Mundo
05/11/2018 - 04h15

As teorias sobre o misterioso desaparecimento que assombra o Vaticano há 35 anos




Já faz 35 anos, mas, na memória da Itália, Emanuela Orlandi ainda é uma menina de 15 anos.
 
Esta era a idade que ela tinha no dia em que desapareceu.
 
Naquela tarde de 22 de junho de 1983, a adolescente, filha de uma professora do Vaticano, deixou uma aula de música em Roma e nunca mais foi vista.
 
 
E até hoje continuam as teorias e as conjecturas sobre o que aconteceu, mostrando que o caso ainda é uma ferida aberta na memória coletiva italiana.
 
Há mais de um quarto de século, o caso de Orlandi tem sido associado a conspirações entre bispos, padres e membros seniores da Cúria Romana, a agentes búlgaros, à máfia siciliana, à KGB (polícia secreta soviética) e até à CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos).
 
Falou-se até mesmo de um grupo associado a Ali Agca, o homem que disparou tiros contra o papa João Paulo 2º em 1981 - em um suposto telefonema, alguém teria pedido a liberdade do turco em troca da menina.
 
Mas, até agora, ninguém tem certeza do que ocorreu.
 
Desde esta terça-feira, no entanto, uma nova história surgiu. A polícia do Vaticano anunciou que restos humanos foram encontrados durante trabalhos de restauração na Nunciatura Apostólica, o escritório diplomático da Igreja Católica, em Roma.

 
O Vaticano confirmou a descoberta e informou que as autoridades italianas investigariam a ossada.
 
Os restos mortais ainda não foram analisados ​​para determinar idade, sexo ou data de morte da pessoa a quem pertencem.
 
Alguns até apontam que também poderia ser Mirella Gregori, outra adolescente de 15 anos que misteriosamente desapareceu em Roma 40 dias antes de Orlandi.
 
Mas o frenesi causado pela descoberta levou a mídia local a especular que a ossada era a peça que faltava do mistério, a resposta final a todas as dúvidas e o fim da esperança de encontrar Emanuela Orlandi viva.
 
Sombra do Vaticano
 
Na quarta-feira, dezenas de jornalistas lotaram a entrada da Nunciatura em Roma para tentar descobrir informações sobre a investigação dos restos mortais encontrados e saber a conexão que podem ter com o desaparecimento.
 
Segundo os relatos, os advogados da família Orlandi ficaram surpresos com o fato de que a mera descoberta dos restos mortais de uma pessoa desconhecida tenha provocado uma associação direta com a jovem.
 
Mas já era tarde: novos rumores e teorias envolviam o antigo prédio diplomático do Vaticano em Roma.

 
Segundo a imprensa local, faz sentido acreditar que os restos mortais podem ser de Orlandi, já que há suspeitas de que o único sacerdote investigado pelo desaparecimento da adolescente, Piero Vergari, trabalhasse no escritório diplomático.
 
O Vaticano já negou que Vergari tenha trabalhado na Nunciatura.
 
Mesmo assim, a nova descoberta deu lugar à teoria que liga o desaparecimento da menina com a máfia, um escândalo de corrupção e à Cúria Romana.
 
O enredo por trás dessa hipótese é complexo.
 
Há 13 anos, Sabrina Minardi, uma amante de Enrico De Pedis, o chefe da máfia siciliana morto em 1990, disse que ela mesma, seguindo ordens de De Pedis, havia levado a adolescente até o carro usado para sequestrá-la.
 
Minardi disse que as chaves do carro estavam no túmulo de De Pedis, na basílica de Sant'Apollinare, em Roma, perto de onde Orlandi foi vista pela última vez.
 
O chefe da máfia foi enterrado lá com a permissão de Vergari. Eles se conheceram quando o padre era um capelão da prisão onde De Pedis estava cumprindo sua sentença. A relação entre os dois deu motivos para uma investigação judicial, que terminou sem resultados relevantes.
 
Em 2012, as autoridades italianas finalmente abriram o túmulo de De Pedis, mas não encontraram vestígios de Orlandi.

 
Vergari não foi o único ligado à hierarquia do Vaticano a aparecer nessa história.
 
Minardi também disse que o sequestro teria sido realizado sob as ordens de um arcebispo americano, Paul C. Marcinkus, ex-presidente do Banco do Vaticano, ligado a um escândalo de corrupção nos anos 80.
 
Outras hipóteses também apontam para um lado mais sórdido e sombrio dentro das paredes do Vaticano.
 
O último exorcista
 
Em 2012, Gabriele Amorth, conhecido exorcista do Vaticano e membro influente da Cúria Romana, publicou um livro sobre sua experiência de expulsão de demônios, no qual ele também contou sua história sobre o mistério do desaparecimento de Orlandi.
 
Amorth considerou que havia sido "um caso de exploração sexual", ligado a orgias que incluíam a polícia do Vaticano e diplomatas estrangeiros.
 
"(...) Foram organizadas festas nas quais eu estava envolvido como 'recrutador de meninas' e também envolviam policiais da Santa Sé. Acho que Emanuela foi uma vítima disso", diz o texto.
 
"Eu nunca acreditei na pista internacional, tenho motivos para acreditar que foi um caso de exploração sexual com o homicídio subsequente logo após o desaparecimento e encobrimento do corpo (...) Nestes eventos também se envolveu uma equipe diplomática de uma embaixada estrangeira diante da Santa Sé", acrescenta em seu livro.
 
No ano passado, a imprensa italiana publicou um documento supostamente roubado de um gabinete blindado dentro do Vaticano, no qual se sugere que os funcionários da Santa Sé estivessem diretamente envolvidos no desaparecimento de Orlandi.
 
O documento até sugeriu que ela poderia estar viva.
 
O Vaticano considerou a acusação "falsa e ridícula".
 
 
BBC News
 

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