Turismo
07/11/2018 - 03h52

Chiloé: o maior arquipélago do Chile é paraíso remoto no Pacífico


A atmosfera bucólica do arquipélago de Chiloé, no Chile, convida a desacelerar, ouvir os sons da natureza e descobrir as particularidades de uma cultura que se manteve autêntica ao longo dos anos
 
Há milhares de anos, duas serpentes travaram um duro confronto no Pacífico Sul, na costa de um território que viria a ser o Chile. Caicavilú, serpente da água, desejosa por incorporar a seus domínios marinhos aquele trecho de terra, o inundou. Por sua vez, Tentenvilú, serpente da terra e da fecundidade, tentou proteger o território, ajudando seus habitantes a escalar montanhas para escapar das inundações ou atribuindo-lhes dotes de aves e peixes para que não se afogassem. Enquanto Caicavilú subia o nível do mar, Tentenvilú fazia crescer as montanhas. Enfim, a serpente terrestre triunfou, dando origem a um arquipélago de cerca de 40 ilhas: Chiloé. 
 
“Lugar de pássaros” na língua mapuche, Chiloé não é um destino tão conhecido dos brasileiros, apesar de estar a apenas 1h30 de voo da capital Santiago. É, no entanto, o maior arquipélago chileno, onde está a quinta maior ilha da América do Sul: a Ilha Grande de Chiloé. Sua riqueza, porém, não está em seu tamanho, mas em sua autenticidade. Os anos se passaram ali sem que a essência do povo chilote, entre o passado indígena e a presença dos espanhóis, se perdesse completamente: seus campos que sobem montanhas e suas as águas gélidas continuam sendo a base do sustento e da beleza natural; e suas narrativas mitológicas ainda fazem parte do cotidiano e de suas visões de mundo.
 
Cores. Os ares bucólicos estão na arquitetura e nos vastos campos cobertos de uma planta amarelo-gema que está por toda parte. “É o espinillo. É bonita, mas nós, chilotes, não gostamos muito dela”, me diz rindo Javier Mozó, guia turístico do hotel Tierra Chiloé, onde me hospedei. “Ela cresce que nem praga e é difícil de arrancar depois, dificulta o plantio.” 
 
Entendo Javier. Mas, seguindo critérios estéticos, ela fica linda diante do colorido das casas de madeira, erguidas sobre blocos de concreto ou palafitas. As construções mais antigas, de madeira tejuela, mostram as marcas do tempo no marrom escuro uniforme; as mais novas, de madeira vertical lisa, costumam ser pintadas e mais descoladas. Às vezes estão isoladas; noutras, compõem uma avenida mais agitada onde também há comércio. Pergunto a Javier se não há nada de tijolo e concreto. “Há algumas construções em Castro”, diz ele, se referindo à capital do arquipélago, onde vive a maior parte de seus 140 mil habitantes e onde está o aeroporto com voos de e para Santiago. 
 
A madeira é também o material de suas famosas igrejas, construídas a partir do século 17 com a chegada das missões jesuíticas. São dezenas, das quais 16 se tornaram Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Ali, a evangelização ocorreu sem a presença constante de figuras do clero: os franciscanos chegavam, ensinavam preceitos e partiam, deixando a cargo de um leigo a tarefa de pregar a palavra católica na comunidade. Esse leigo, chamado fiscal, existe até hoje e é ele o responsável pelos ritos religiosos. 
 
E se não há padre, também não há padrão europeu nas igrejas: para erguê-las, os chilotes se inspiraram nas construções de seus barcos, com algumas referências espanholas. Assim, as igrejas têm apenas uma torre central, por exemplo.
 
Cheguei a Chiloé numa terça chuvosa e logo aprendi que, por lá, as chuvas fazem parte da rotina. “Aqui, quando não está chovendo é porque vai começar a chover”, me disse uma funcionária do hotel. Mas não se preocupe: se a chuva vem em questão de minutos, ela também desaparece rapidamente. De outubro a março é alta temporada: as máximas podem chegar a 20 graus e o frio diminui – eu peguei 8 graus, mas as mínimas chegam a 2 graus negativos ao longo do ano. É nesse período que chegam aos pantanais da região as aves migratórias, entre elas o zarapito de bico reto, vindo do Alasca, e os pinguins de Magalhães e Humboldt – para vê-los, programe sua viagem a partir de novembro.
 
Todo esse ar bucólico é perfeito para o combo conexão com a natureza (e desconexão com a internet), vinhos e mariscos frescos à mesa e roupas de lã quentinhas, algo que faz parte da confecção e do artesanato local. Ideal para sossegar, tanto para mochileiros (há hospedagens simples nas aldeias maiores), quanto para adeptos do luxo rústico. Irresistível para quem quer descobrir a beleza que o duelo das serpentes acabou por conferir a esse pedaço do Pacífico. 
 
Sono tranquilo e mesa farta
 
Foram 20 horas de viagem até que eu, enfim, me jogasse na cama do charmoso quarto que me abrigaria pelas próximas três noites. Sobre ela encontrei um delicado par de sapatinhos de lã verde-musgo e bege, confeccionado por artesãs da região. Um presente de boas-vindas do hotel Tierra Chiloé, localizado na Península de Rílan, a 30 minutos do aeroporto de Castro.
 
Terceira unidade da rede Tierra Hotels – o grupo está também no Atacama e na Patagônia –, o Tierra Chiloé ocupa o espaço do antigo hotel Refugia desde 2017. O restaurante e a recepção foram remodelados, um novo prédio anexo foi construído, mas a ideia de refúgio permaneceu. Refúgio com luxo: à disposição, piscinas quentes, quarto aconchegante, bons vinhos à mesa e assistência para todos as excursões. O preço pago por isso, claro, não é baixo – o pacote para duas noites vai de US$ 1.500 a US$ 2.750 por dia e por pessoa, com tudo incluído, até mesmo passeios, refeições e bebidas.
 
Como não há comércio nas proximidades, para uma boquinha fora de hora dá para consumir os produtos naturais do mercadinho na área do bar do hotel. Todos os seus 24 quartos têm uma bela vista para o oceano ou para o lago, com janelas que ocupam quase toda a parede frontal. A arquitetura e a decoração seguem a linha amadeirada, no padrão das casas chilotas, com iluminação e ventilação naturais durante o dia. Nada de televisão nem frigobar, e, apesar de o Wi-Fi funcionar bem, você poderá terminar a noite melhor acompanhado pelos contos míticos locais, deixados sobre sua cama todas as noites, ao lado de um chocolate. 
 
O ponto alto é a cozinha, comandada pela chef Natalia Canario. Surpreenderam os sabores e a apresentação do almoço e do jantar: são sempre três opções de entrada e de prato principal (uma delas vegetariana) e quatro ou cinco de sobremesa. Frutos do mar ou peixe estão sempre entre as possibilidades. Destaque para o curanto, tipo de ensopado típico da região. Os pães servidos são artesanais, produzidos lá mesmo, e, para acompanhar tudo isso, open bar de vinho durante as refeições.
 
Depois de chegar, me acomodar e matar a fome, fui decidir com Franco, responsável pela organização das excursões, qual seria minha programação nos dias seguintes. Diante de uma mesa transparente que exibe um mapa-maquete de madeira do arquipélago, ele dá suas sugestões, mostrando o perfil de cada roteiro. São ao menos 18 opções, entre passeios a cavalo, de bicicleta, de barco e caminhadas, separados por região e níveis de dificuldade.
 
Dia a dia
 
Franco recomendou que eu terminasse aquele dia no spa ou curtisse a sala comunal com lareira. Inquieta que sou, decidi fazer a trilha de 20 minutos pelo Pantanal de Pullao, que pertence à Rede Hemisférica de Reserva para Aves Costeiras e contorna o hotel. Era um dia nublado, saí debaixo da garoa fina. O cenário, no entanto, valia a pena. Conheci a horta, o barco que me levaria para outros passeios, as plantas nativas e sentei para observar as aves locais e migratórias. O cantar delas era o único barulho a me acompanhar. Delas e do cão Macho, que acabou sendo meu guia até o fim da trilha, quando a chuva, enfim, havia cessado.
 
Aí sim segui para o spa do hotel, com massagens e banhos especiais a partir de 35 mil pesos chilenos (R$ 189); duas saunas; e duas piscinas, uma interna e outra externa, ambas com água quente. No frio de 6 graus que fazia lá fora, ficar na piscina interna era mais seguro. Arrisquei ir na de fora também. Aguentei por uns minutos e, de presente, pude ver dali o pôr do sol sobre o lago. Eram 8h30 da noite.
 
Uma típica casa chilote
 
“E então, como foi?”, perguntou Franco, da equipe de guias, a um casal que retornava ao hotel depois de um dia de passeio. “Foi ótimo, Sandra é incrível”, responderam. Minutos depois, Franco me explicava que, no roteiro por Quinchao, eu também conheceria Sandra, sua respeitada produção agrícola e também sua casa, uma típica residência chilota.
 
Entre tantas definições, Sandra Naiman é agricultora. Nascida na casa ao lado da que mora, cresceu no campo e aprendeu o que, anos depois, viria aperfeiçoar. Mora sozinha e cuida dos 5 hectares de terras cultiváveis também sozinha, algo que admira a todos que a visitam, sobretudo porque ela dispensa maquinário e agrotóxicos em suas plantações, mantendo as técnicas tradicionais de cultivo – o que lhe rendeu o selo de Patrimônio Agrícola Mundial da ONU, o Sipam. E como se não bastasse todo esse trabalho, ela ainda dá cursos de capacitação para mulheres de Quinchao, ensinando de cuidados pessoais a trabalhos que possam garantir a elas independência financeira.
 
Sandra nos recebe na porta de sua casa (de madeira, por supuesto) e vamos direto para a cozinha, principal cômodo da casa chilota: é ali onde todos se reúnem para jogar conversa fora. Além da alimentação ser algo muito valorizado, há um motivo prático: a cozinha é também o cômodo mais quente.
 
“Olha aqui o que aquece as casas chilotas”, diz o guia Javier, respondendo a uma pergunta que eu havia feito horas antes. Nada de aquecimento no chão – algo que existe apenas nos hotéis. O que os aquece é o calor produzido pelos fogões à lenha, onde há canos que esquentam também a água que é usada no cotidiano. Em tempos de muito frio, lareiras e/ou aquecedores elétricos auxiliam na tarefa de aquecê-los.
 
Saímos para conhecer a área externa do terreno, começando pelo pequeno jardim com tulipas e seguindo para a extensa plantação de quatro tipos de batatas – naquele dia, Sandra havia vendido 50 sacos, de 50 quilos cada. Há ovelhas, porcos imensos (que ela vende ou abate para a festa de fim de ano), horta, estufa e árvores frutíferas – Javier vai puxando frutos e me oferecendo. Por fim, paramos no alto de um morro para contemplar a vista deslumbrante que Sandra tem de Quinchao.
 
Meia hora depois, estávamos de volta e, que surpresa agradável, a mesa estava posta para almoçarmos juntos. O motorista Andrés se encarregou de ajeitar tudo durante nosso passeio. As comidas e bebidas (mais vinho!) são trazidas do hotel, que desde 2012 tem a parceria com Sandra. Bom para os dois lados: ela mostra seu trabalho e o hotel garante ao turista uma grata experiência.
 
Bruxarias
 
As horas na casa de Sandra, ao lado de Javier e Andrés, foram o ponto alto da viagem. Batemos longos papos sobre costumes e histórias chilotas e brasileiras. Eles me contaram sobre os bruxos e bruxarias que ainda existem na região; sobre costumes e tradições, como os dias de festa depois da morte de alguém; e sobre lendas como a do trauco, espécie de duende que vive nas florestas e que encanta mulheres para terem relações sexuais com ele.
 
“Principalmente as jovens solteiras diziam que haviam sido enfeitiçadas pelo trauco para justificar para a família uma gravidez inesperada”, explica Javier, sem conter o riso. E claro, há a versão feminina do trauco: la viuda. Rimos tanto que, mesmo depois de nos despedirmos de Sandra, continuamos falando dos seres fantasiosos até a chegada ao hotel. 
 
Nos povoados de Quinchao
 
Três dias inteiros em Chiloé é o tempo mínimo para conseguir ter uma ideia do que oferece sua natureza, cultura e história. Para ter uma pitada de cada um desses pontos de interesse, Franco me recomendou três passeios: um de meio dia por Castro, a capital do arquipélago, e outros dois de dia inteiro, um de barco e outro pela estrada, passando pelas comunas de Dalcahue, ainda na Ilha Grande, de Achao e de Curaco de Vélez, na Ilha de Quinchao.
 
Pois às 9h30 da quinta-feira, lá estava eu dentro da van, pronta para seguir viagem ao lado de Javier e do motorista Andrés. 
 
Decalhue
 
A comuna de Decalhue – cujo significado é “lugar de canoa”, segundo Javier – festá às margens de um braço de mar e é muito procurada por seu Mercado de Artesanías (artesanatos). Aberto todos diariamente, o espaço reúne peças de madeira, souvenirs e trajes de lã de ovelha tingidos nas mais diversas cores, como belas blusas e o típico sapatinho que também é uma meia (alguns tem até couro na sola). Os valores começam em torno de 3 mil pesos chilenos (R$ 16). 
 
Bem ao lado do mercado fica a Cocineria Decalhue, um galpão de madeira onde há diversos “postos”, como eles dizem, de comida típica chilota. Tratam-se de pequenos espaços com cozinha simples um balcão para sentar e comer, um ao lado do outro. Javier me levou ao Puesto 8, Doña Lula, e pediu seis empanadas de carne, queijo e mariscos – duas de cada, para não ter briga (15 mil pesos chilenos; R$ 80).
 
Enquanto elas eram montadas e fritas, aproveitei para andar pelo local (aberto das 9h às 18h), observando mulheres e homens lavando mariscos, preparando massa, cozinhando batatas. Javier acertou em cheio e eu adorei a empanada de marisco, mas fiquei com vontade de voltar para experimentar as caçarolas, os assados, os pescados....
 
Decalhue também tem suas casas de madeira – que, na região portuária, estão sobre palafitas – e sua igreja de torre única, a Nossa Senhora das Dores, também Patrimônio da Unesco. O conjunto da fachada e da torre, branco, com delicados traços em cinza, está bem preservado e abusa de contornos geométricos retos e curvilíneos.
 
Achao
 
Para ir da Ilha Grande de Chiloé até Achao é preciso pegar uma balsa até Quinchao, outra grande ilha do arquipélago ( 5 mil pesos chilenos ida e volta; R$ 27). Não é preciso estar acompanhado de guias para fazer o trajeto, mas confirme antes se há viagens de ida e volta no mesmo dia caso queira ir por conta própria.
 
No caminho até o centrinho de Achao, capital de Quinchao, paramos num mirante que dá a dimensão do tamanho da ilha. Encontramos ali uma senhora vendendo frutas, que desandou a nos contar sobre o conflito que ela travara com a municipalidade. Segundo ela, aquele lugar onde estávamos, com vista privilegiada, pertencia à sua família, mas o governo teria desapropriado a área para fazer a estrada de asfalto e um ponto turístico, propondo um acordo que, segundo ela, nunca foi assinado.
 
Nos despedimos com dúvidas – a história seria verdadeira? – e seguimos rumo ao centro para conhecer a mais antiga das 16 igrejas chilotas que são Patrimônio da Humanidade: a Santa Maria de Achao, de 1740. Seu estilo pode ser definido como um tipo de barroco, mas sem qualquer ostentação em ouro.
 
Diferente das outras que havia visto até então, ela não é pintada – todos os lados e a torre têm um mesmo tom uniforme, o escurecido da madeira tejuelas de alerce, espécie encontrada na Cordilheira dos Andes. Por dentro, há mais cores: o teto é azul anil, os dois púlpitos são discretos, mas pintados, e o altar também é repleto de detalhes geométricos. Ao lado, há um pequeno museu com textos explicativos em espanhol e objetos que contam um pouco sobre a história das missões jesuíticas em Chiloé; sobre sua arquitetura particular; e sobre seus costumes nas artes, na religião e no ambiente doméstico. 
 
Antes de ir embora, passamos ainda por um mercado-feira, onde, entre mais mariscos e verduras, descobri o alho elefante: um dente tem o tamanho de um alho inteiro comum. Pena que não dava para trazer na mochila.
 
Curaco de Vélez
 
Apesar de haver igrejas em Curaco de Vélez – Curaco significa, na língua mapuche, algo como retirar “água das pedras” e Vélez é o acréscimo espanhol –, nosso roteiro dedicou-se a observar pássaros e experimentar ostras. 
 
Seu terreno pantanoso, assim como o da área do hotel, atrai centenas de aves locais e migratórias (procure pelo zarapito de bico reto) todos os anos. Ali, elas param para descansar e se alimentar, cantarolando alto e fino horas e horas. Uma passarela, obra recente, permite atravessar a área para observá-las – leve um binóculo na viagem, aliás. 
 
Paramos para comer no Ostras Los Troncos, na orla braço de mar. O espaço é bem simpático, repleto de plantas e mesas coletivas, e onde seus moradores vendem ostras do tipo japonesa e, no verão, ceviche. Há sempre alguém por lá no horário comercial, basta chamar – uma ostra sai 500 pesos chilenos (R$ 2,70). 
 
Williche é o que se lê na embarcação de madeira que nos levou para um dia de passeio pelas águas gélidas do Golfo de Ancud. O guia Javier me explica que é uma referência a um dos dois grupos indígenas da região, os chonos e os huilliches (de onde vem o batismo do barco). Faz todo sentido: toda história mais recente do arquipélago foi tecida por esses dois povos, afinal.
 
E isso fica evidente em antigos costumes e nos nomes dos lugares: quase todos preservam suas raízes pré-hispânicas. Javier também faz questão de ir me explicando, ao longo de 40 minutos de travessia até a primeira parada, sobre seus antepassados indígenas e sobre o encontro deles com os espanhóis, seus outros antepassados, a partir do século 16.
 
Chelín
 
O céu nublado e o silêncio humano na praça que recebe quem chega do mar me deixaram com a sensação de que, ali, o tempo passou apenas em termos que não são o do relógio. Não há delegacia, nada de hospital. Não fosse uma curiosa placa presa a um casebre com o nome de uma gigante cervejeira do Brasil, acharia mesmo que havia escapado aos dias atuais.
 
Paramos diante da mais importante construção da aldeia: a Igreja Nossa Senhora do Rosário. Também de madeira, traz apenas a fachada pintada em creme e azul, contrastando com a bandeira chilena fincada em uma das colunas dóricas da entrada. Suas laterais e a torre permanecem rústicas, com a cor da madeira escurecida pelos anos. Reparando dali da praça, ficava claro o que o animado guia Ariel explicava ao grupo: seu desenho frontal é como se fosse o de um barco, só que invertido. 
 
A primeira construção da igreja data do século 18, mas a que resistiu até os dias atuais, de estilo neoclássico, estima-se ser de 1888. Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2001, pode ser visitada a qualquer momento – caso você encontre alguma igreja fechada, pergunte nas casas vizinhas quem pode abri-la, pois a chave costuma ficar com moradores. 
 
Por dentro, a luz irradia o interior, com alguns poucos bancos de madeira e altar simples, onde estão Jesus crucificado, Nossa Senhora do Rosário e o Nazareno – a imagem é presença garantida nos templos chilotas e faz parte de uma festa anual que ocorre em várias ilhas, como a de Caguach. 
 
Preste atenção às colunas cuja textura imita o mármore e vá até a sala ao lado do altar, onde dá para entender melhor o sistema de encaixe da madeira em forma de raio que dispensa pregos e que é a base da construção das igrejas. “Se uma peça for retirada, toda a igreja terá de ser desmontada”, diz Javier. 
 
Logo atrás da igreja estão mais construções de madeira. Essas, porém, são casas coloridas em miniatura, meio amontoadas ao pé do morro. Trata-se de um típico cemitério chilota. Por que casas? Ariel explica que é para proteger da chuva quem leva comida e vai conversar com os falecidos.
 
A subida do cemitério até o alto do morro é curtinha e vale a bela vista da região, mesmo se o tempo estiver nublado. Com um binóculo, eu e meu grupo nos divertimos tentando apontar para a direção em que estavam nossos países – Brasil, Argentina, Austrália e Rússia. 
 
Quehui
 
A passagem pela pequena Ilha de Quehui, de apenas 1.200 habitantes, foi curta e valeu mais pela chegada: de caiaque. No barco, o grupo se dividiu entre quem gostaria de ficar na embarcação e quem queria remar até a ilha. Eu e os russos optamos por remar. Eles, mais acostumados e em dupla, dispararam na frente. Eu, sozinha, fiquei para trás com Javier. Aprender o básico nem foi tão difícil. Duro mesmo foi confiar na minha capacidade física para chegar até onde devia.
 
Minhas mãos congelaram já nas primeiras remadas, a chuva voltou a cair e eu quase desisti. Mas, quando os braços aqueceram pela força produzida e eu enfim peguei o jeito, tudo foi ficando agradavelmente mais fácil. Os 40 minutos remando passaram rápido, e pude até curtir momentos de pausa para ouvir o som dos pássaros. Se você não for de remar, não se preocupe: os australianos que seguiram de barco tiveram a chance de ver golfinhos, nós não. O único mamífero que deu as caras para todos foi um leão-marinho – a chance de vê-los aumenta a partir de novembro. 
 
O retorno ao hotel foi em meio à comilança. A bordo do Williche, nos rendemos às delícias preparadas pelo chef Sebastián Bvron. Para acompanhar o almoço, vinho branco ou tinto e, claro, pisco, bebida tradicional no Chile. Quando a chuva voltou a cair de forma torrencial, não tive dúvidas do que fazer: nada como tirar um cochilo depois de um dia de passeio e fartura. 
 
Escapadas
 
Castro
 
A capital do arquipélago é a cidade mais próxima ao aeroporto e onde há mais hotéis. É também a dona do cartão-postal de Chiloé: as charmosas palafitas coloridas à beira do Pacífico. Ali está o Museu de Arte Moderna, projeto do premiado arquiteto Edward Rojas; a Igreja São Francisco de Castro (na foto; ela tem duas torres, uma raridade); e o mercado de artesanatos Los Palofitos.
 
Bosquepiedra
 
Ao sul da Ilha Grande está o lago Huillinco e o Bosquepiedra, de mata secundária, que pode ser percorrido com ou sem guia, mediante reserva antecipada (caso seu hotel não ofereça o passeio). Prepare-se para encontrar espécies endêmicas da flora, como canelos, coigües e podocarpus. Estique até a Ilha de Cucao, onde há dois museus sobre tradições locais.
 
Parque Ahuenco
 
Mais ao norte do arquipélago, na altura do povoado Chepu, fica o Parque Ahuenco, reserva natural de 800 hectares onde estão preservados bosques submersos, praias e mirantes. Entre novembro e março, é possível encontrar por ali os tão buscados pinguins de Magalhães e Humboldt. Mais ao norte está Ancud, movimentada como Castro, com igrejas, mercado de artesanato e hotéis. 
 
Como ir
 
SP–Chiloé–SP: desde R$ 3.326 na Latam, com conexão em Santiago – preços para janeiro de 2019. Os hotéis maiores costumam oferecer transfer do aeroporto. Também dá para alugar carro na Europcar e na West Rent a Car – a partir de R$ 145 por dia.
 
Fuso: entre outubro e março, Chile e Brasil têm horário de verão; a diferença de horário nessa época, em comparação ao horário de Brasília, é de 1 hora a menos por lá.
 
Literatura: Chiloé é o cenário do livro Cadernos de Maya, da escritora Isabel Allende. Na trama, Maya é uma jovem que muda para a ilha à procura de paz.
 
 
 
O Estado de S. Paulo
 

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Fala Santos
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