Trabalho
28/12/2018 - 03h35

Tempo de esperanças


Mais empregos, menos desigualdade. Desejos que se renovam


 
Novo ano, novíssimos tempos. Mais que tudo, porém, novas esperanças. Hora de fechar o balanço de 2018, com todas as suas conquistas e decepções, e de retomar a lista de desejos e promessas para 2019. E, na economia, como essa lista é extensa! São expectativas remanescentes dos últimos anos e outras que ganham corpo com a chegada ao poder de um novo governo, depois de uma eleição que derrubou a dualidade política dominante no País ao longo de quase três décadas e trouxe à luz uma agenda social que parecia superada há bom tempo.
 
Sem perigo de errar, no topo do ranking dos desejos da maioria da população para a economia, está a retomada firme do crescimento. Leia-se a retomada do emprego. Claro que não a volta daquele pleno emprego que andou frequentando algumas áreas do Brasil no período de PIB acelerado, lá pelos idos de 2010/2012, a ponto de representar, para muitos analistas, um risco de descontrole da inflação. Mas a recuperação de um saudável dinamismo do mercado de trabalho, capaz de garantir a absorção das levas de desocupados ainda existentes no País – são cerca de 12,3 milhões, segundo as estatísticas mais recentes do IBGE – e também de ampliar a oferta de vagas de maior qualidade, dentro do circuito da formalidade. 
 
A criação de 858,4 mil empregos com carteira assinada, contabilizada de janeiro a novembro, pode ser vista como um bom sinal nessa direção, embora o saldo ainda seja modesto, diante de três anos seguidos de cortes, que ceifaram 2,88 milhões de postos formais. A equipe ultraliberal comandada por Paulo Guedes emite sinais de que pretende fazer uma ampla desoneração da folha de pagamento, e com isso, estimular a criação de empregos. Mas não só é duvidoso um efeito rápido dessa estratégia no mercado de trabalho, como não dá para levar fé na sua aplicação – a julgar pelos movimentos erráticos do time de Bolsonaro sobre programas de governo e pelas dificuldades de arrumar recursos para tapar o buraco aberto com a medida.
 
A chave para uma melhora rápida e consistente no emprego, sem dúvida, seria a reanimação dos investimentos. Mas ainda não dá para contar com esse impulso num horizonte próximo, por mais que os índices de confiança empresarial mostrem uma evolução favorável.
 
Os indicadores sociais mais recentes comprovam que a prioridade para o emprego não se esgota em si mesma. Com a queda do emprego, veio naturalmente o aumento da pobreza – embora alguns especialistas, como Ricardo Paes de Barros, avaliem que esse impacto poderia ter sido bem maior. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, por vários critérios adotados com essa finalidade, é possível concluir que aumentou a pobreza entre 2016 e 2017. A linha da pobreza estabelecida pelo Banco Mundial, de um rendimento de até R$ 406 por mês, indica que a participação desse contingente na população brasileira passou de 25,7% para 26,5% no período. Ou, em números absolutos, de 52,8 milhões para 54,8 milhões de pessoas.
 
Na extrema pobreza, com remuneração de até R$ 190 por mês, a variação foi de 6,6% para 7,4%, ou de 13,5 milhões para 15,2 milhões de pessoas. Mas não é apenas o baixíssimo rendimento que atesta os inúmeros e graves problemas sociais do País. Ainda de acordo com o levantamento do IBGE, 27 milhões de pessoas viviam em 2017 em moradias inadequadas, onde falta quase tudo, de banheiro exclusivo a coleta de lixo e saneamento básico.
 
Completando o quadro preocupante, persistem outros sinais de desigualdades sociais, tanto por sexo, como por cor e por região do País: brancos ganham em média, 72,5% mais do que pretos ou pardos, homens recebem 29,7% a mais que as mulheres. E, no Norte de Nordeste, os rendimentos da população ocupada correspondem a 77% e 69% da média nacional. Esse cenário de desigualdades está à vista de todos e à espera de políticas efetivas – mais do que políticos com promessas mirabolantes – que promovam mudanças profundas e duradouras.
 
Pesquisa Datafolha de dezembro mostra um elevado otimismo com o futuro da economia e do País: 65% dos entrevistados acham que a situação econômica do Brasil vai melhorar, 67% confiam na melhora da sua própria situação e 47% acreditam na queda do desemprego. Otimismo recorrente em mudanças de governo, mas num grau maior do que as anteriores.
 
A partir de janeiro, porém, com os motores do governo Bolsonaro já ligados, será possível comprovar se as esperanças da população serão transformadas em expectativas ancoradas na realidade ou serão novamente adiadas, como tantas outras vezes.


O Estado de S. Paulo
 

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