Geral
12/11/2018 - 05h37

Maconha na conversa familiar


A experiência demonstra: acolher é melhor do que expulsar de casa um usuário


 
Ao longo de quase dez anos de jornalismo canábico do Hempadão recebemos muitos relatos de leitores e as tentativas (quase sempre) trágicas de se apresentar para a família como usuário de maconha. As reações intolerantes e preconceituosas, quando explodem dentro do lar, deixam feridas profundas.
 
Desde a década de 30 do século passado o Brasil tem educado seguidas gerações com a cartilha que apresenta a maconha como “erva do diabo”, que destrói neurônios e ainda é porta de entrada para outras drogas.
 
 Tudo mentira, conforme abordamos em texto anterior desta coluna. Por isso, a família brasileira costuma ser tão intolerante com os maconheiros, ao mesmo tempo em que estimula a iniciação precoce de bebidas alcoólicas. Molhar a chupeta da criança na cerveja é um exemplo.
 
O maconheiro pode até duvidar, mas o clássico aroma da erva fica impregnado na roupa, no cabelo e na mochila. Por omissão ou medo de encarar os fatos, usuários e famílias fingem que nada acontece por certo tempo, até a bomba estourar de maneira trágica. Este é o perfil clássico das histórias enviadas pelos leitores do blog.
 
Recebemos muitos relatos de gente expulsa de casa após o pai ou a mãe encontrar um baseado perdido no bolso ou na mochila. Uma decisão que nada contribui para auxiliar o usuário, principalmente se ele estiver desenvolvendo um uso abusivo da droga.
 
A coluna “Caos in Casa” recebeu depoimentos assustadores. Um pai que chamou a polícia, pois queria ver o filho preso, mas acabou acusado de desacato por discutir com o PM que entendeu que aquilo não era caso de prisão.
 
Outro fez uma fogueira com diversos objetos pessoais do jovem, alegando que tudo estava contaminado pela maconha.
 
Também recebemos histórias de um dialogo mais amigável, como o de uma mãe que temia ver o filho (que tinha 20 anos) apanhando da polícia. Por isso, ela pediu para ele fumar apenas em casa e, após se informar pelo Hempadão, permitiu a montagem de uma pequena plantação de cannabis caseira.
 
É possível repudiar o uso de maconha pelo filho sem criar uma crise completa no lar. A cannabis é desaconselhada para adolescentes não apenas por uma questão jurídica de maioridade, mas por poder atrapalhar a formação cerebral de jovens e potencializar o desenvolvimento de distúrbios da mente (como a esquizofrenia) em quem tenha predisposição para a doença. Outro malefício é o risco de crise motivacional, com a diminuição do interesse por algumas atividades de rotina.
 
Entretanto, a condenação moral do uso de maconha, como a expulsão de casa ou a aplicação de outras punições autoritárias, são uma péssima escolha para pais preocupados com a saúde dos filhos.
 
Provavelmente, o jovem usuário se informou sobre os malefícios e benefícios da erva e sabe que boa parte dos argumentos utilizados para manter a proibição carecem de fundamento científico. Alguns são escancaradamente mentirosos.
 
O clássico “onde foi que eu errei” deve passar na cabeça de muitos pais em momentos como este. É difícil aceitar quando as escolhas dos filhos contrariam nossas convicções pessoais. Mas é importante ter em mente que reação agressiva pouco ou nada ajuda para restabelecer os laços afetivos.
 
É fato que o uso de maconha por adolescentes é desaconselhado pelos motivos citados acima. Mas isso não pode ser motivo para o abalar o relacionamento entre pais e filhos. Agindo desta forma, o risco do jovem usuário da cannabis desenvolver um uso problemático torna-se ainda maior. Acolher é melhor do que expulsar.
 
 
Carta Capital
 

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Fala Santos
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