalmente descontrolado e predatório”.
 
Segundo ela, antes da invasão dos turistas, era comum ver espécies marinhas como raia-pintada, cavalo-marinho, estrelas-do-mar, corais, garoupas e moreias. “Com a multidão no mar, agora sumiu tudo”.
 
A auxiliar de administração Ana Paula Miguel Moreno, 28, saiu com sua filha de nove anos de Taboão da Serra (SP), de van, para visitar a ilha. “Acho que deveria haver mais controle”, disse ela, que decidiu viajar após ver fotos da ilha vazia na internet. “Me assustei quando cheguei aqui. Não imaginava que havia tanta gente. Parece Mongaguá ou Praia Grande lotadas”.
 
Controle
 
O turismo fora de controle motivou o Ministério Público Federal (MPF) a liderar um conjunto de ações para tentar regularizar e organizar a exploração turística da então desconhecida ilha. A ideia é preservar o ecossistema local. O órgão sugeriu aos pescadores, para a última temporada de verão, o transporte de até 600 visitantes por dia.
 
O limite, porém, não nunca foi respeitado, já que somente as escunas levam para o lugar cerca de mil pessoas diariamente.  Em reuniões seguintes, este número caiu para menos de 300 pessoas por dia.
 
Uma força-tarefa entre o MPF, prefeitura de Ubatuba, Ibama, Parque Estadual da Serra do Mar e APA Marinha realiza estudos técnicos de capacidade e suporte de visitação diária. Não há prazo para conclusão.
 
 
Costa Norte 
 

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