Geral
26/12/2018 - 04h23

Menino cego vive o Natal pela ponta dos dedos, pelo cheiro e paladar


Guilherme Scorza, de 10 anos, nasceu sem enxergar.


 
Ao contrário do que acontece com a maioria das crianças, o vermelho chamativo da roupa do Papai Noel não faz diferença para Guilherme Scorza, de 10 anos. O menino, cego desde seus primeiros dias de vida, faz um teste com as mãos para ver se a barba é de verdade mesmo. O toque é seu principal guia. “Eu sei que é ele por causa do gorro. Só o dele tem um pompom na ponta. O Natal é minha data preferida”, conta Guilherme.
 
A deficiência visual fez com que ele adaptasse seu modo de ver o mundo. As tradicionais cartas enviadas ao Papai Noel com pedidos de presentes tiveram de ser substituídas pela mãe, Imaculada Scorza, por arquivos de áudio.
 
A cegueira veio sem avisar. Imaculada conta que só soube dessa condição cinco meses após o nascimento do filho, em exames de rotina. “Os olhos dele eram castanhos, naturais. E, ele olhava para a gente”, relembra.
 
Após a descoberta, ela precisou reaprender a ser mãe. “Depois do choque, foquei em encontrar meios de ajudar meu filho. Tapei meus olhos e tentei me localizar dentro de casa. Percebi que não era um ambiente seguro para uma criança cega”.
 
A casa precisou ser adaptada, inclusive, no Natal. “Tivemos de colocar a árvore num canto, porque o Guilherme tropeçava bastante”, diz Imaculada. Ela também não usa luzes pisca-pisca, por medo de o menino mexer e levar um choque.
 
 
Guilherme usa os outros sentidos para enxergar o mundo à sua volta. Ver, para ele, significa tatear. “Minha mãe montou a árvore. Ainda não vi a parte de baixo, mas a de cima está muito bonita, cheia de bolinhas”, comenta. Os professores, o menino conhece pelo “cheiro”, o que o levou a pensar em presentes que facilitassem o reconhecimento de cada um deles. “Escolhi sabonete líquido. É bem cheiroso”.
 
Esse modo de perceber o mundo é explicado pela pedagoga Sandra Augusta, do Lar das Moças Cegas, em Santos. “Para conhecer as coisas, a criança cega precisa tocar. Mas também usa os outros sentidos, ouvindo e sentindo o cheiro e o paladar”.
 
O Natal fica mais elaborado para uma pessoa cega, diz Sandra. “Por conta do pernil, da ceia, acaba sendo uma data de cheiros. O próprio verão traz isso. As crianças dizem que sentem o cheiro das férias”, argumenta.
 
Os alunos de Sandra Augusta desenvolvem atividades natalinas, com músicas da época e cartões para os pais com o carimbo da mão das crianças. “A sensação da tinta na mão é muito gostosa para a maioria deles”, diz.
 
A pedagoga considera a participação da família essencial no desenvolvimento dos sentidos da criança deficiente visual. “Quando os pais envolvem seus filhos, mostram e descrevem tudo que se refere ao Natal, fica mais fácil trabalhar com as crianças”.

 
 
G1 Santos
 

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