Tecnologia
14/12/2018 - 04h22

O mundo entrou em guerra pela tecnologia 5G


Prisão da executiva da Huawei tem a ver, na verdade, com a disputa pelo domínio tecnológico
 
A prisão de Meng Whanzou no Canadá, a pedido dos EUA, no último dia 1º, dá o tom para uma briga na tecnologia que começou a ficar muito feia. Meng, que é CFO da chinesa Huawei, filha do fundador Ren Zhengfei e percebida como sua herdeira, estava saindo de um avião para pegar uma conexão. É acusada de ter violado as sanções americanas contra o Irã, vendendo tecnologia dos EUA para o governo dos aiatolás. Ninguém acha que esta é a razão de fato. A Casa Branca quer impedir que a China domine a infraestrutura de telecomunicações do mundo.
 
Em todo planeta, operadoras de telefonia celular começam a comprar equipamento para instalar suas redes 5G. Não se trata, apenas, da nova geração, após 3G e 4G, uma internet móvel mais rápida do que a anterior. 5G não será apenas muitas e muitas vezes mais rápido do que 4G: cai também, e muito, a latência. O sinal que sai de um celular chega no outro de imediato. É por isso que 5G é fundamental para o mundo da internet das coisas, onde todas as máquinas se comunicam. Porque o recebimento da mensagem é instantâneo, um carro autômato pode dizer ao outro ‘estou aqui’ e impedir uma batida por fração de segundo. Um futuro próximo cheio de drones, de geladeiras que fazem a lista de compras, e sensores que avisam o médico de que seu paciente cardíaco está enfartando - tudo depende de 5G.
 
É um negócio com vários pedaços. O consumidor final costuma entrar em contato com o fabricante do celular - a Apple, a Samsung, a Motorola. Mas há também quem fabrica o chip dentro do celular. A Samsung costuma fazer os seus próprios. A Apple desenha os seus e os fabrica fora. Mas, em geral, lá dentro dos smartphones está um chip Qualcomm. Em março deste ano, a Broadcom de Cingapura tentou comprar a Qualcomm, que é americana. A Casa Branca interveio para impedir a venda. A cidade-estado é próxima demais da China e manter sob controle de uma empresa dos EUA essa tecnologia era fundamental.
 
Um terceiro pedaço do negócio são as antenas e roteadores que as operadoras compram. Este é um ramo dominado por três companhias. A Ericsson sueca, a Nokia finlandesa. E a Huawei. Sendo que, por ser chinesa e ter cativo o mercado local, a Huawei sai de cara com um volume de produção muito maior do que as duas concorrentes escandinavas. Volume quer dizer a capacidade de oferecer preços mais baixos. E preços baixos são um atrativo e tanto para operadoras, que precisam investir em infraestrutura cara e trabalham com margens de lucro baixas.
 
Num ambiente de mercado aberto, jogo jogado, a China teria um bom naco da infraestrutura da internet para os próximos vinte anos. Mas os chineses não acreditam em livre mercado, Donald Trump muito menos, e a globalização está sob ataque pela nova direita. As regras do jogo mudaram. Agora, até prisão de executivos numa guerra comercial é lance possível. Esta semana, os chineses detiveram um ex-diplomata e um ativista, ambos canadenses. Estão sendo questionados sobre a possibilidade de serem subversivos. Como no caso de Meng Whanzou, é só desculpa. Se o Canadá, formalmente uma democracia, pode, por que uma ditadura não poderia?
 
Não é irrelevante o fato de que agências de inteligência de EUA e Reino Unido acusam a Huawei de implantar chips espiões, que permitiriam a entrada de hackers chineses, em suas máquinas. Outra companhia, a Supermicro, foi acusada do mesmo em outubro. Apresentou agora uma auditoria que diz provar ser acusação falsa. Ninguém jamais provou que a Huawei está a serviço da espionagem chinesa. Mas, ora, o fundador veio do Exército, onde fez carreira. Não é impossível. Não quer dizer que as agências ocidentais digam a verdade.
 
Algo, afinal, já se provou: o jogo é sujo de ambos os lados.
 
 
Pedro Doria
 

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