Sindical
26/11/2018 - 03h41

A batalha de Volta Redonda


Há exatos 30 anos acontecia a última intervenção violenta dos militares no País, contra sindicalistas da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Três operários morreram, 35 ficaram feridos e a cidade viveu longas horas de terror


 
A situação parecia controlada e o Brasil vivia sob um novo regime. A ditadura tinha oficialmente acabado três anos antes e a nova Constituição, promulgada no mês anterior. Não havia motivo para qualquer tipo de recaída repressiva e autoritária. Mas ela veio e atingiu em cheio a cidade de Volta Redonda, no dia 9 de novembro de 1988. O País estava sob o governo de José Sarney e o Exército decidiu intervir numa greve na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que estava paralisada há dois dias e tinha sido ocupada por cerca de cinco mil trabalhadores. Foi a ação mais violenta dos militares contra a população civil nos últimos 30 anos no País. Três trabalhadores morreram, William Fernandes Leite, 23 anos, e Valmir Freitas Monteiro, 27 anos, atingidos por tiros de fuzis, e Carlos Alberto Barroso, 19 anos, morto com coronhadas na cabeça. Outras 35 pessoas ficaram feridas. Tratou-se de um enfrentamento de grandes proporções, que envolveu centenas de soldados, uso de tanques e lançamento de bombas. Os conflitos começaram por volta das 18 horas e se estenderam até meia-noite em duas frentes: dentro da usina e pelas ruas do bairro Vila Santa Cecília, onde está o portão principal da CSN.
 
O Exército chegou por volta das 18 horas com uma estratégia de reocupação da usina, considerada área de segurança nacional, e partiu imediatamente para a repressão. A entrada da CSN estava ocupada por metalúrgicos e manifestantes do movimento estudantil, das comunidades eclesiais de base, de associações de moradores e de outros sindicatos. “A cidade inteira estava a favor do movimento”, lembra o historiador Marcos Aurélio Gandra, do Centro Universitário de Volta Redonda, estudioso do assunto que participava do movimento estudantil naquela época. “A greve da CSN foi uma experiência de controle operário que desafiava muito o sentimento de poder dos militares sobre a usina e eles agiram como se estivessem em uma guerra contra um outro país”. O Exército cometeu atos de vandalismo, cortou a luz da cidade, espancou pessoas pelas ruas e usou munição real para enfrentar os manifestantes. As tropas eram comandadas pelo general José Luiz Lopez.
 
Desde 1984, havia, todos os anos, paralisações da categoria ou adesões a greves gerais contra o governo Sarney em Volta Redonda. As intervenções militares também aconteciam com a mesma regularidade, mas não descambavam para a violência extrema. Em 1988, pela primeira vez, os operários decidiram que iriam resistir e que não abandonariam a CSN nem por determinação da direção do sindicato nem por imposição do Exército enquanto suas reivindicações não fossem aceitas. Os pleitos incluíam o reajuste salarial de 26% relativo ao Plano Bresser, a readmissão de demitidos em outras greves e a implementação do turno de seis horas para o regime de revezamento. Desde a fundação da CSN os militares tiveram muita ascendência sobre a empresa e, no final dos anos 80, sabiam tudo o que acontecia dentro da usina. Como outras estatais, a CSN ainda tinha a sua policia política funcionando como na época da ditadura. Chamava-se Assessoria de Segurança e Informação (ASI) e contava com uma estrutura de vigilância e espionagem sobre os operários e sobre a cidade.
 
A batalha de Volta Redonda causou enorme comoção social em todo o País e afundou ainda mais o governo Sarney, desprestigiado por causa de vários planos econômicos fracassados. Os trabalhadores saíram vitoriosos da greve, tiveram suas reivindicações atendidas e deixaram as instalações da usina no dia 10. Os militares ainda se mantiveram na cidade até o dia 23. O movimento da CSN e a reação truculenta do Estado acabaram levando a uma forte reação popular e a uma onda de eleições de políticos de oposição para prefeituras de grandes cidades, como Luiza Erundina (PT), em São Paulo, Olivio Dutra (PT), em Porto Alegre, e o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, Juarez Antunes (PDT), que se elegeu para a Prefeitura da cidade do aço, mas morreu em um acidente de carro dois meses depois de assumir o mandato.
 
Forças repressivas
 
Segundo Gandra, os arquivos militares sobre o episódio de Volta Redonda seguem inacessíveis. O relatório da Comissão Municipal da Verdade, concluído em 2015, cita 14 casos de violações graves contra os direitos humanos e conclui que a cidade foi “palco de uma ditadura tardia”. Para Gandra, a greve de Volta Redonda foi uma demonstração concreta da capacidade de organização dos trabalhadores, “assustou as forças repressivas do país e fugiu do script da abertura lenta, gradual e segura, planejada pelos militares na democracia tutelada brasileira.” “Hoje o Brasil vive uma situação parecida, quem defende a democracia está preocupado com a empolgação dos militares no novo governo eleito e também com algumas manifestações do presidente Jair Bolsonaro de criminalizar os movimentos sociais, perseguir ativistas políticos e de não respeitar os sindicatos e o movimento dos sem teto”, afirma. A preocupação que havia no final da década de 80, de alguma forma, retorna hoje.


IstoÉ
 

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